Hora Zero
ÍNDICE
Capítulo I - O que eu fiz?
Capítulo II - A missão
Capítulo III - A detentora do poder sagrado
Capítulo IV - Redenção
Capítulo V - Te amo imensamente
Capítulo VI - O deus do trovão
Capítulo VII - Adeus, amigos
Capítulo VIII - A batalha final

Texto: Rafael de Agostini
Arte: Niori
Capítulo I – O que eu fiz?
17 horas - Umbala
- Bem, aqui estamos. Sabe como continuar sua jornada, não, majestade?
- Não diga quem sou em voz alta.
Rei Tristan III, governante máximo de Rune Midgard. Raramente o monarca era visto fora do castelo, com exceção de alguns compromissos sociais, como a realização de casamentos. Porém, um certo homem tinha feito com que saísse de Prontera e viajasse até a longínqua Umbala.
- Não se preocupe, Tristan... posso chamá-lo assim? Ninguém entende nossa língua aqui.
- Está bem, barão.
Ajeitando o capuz sobre a cabeça, o rei olhou a entrada na árvore, no extremo norte da cidade suspensa de madeira.
- Tudo que tenho que fazer – continuou – é tirar uma lasca da raiz da Yggdrasil, certo? E aqueles três podem me ajudar nisso?
- Exatamente. Guarde com cuidado o pacote que lhe dei, e não deixe ninguém vê-lo; nem a Rainha dos Mortos. Ela jamais entenderia o significado de sua busca.
As palavras mexeram com o rei. Viúvo há alguns anos, seu coração batia de saudades por Katheryn. Foi duro o choque da morte – uma dessas que folhas de Yggdrasil convencionais não resolvem. E foi conveniente a visita do Barão R. Ruts, de Juno. Ele, dito “Alquimista nas horas vagas”, jurava estar perto de descobrir a Pedra Filosofal da vida, com a qual traria qualquer pessoa, morta em qualquer circunstância ou período, de volta à vida. E se realmente houvesse uma chance de apagar a dor da perda de Katheryn e poder abraçá-la mais uma vez, Tristan assim faria.
- Eu voltarei, Ruts. Com a ajuda dos três, vou retirar uma lasca da árvore de Yggdrasil e... bem, você fará a sua parte.
A resposta foi uma mão no ombro e um sorriso cheio de dentes do Barão. O rei ajeitou seu capuz, certificou-se da espada escondida por baixo do manto e adentrou a Carpintaria que o levaria para Nifleheim.
***
17 horas e 20 minutos – Nifleheim
O barulho de metal gasto e dobradiças enferrujadas dominava o ar pesado da cidade dos mortos. O chão de pedra, molhado e sujo, tinha pedaços de espadas quebradas e pontas de flechas. Provavelmente o Senhor dos Mortos tinha passado por ali recentemente, enfrentando os tolos aventureiros vivos que ousam desafiá-lo em sua casa. Alheio a isso, a passadas rápidas, Tristan foi até um homem também encapuzado. Trocou rápidas palavras com ele e foi enviado para a mansão da Rainha dos Mortos.
Andou depressa por um corredor acarpetado, cheio de mobília e riquezas. Finalmente chegou até uma sala com um trono branco enorme. Nele, uma mulher muito bonita sorriu ao ver o monarca. Ela levantou o olhar, mexendo com a cabeça os longos cabelos negros. Cruzou as pernas, até então ocultas no finíssimo vestido longo que usava.
- Mas que surpresa ser visitada por ninguém menos que o Rei de Rune Midgard! Seja bem-vindo, Tristan III – disse ela, fazendo um breve movimento de cabeça.
- Saudações, Rainha dos Mortos, governante de Nifleheim – o rei devolveu a reverência, aparentemente inconfortável naquele lugar.
- A que devo a sua rara visita? Não veio fazer Água Amaldiçoada, acredito.
- De modo algum. Na verdade, imaginei que pudesse saber o motivo de eu estar aqui.
- Não sei, meu caro – um fino sorriso surgiu em seus lábios – tenho controle sobre os mortos que aqui estão. Quando quero, vejo por seus olhos, ouço suas mente, escuto suas orações... mesmo as que não são feitas para mim. Mas não tenho domínio algum sobre os vivos... ou sobre os mortos que foram para Asgard.
- Entendo. Bem, eu preciso visitar três de seus prisioneiros.
- Logo três? Uau... e quem seriam eles? Bem especiais, imagino... afinal, para fazê-lo vir aqui pessoalmente...
Suando um pouco, Tristan tirou um papel de um bolso interno do manto e se aproximou da Rainha. Entregou-lhe e se afastou, esperando. A expressão dela, sorridente, mudou para a surpresa. Suas sobrancelhas finas se ergueram. Os olhos, negros como a noite, ignoraram o rosto abaixado e buscaram o homem ali parado.
- Ora... isso é realmente inesperado. Eles tentaram matá-lo recentemente. Aliás, eu preciso te agradecer, pois foi isso que os mandou para cá. Meninos muito malvados...
- Por favor, conceda-me uma breve conversa com eles.
- Claro. Você realmente deve ter ÓTIMOS motivos para falar com eles.
Com um movimento de mão, a Rainha dos Mortos fez um portal surgir na parede atrás dela. Olhou então para o rei, interessada.
- Este portal ficará aberto por apenas trinta minutos. Não preciso dizer que deve voltar antes dele se fechar, não? Caminhe sempre reto. Minha magia vai guiá-lo até a cela.
- Eu voltarei, e lhe agradeço.
- Não há de quê, rei dos homens.
Quase com desdém, a Rainha ajeitou-se em seu trono. Bateu duas palmas, e enquanto Tristan se afastava, pôde notar um servo entrando com uma garrafa de vinho e uma taça em uma bandeja de prata.
Caminhou por alguns segundos pelo corredor longo e escuro. A sensação era de ter andado centenas de metros, até notar, bem na frente, a luz de tochas. Continuou até alcançá-las, e notou que eram duas, ladeando as grades de uma cela única.
- Quem está aí? – perguntou uma voz masculina, vinda do fundo da cela escura, onde a luz bruxuleante não alcançava.
- Rei Tristan III, governante de Rune Midgard. Exijo uma audiência com vocês agora.
- Não temos tempo a perder com você, vovô. Vá embora – uma segunda voz masculina deu a impressão de estar segurando o riso.
- Apareçam, pois o que tenho a lhes dizer é extremamente importante.
- E o que acha que nos faria prestar atenção em você, velho? – agora foi uma voz feminina que se manifestou.
O rei não respondeu. Com cuidado, retirou o pacote que ganhou previamente do Barão R. Ruts. Sentiu-se observado, e três pares de olhos puderam ser vistos brilhando no escuro. Eles se aproximaram, e finalmente se revelaram: um Mestre-Ferreiro, um Desordeiro e uma Paladina. Os cabelos estavam sujos, e seus olhos eram totalmente brancos.

- Que bom que tenho sua atenção, Hrymm, Jestr e Jô Mungandr. Agora gostaria de lhes fazer um pedido.
- O que quer? – disse o Mestre-Ferreiro, apoiando os braços musculosos na grade, para fora da cela. Tristan deu alguns passos para trás.
- Há alguns anos, minha esposa, Kathryne, morreu. Não agüento viver com a saudade dela, e minha responsabilidade como governante é o que me mantém firme.
- Era pra eu chorar, é? – Jester girou os olhos, entediado, e sentou-se no chão. Jô Mungandr se aproximou e parou ao lado do Mestre-Ferreiro, ouvindo, interessada.
- Conheci um homem que é capaz de trazê-la de volta definitivamente. E, para isso, preciso de uma lasca da árvore de Yggdrasil.
Ao ouvir isso, a Paladina olhou abruptamente para o Desordeiro. O Mestre-Ferreiro parecia uma estátua. Pelo movimento dos músculos do rosto, ele estava apertando os dentes do fundo da boca. Continuou imóvel, olhando para o rei.
- Eu sou um mortal e não tenho o poder de retirar uma lasca dela. Vocês, porém, são avatares divinos. Vocês possuem o poder para isso. Portanto, peço sua ajuda para esta simples missão.
- Não podemos ajudá-lo.
- Como não?
- Estamos mortos, “Rei Tristan Terceiro” – Hrymm falou com certo desprezo o título do homem.
- Bem, há uma maneira.
- Que seria?
O rei desembrulhou parcialmente o pacote que segurava. Um pequeno brilho prateado foi visto saindo dele.
- O que eu tenho aqui pode ajudar sua condição atual.
- Então nos reviva – a resposta de Hrymm foi rápida.
- Eu quero saber primeiro se estão dispostos a me ajudar. Se estiverem, vou pedir autorização para a Rainha dos Mortos, para que me auxiliem.
- Não tem que pedir autorização para isso. Somos servos dela. Não podemos fazer nada que ela não queira que façamos. Se você nos reviver e sair daqui conosco, e não for a vontade dela que o acompanhemos, ela não permitirá. Não temos como desafiar o poder dela.
O silêncio pesou por vários instantes. Tristan colocou uma das mãos dentro do pacote e segurou algo. Ficou analisando o rosto daquele homem forte e louro na sua frente.
- Como era o nome dela mesmo? – disse Hrymm.
- Kathryne – disse Jestr, agora ficando de pé ao lado do Mestre-Ferreiro, olhando também para o rei.
- Isso, Katheryne – continuou Hrymm – Não quer trazer a sua doce esposa de volta? É sua chance, Tristan... sua única chance...
Jô Mungandr abaixou a cabeça e fechou os olhos. Tristan respirou fundo e soltou o ar devagar. Ficou encarando o Mestre-Ferreiro que lhe servira no passado. Sua mão surgiu por debaixo do pano, erguendo uma folha de Yggdrasil prateada. Esmagou-a, ao mesmo tempo em que pronunciou baixinho um “Ressuscitar”, mirando no Mestre-Ferreiro. Na sala da Rainha dos Mortos, ouviu-se algo caindo no chão e se quebrando. Ela vinha voando em alta velocidade pelo corredor.
- Tristan, seu tolo! O que está fazendo?
Mal ela terminou de falar, a folha esmagada na mão do rei tornou-se uma fina nuvem brilhante e foi até o corpo do Mestre-Ferreiro. Seus olhos ganharam cor novamente. Sua boca sorriu.
- Nada, Rainha – disse o Rei – Eu vim requisitá-los em uma missão. Se não for sua vontade, como governante de suas almas, basta uma palavra sua para que eles se curvem diante de seu poder e a obedeçam.
- Idiota! Eu lhe falei! Meus poderes se aplicam aos mortos, não aos vivos!
Hrymm esticou para os lados as barras da cela como se elas fossem de cera. A primeira coisa que fez foi dar um murro na cara da Rainha dos Mortos. A mão dele, viva, atingiu-a em cheio, mandando-a vários metros para trás. A seguir, ele tomou as duas folhas restantes das mãos de Tristan. Ignorando-o, esmagou-as e repetiu o processo. As nuvens finas e brilhantes também voaram até Jestr e Jô Mungandr, que as receberam de olhos fechados. Quando os abriram, porém, a exemplo do Mestre-Ferreiro, agora eles também tinham cores.
Sem perder tempo, os três correram para a luz, na direção da sala do trono. Desesperado, Tristan foi atrás deles. Voando, a Rainha dos Mortos também os seguiu.
- Esperem! – gritou o rei – Vocês devem me ajudar! Cumpram sua parte!
- Não vamos fazer nada por você, idiota! Deixei de ser seu servo há muito tempo! – disse Hrymm, olhando ao redor – Jestr, procure nossos equipamentos.
O Desordeiro sorriu e saiu correndo a uma velocidade incrível. A Rainha dos Mortos apareceu na sala, seguida do rei.
- Jamais sairão de meu reino! Eu invoco o guardião deste lugar e meu campeão, o Senhor dos Mortos!
O chão começou a tremer. Passadas poderosas e pesadas puderam ser ouvidas, se aproximando cada vez mais. De repente, na sala do trono, o ar expelido das narinas de um cavalo branco enorme deixou o ambiente mais frio. Um poderoso cavaleiro, gigante, de armadura branca, escudo abissal e lança, encarava o Mestre-Ferreiro e a Paladina. Ao lado deste cavaleiro, um punhado de Andarilhos, com as cabeças de caveira e espadas afiadas, apenas esperava a ordem de ataque.
- Ataque e mate imediatamente estas pessoas, meu guardião! – disse a Rainha, apontando para a dupla.
Hrymm olhou de soslaio para a Jô Mungandr. Cerrou os punhos, desarmado, e avançou contra o cavaleiro. Ao mesmo tempo, a Paladina, também desarmada, avançou contra os Andarilhos. Ela recebia os ataques de suas espadas, mas parecia ignorá-los. Um a um, começou a socá-los e derrubá-los. Hrymm, por sua vez, pulou por cima da lança do cavaleiro e escalou seu enorme cavalo. Segurou seu pescoço e, com um movimento de corpo, puxou o cavaleiro e sua montaria por cima de seu corpo, girando-o no ar, fazendo com que caíssem no chão atrás dele. A violência do golpe foi tamanha que o chão de pedra se rachou. Não satisfeito, Hrymm arrancou o cavaleiro da sela e correu com ele, na direção da parede. Afundou-o nela, então, abrindo um buraco para os jardins da mansão. O rei Tristan e a Rainha dos Mortos olharam boquiabertos pelo buraco a força e rapidez dos golpes do homem, que moíam o cavaleiro. Os Andarilhos foram invocados para perto dele, em uma vã tentativa de se proteger. A Paladina passou correndo e pulou por cima da dupla pasma, e ajudou o Mestre-Ferreiro a surrar o cavaleiro branco. Em poucos segundos, uma breve aura explodiu em cima do Mestre-Ferreiro, formando a sigla “MVP”, enquanto o Senhor dos Mortos caía inerte.

- Chama mais um – falou Tristan, de olhos rápidos e coração acelerado.
- Não posso, tem um tempo pra eu poder chamar outro – respondeu a Rainha.
Tristan notou pegadas no chão, passando por eles. Ergueu o olhar e percebeu que o Desordeiro tinha surgido junto da dupla fugitiva, carregando uma cortina, que estava abraçando algumas dezenas de coisas.

Hrymm, Jestr e Jô Mungandr correram pela cidade, na direção da Kafra. Rapidamente avançaram, com Hrymm e a Paladina destruindo qualquer um que ficasse em seu caminho, enquanto Jestr carregava o embrulho enorme. Pararam na frente da moça, com a aura negra e olhos brilhantes.
- Em que posso ajudá-lo? – disse ela, cumprindo seu dever, olhando na direção de Hrymm.
- Dê-me três Asas de Borboleta.
- Aqui estão – tudo que a Kafra morta-viva fez foi abrir a mão com os itens, que surgiram do nada.
Hrymm entregou uma para cada um dos amigos e sorriu.
- Sonhei com a chegada deste dia. Vamos, depressa! Temos muito a fazer.
Os três apertaram as Asas de Borboleta, e em um facho de luz, sumiram. O desolado Rei Tristan se aproximou, olhando assustado para a Kafra, que ignorava-o. A Rainha dos Mortos, com a expressão apreensiva, olhou para o rei.
- Eles precisam ser detidos, antes que façam o que querem fazer.
- O que eles farão?
- A mesma coisa que eu faria no lugar deles, Tristan.
A Rainha olhou para o portão ao oeste. Notou os aventureiros que insistiam em treinar em suas terras, enfrentando os Serial Killers e as Loli Ruris.
- Em grupo eles quase venceram os heróis de Rune Midgard. Foi por muito pouco que vocês os derrotaram. Muito provavelmente eles querem uma nova chance. Sozinhos, não acredito que estes três, por mais poderosos que sejam, possam vencê-los de novo. Mas a Ruína de Rune Midgard inteira teria chances ENORMES de destruir todos vocês em uma segunda batalha.
- Você está sugerindo que...
- Sim. Eles devem ter ido tentar reviver seus companheiros de guilda. Temo que eles queiram ressuscitar toda a Ruína de Rune Midgard!
Tristan entendeu tardiamente as conseqüências do que fizera. Ouviu então atentamente as instruções da Rainha dos Mortos. Aquela loucura deveria ser detida o quanto antes, e da maneira mais discreta possível.
***
