- As leituras estão fora de controle!
- Aumentem a quantidade de Mana.
- Mas não temos como garantir a integridade da Terra Sagrada caso ele...
- Não discuta. Faça o que mando. Redirecione o poder do Coração de Ymir agora!
-
Por tudo que é mais sagrado! Os aparelhos estouraram! Por Freya! Ele
está solto! E em chamas! Não! As chamas são parte dele! Ele está vindo
na minha direção! Aaah!
- ... ótimo. Abram todos os caminhos da Terra Sagrada. Traga a Papisa para o ritual, Pesar Noturno.
***
Garra das Trevas

Roteiro e texto: Rafael de Agostini Ferreira
Character design e arte: Daniel "NIORI" Uires
Artista especialmente convidado: Roberto "Huxley" Enachev (capa)
Os acontecimentos desta história encontram-se na ordem apresentada na seguinte linha cronológica:
Eclipse Final
Ruína de Rune Midgard
Hora Zero
Fim de Rune Midgard
Shirabara
Dämmerung
-> Garra das Trevas
Morroc Saga
***
Capítulo 3 ~ Luz e Sombras
- Entre.
A
figura sombria saltou para dentro do luxuoso escritório no templo de
Rachel. Enquanto uma pessoa comum teria ficado chocada, Zhed mal se
limitou a voltar para sua mesa. Pegou uma garrafa e colocou mais uísque
em seu copo.
- Voltou a beber, Bekento? - disse o homem que entrou pela janela.
- O fim está próximo, Jöseph. Não está sentindo no ar?
- O que houve?
- Eles estão agora na Terra Sagrada, com todos aqueles malucos. Estão usando todo o Mana dos Corações de Ymir.
- Isso significa que a Papisa corre perigo.
- Sim.
- "Sim", B? Temos que sair daqui. O aeroplano de Rachel pode nos...
- O aeroporto está fechado. Nenhum vôo parte ou aterrissa.
Um barulho veio da porta da sala. Jöseph desapareceu, enquanto Zhed Bekento apenas completou o gelo em sua bebida.
- Não se preocupe. Foram as travas liberadas. Ao que parece, estão abrindo o caminho para o Pesar Noturno subir.
- Onde está a Papisa?
- Com o visitante de Rune-Midgard, o Leafar Belmont.
Zhed
notou que Jöseph engoliu seco por baixo da máscara pontuda, contendo
algum comentário. Viu que o Mercenário apertou as mãos com força, com
os punhos fechados.
- Algum problema, meu amigo?
- Não, Zhed. Estou preocupado. Preciso subir até o templo e tirar a Papisa de lá.
-
Está ouvindo os passos, Jöseph? Eles estão se espalhando. Aqueles
fanáticos, de categoria Isilla e Vanberk, se escondendo com máscaras...
nem mesmo você será capaz de passar por todos eles.
- Ele não irá sozinho!
Os
dois olharam para a janela. Uma Mercenária estava nela, abaixada. Usava
um elmo escuro, com penas mais escuras ainda. Um pingente roxo e
dourado estava confortável entre seus seios, visíveis pelo generoso
decote. Com o vento que batia ocasionalmente em seu manto pontudo, era
possível notar as lâminas afiadas de katares, presos em suas coxas.
- Raven! - Zhed levantou as sobrancelhas - Pensei que tivesse morrido! Há eras que não tinha notícias suas!
-
Eu tive alguns probleminhas. Digamos que eu esqueci meus equipamentos
no bolso de outra calça. Literamente. - a mulher mascarada olhou feio
para Jöseph.
- Fico me perguntando como conseguiu achar sua "calça perdida", Raven. - o homem deu as costas, indo para a porta.
- Eu não sou quadrada. Sei me virar. Muito bem por sinal, querido.
O Mercenário olhou pela abertura da porta e voltou-se para Zhed e Raven.
- Zhed, - disse baixinho - Raven e eu vamos tentar alcançar a Papisa e tirá-la de lá. Pode nos providenciar alguma rota de fuga?
- Não posso. Se sonharem que estou macomunado com vocês, posso ser morto. E não serei útil assim.
- Nós vamos salvar a garota.
- É um prazer rever vocês também! - Raven balançou a cabeça negativamente, indignada.
- Boa sorte dupla din... - Zhed foi interrompido pelo dedo de Jöseph em seu rosto.
- Não nos chame assim.
- Não fique tão irritado, "Garra das Trevas". - Raven falou com a voz cheia de sarcasmo, momentos antes de desaparecer.
***
- ... e no final foi isso que aconteceu. Chamamos este evento de "Dämmerung", para fins de registro.
- Aaaaah! Que legal, senhor Lea! Nossa, quanta história você tem para contar!
-
É verdade que não são todas minhas, já que meu clone ficou com a maior
parte da diversão, mas eu já dei uma espadada ou duas por aí.
- Não faz mal! Eu adorei todas elas mesmo assim! E sinto muito pela sua filhinha.
Leafar
sorriu. A Papisa tinha pego seus óculos de lentes vermelhas e usava
eles. Tinha tirado o manto e usava apenas a roupa cerimonial de
Sacerdotisa de Rachel, toda branca. O louro, ainda sentado na
escadaria, pegou um pouco de água e molhou sua garganta, seca por tanto
falar. Foi oferecer para a menina, mas viu que tinha acabado.
- Onde tem mais água aqui?
- Eu peço para algum servo trazer!
A
lourinha pegou uma sineta do lado de seu trono. Tocou-a e ficou olhando
sorridente para a frente, mas nada aconteceu. Tocou mais vezes, e nada
de resposta.
- Que incompetentes. Devem estar dormindo!
Enquanto
a menina brigava com a sineta, Leafar levantou-se. Espreguiçou-se e foi
até a borda da sala, que ainda o deixava estupefato. A plataforma
sustentava-se no meio de um céu eternamente azul e ensolarado, mas com
uma temperatura agradável. Outras salas, que se ligavam à principal por
meio de passarelas, tinham árvores, cristais de energia e até mesmo
pássaros. Perguntava-se como aquilo era possível, quando voltou a
atenção para a menina. Ela insistia com a sineta, mas ninguém aparecia.
- Ei, eles costumam demorar tanto assim?
- Não. Devem ter dormido! Cácácácá!
Devagar,
Leafar voltou para perto da Papisa. Ouviu um barulho vindo do pé da
escadaria. Aproximou-se e viu um conjunto de garras tocando o chão de
pedra. A pele da criatura era preta, com as patas brancas. Tinha um
tipo de focinho comprido, com uma boca redonda cheia de dentes. Rosnava
de maneira diferente, como se fosse um motor.
-
Freya, tem outra saída aqui dessa sala? - Leafar aproximou-se da
menina, olhando desesperado para os lados, em busca de algo que
servisse de arma.
- Não, só a escadaria! Já está indo embora?
-
Nós estamos, na verdade. Precisamos ir embora daqui, e rápido! - ele
pegou o bastão que a Papisa tinha largado e segurou firme.
- Eu não posso ir embora, senhor Lea! Só em horas de missa e... e...
A
criatura estava no alto da escada, olhando a menina. Uma língua
bi-partida saía de sua boca. Ela mexia o pescoço, curiosa. Freya
segurou a respiração. Deu três passos para trás e sentou-se no trono.
Soltou um grito alto e estridente, apavorada. Com o grito da menina, a
criatura avançou. Saltou na direção da garota, mas recebeu uma pancada
do cetro dela no rosto, desferida por Leafar. Freya escalou o trono e
começou a chorar. Leafar entrou na frente, ficando entre ela e a
criatura.
- Pare de gritar! Talvez ele vá embora!
- Socorro, senhor Lea!
O
monstro pulou novamente. Leafar segurou firme o bastão e acertou o
focinho do monstro, tornando-se seu novo alvo. "Pelo menos tirei a
atenção dele da Papisa", pensou, enquanto segurava o bastão na
horizontal, com as mãos afastadas. A criatura o olhava, com a língua
mexendo entre os dentes. Suas garras faziam barulho no chão de pedra.
Tomando
a iniciativa, Leafar avançou. Bateu pesadamente no monstro, fazendo-o
recuar. O bastão era resistente e aguentava bem os ataques das garras.
Mas a criatura parecia não se abalar. E, infelizmente, Leafar não era
tão eficiente com bastões quanto era com alguma espada de duas mãos.
Por fim, o monstro pulou. Leafar bloqueou o ataque segurando a arma
improvisada. A boca cheia de dentes afiados tentou alcançá-lo, enquanto
as patas traseiras iam empurrando-o para a frente. Leafar foi sendo
forçado para trás, até ficar de costas para o vazio. A Papisa,
desesperada, pegou uma garrafa de água-benta. Correu para cima dos dois
e jogou ela nas costas do monstro. Tão logo o líquido sagrado a
encontrou, começou a soltar fumaça, dissolvendo-a.
- Bom. - Leafar largou o bastão e chutou o monstro para fora da plataforma - Mas agora precisamos sair daqui.
- Senhor Lea! De onde vieram esses bichos?
- Não sei. Vamos embora, Freya!
Leafar
se ajoelhou e a menina subiu em seus ombros. Ele desceu a escadaria
rapidamente. Abriu a porta e passou correndo por algumas pequenas
salas, até voltar ao primeiro andar do Templo de Rachel. E a visão dos
dois guardas mortos fez o louro engolir seco. A gritaria ao redor
revelou noviços sendo massacrados por criaturas como a que tinha lhes
atacado. Entre eles, homens e mulheres mascarados, de cabelo azul e
vermelho, com facas e cutelos nas mãos.
- Nós temos que...
-
Senhor Lea! - a Papisa segurou a cabeça de Leafar pelo cabelo e virou
para a direita. Uma criatura voadora, rubra, os observava. Ela tinha um
olho imenso, com asas, e a pele era vermelha. E sem aviso, ela disparou
um Trovão de Júpiter, arremessando a dupla para a parede. Teriam
desmaiado na hora, mas alguém agarrou os dois, absorvendo o impacto.
Leafar virou-se, sentindo sua cabeça em algo macio. Era Raven, a
Mercenária mascarada, que tinha pego os dois.
E
antes que o louro tivesse reação, viu um homem com uma longa capa
escura saltar na frente da criatura vermelha. Lâminas muito bem firmes
em suas mãos transformaram o monstro voador em pedaços.
- Quem... quem são vocês?
- Você precisa sair daqui com a Papisa, estrangeiro. - disse Jöseph, voltando sua atenção para eles.
- Muito obrigado por terem nos sal...
Leafar
parou de falar. A princípio, olhou por instinto para o decote generoso
da Mercenária. Mas ficou sem palavras ao reconhecer o pingente roxo e
dourado entre os seios dela. Ela devolveu o olhar e ficaram em um
silêncio perturbador por alguns segundos.
- Não há do quê, moço. - Raven piscou para ele - Agora pegue a menina e saia daqui.
Freya
abraçou Leafar, subindo em seu colo. Ele virou-se para correr, mas
notou um bando de pessoas. As Isilla e Vanberk se aproximavam, entoando
mantras malignos, com suas armas em punho. Raven desapareceu, ao mesmo
tempo que Jöseph avançou. Ele atacava sem piedade, com suas adagas
cortando os homens e mulheres que tentavam alcançar os louros. Foi
reforçado por espinhos que avançavam do chão, com a habilidade de
Tocaia de Raven. E após alguns ataques, a garota surgiu. As lâminas de
seus katares foram mudando do branco para o rubro, com o sangue dos
inimigos. Ela era impressionante - não errava um ataque sequer.
- O caminho está aberto, estrangeiro. - Jöseph virou novamente a máscara pontuda para Leafar - Saiam daqui, depressa!
Leafar
correu para fora do templo, ainda segurando Freya. Viu então que o
pátio estava tomado por fanáticos. Abraçou forte a menina e saltou por
cima da escadaria, aterrissando em segurança no chão de pedra. As
pessoas moviam-se lentamente, tentando alcançá-los. O louro olhou para
trás, antes de atravessar o portão que ligava Rachel ao templo.
- Meu deus...
A
cidade estava tomada por criaturas e fanáticos. O louro engoliu seco.
Olhou para o caminho que levava para a Mansão Belmont. Seria preciso
correr sem parar. Sozinho, talvez conseguisse. Mas carregava a menina
no colo. Foi quando sentiu ela puxar sua camisa.
- Senhor Lea, me coloca no chão. Preciso fazer uma coisa.
Ele
colocou a lourinha de pé e observou. Ela estalou os dedos e invocou sob
si mesma a magia de Aumentar Agilidade. Fez isso em Leafar, mas sua
magia chamou a atenção de um bando de Vanberks. Eles voltaram-se para
os dois e começaram a avançar.
Leafar
pegou a mão da garota e, juntos, correram. Um Vanberk entrou na frente
de Leafar, mas recebeu uma ombrada, caindo em cima de um companheiro. O
louro então pulou no corrimão da escadaria de entrada do templo,
deslizando, e terminou chutando um dos monstros, abrindo caminho. A
Papisa veio logo atrás. Com determinação, passaram por todos os
oponentes, até chegar na entrada da mansão. Com um chute, Leafar abriu
a porta. Puxou Freya e bateu a pesada trava, fechando o caminho.
-
Albert! - berrou ele, sem resposta da mansão silenciosa. Virou-se então
para a garota, mas ouviu um barulho vindo do piso superior.
Com
cuidado, subiu os degraus, pé ante pé. A menina foi atrás dele, quieta.
As janelas estavam abertas, e o vento mexia as cortinas. Notou que a
única porta aberta era a do seu quarto. Com os punhos cerrados, Leafar
andou até lá. Espiou pela porta e viu o quarto vazio. Mal deu o
primeiro passo, porém, e algo saltou em sua direção. Por puro reflexo,
deu um murro e ficou em posição de ataque. Ouviu um "caim!", apenas
para ver que tinha atingido Rush, seu cãozinho.
- Ei! Desculpe, garoto!
Freya
correu alucinada para cima do animalzinho. Começou a fazer carinho nele
enquanto Leafar olhava ao redor. Notou as roupas de Morrigane no chão.
Viu então que a caixa de chocolates que tinha ganho de Kaizen estava
entreaberta. Os chocolates estavam espalhados no chão.
-
Queria saber onde está o Albert. - falou e, irritado, deu um tapa na
caixa. Ela caiu no chão e fez um barulho muito pesado. Leafar ergueu
uma sobrancelha e pegou-a. O fundo parecia falso. Mexeu um pouco nele
até conseguir removê-lo, encontrando algo inusitado: duas pistolas e
cartuchos de munição, um visor com encaixe para orelha e um bilhete.
"Leafar,
Espero
que não tenha passado mal com os chocolates. Eles tinham pimenta, para
enganar o faro de eventuais cães de caça. Escondi duas de minhas armas
para que você não fique totalmente desarmado por aí. Vai que acontece
algum problema, pelo menos pode se virar bem. Não tem mistério - aponte
o buraco para o alvo e aperte o gatilho. Quando acabarem as balas,
encaixe outra munição pela parte de baixo. Você é esperto, vai entender
como funciona.
Como você não é especialista
em armas de fogo, estou te enviando um Rastreador GZ modificado. Esse
visor vai melhorar sua mira e, consequentemente, o dano que você causa.
Desculpe, mas não é mais possível medir o poder dos outros com ele.
Pelo menos eu já sei que o seu é maior que nove mil!
Abraços do amigo Kaizen"
-
Temos que encontrar o Albert, Freya. E aí vamos embora daqui. - Leafar
deixou as duas pistolas na cama e foi mexer no armário, procurando
outra roupa. A menina foi até o banheiro.
- Senhor Leeeea! Tem algo errado com a sua banheira!
Segurando uma troca de roupas, Leafar foi até lá. Viu que a banheira estava diferente, com um tipo de escorregador.
- Não faço idéia do que aconteceu. Mas não tenho tempo para isso. Deixa eu me trocar, fica ali no quarto esperando.
A
lourinha saiu. Olhou as armas na cama. Depois pegou o cachorro no colo
e sentou no chão, fazendo carinho nele. Olhou a plaquinha presa na
coleira, dizendo "Rush" de um lado e "Propriedade de Leafar" do outro.
Os barulhos vindos da cidade a assustavam. Abraçou forte o cachorro,
quando ouviu a porta do banheiro se abrir.
Leafar
surgiu. Estava usando uma calça preta, com duas botas também escuras,
com fivelas na lateral. Vestia uma camiseta azul-marinho de manga
curta, com detalhes em branco. A sigla "AMP" podia ser lida pequena em
seu peito, no coração, acima do brasão de Rune-Midgard, além de se
repetir maior nas costas. Usava duas luvas pretas, que deixavam as
pontas de seus dedos para fora.
- AMP? O que é isso? - Freya perguntou, olhando curiosa.
-
Academia Militar de Prontera. - concentrado, Leafar pegou as duas
armas. Viu que na caixa tinha uma faixa. Depois de xeretar por alguns
minutos, descobriu que servia para ficar em seu peito, com os coldres
das duas pistolas nas laterais. Prendeu então as munições no cinto. -
Temos que encontrar o Albert. E se eu entendi como ele pensa, ele deve
ter ido para o aeroporto, para preparar nossa fuga daqui.
Ele
encaixou o Rastreador modificado na orelha e desceu o visor para o
olho. A tela mostrava miras e dados das coisas para onde ele olhava,
como distância, tamanho e número de tiros para abater. Reparou as miras
em Freya e em Rush.
- Freya, vamos
juntos. Evite usar suas magias fora da mansão. Parece que esses bichos
são atraídos por ela. Vamos sair de Rachel pelo leste.
Os
dois, acompanhados de Rush, foram para a frente da mansão. Freya soltou
suas magias em Leafar e em si mesma. Ele segurou as duas pistolas.
- Abra o portão.
A
menina puxou a maçaneta. Leafar segurou as duas pistolas e foi na
frente. Ouviu um apito vindo do Rastreador e olhou para a direita. Uma
Isilla se aproximava. O visor travou a mira nela. Sentiu facilidade em
apontar a arma e disparou. O projétil acertou a mulher no pescoço,
arrancando-lhe uma porção dele, enquanto caía, se debatendo. O som,
porém, atraiu a atenção de outros fanáticos. Sem alternativa, Leafar
começou a atirar.
***
Os
corpos caíam aos montes no chão. Jöseph e Raven estavam intactos.
Chegaram até a escadaria para o subterrâneo da Terra Sagrada. O
Mercenário guardou as adagas e olhou para a morena.
- Vi como vocês dois se olharam. Ele te reconheceu.
Raven abaixou a cabeça. Colocou a mão no ombro de Jöseph.
- Desculpe, mas você também está em débito comigo. Por que trancou minhas coisas na caverna?
- Não é hora para falarmos sobre isso.
O Mercenário ameaçou descer as escadas, mas sentiu as duas mãos da garota o puxarem. Ele parou.
- Por quê?
- Não temos tempo. Eu imagino que o Pesar Noturno estej...
Raven virou ele e passou a mão em seu rosto, indo na direção da máscara. Começou a removê-la.
-
Não perguntei para o "Jöseph" ou para o "Garra das Trevas". Perguntei
para o único homem com o qual me importei até hoje. Meu amado Diego
Murrieta.
Ele não reagiu quando ela retirou
sua máscara, revelando um rosto cansado, encoberto por um cabelo
prematuramente grisalho. Os olhos castanhos procuraram os dela, e suas
mãos retiraram sua máscara e seu elmo, revelando o bonito rosto de
Morrigane. Abraçaram-se então, em silêncio.
- Eu não sou forte o suficiente, Morrigane.
- Mas você está se tornando.
-
Não posso arriscar te perder. E a missão primordial de todos os Jöseph
é proteger a vida da Papisa de Rachel. Quando eu assumi esse manto, eu
perdi uma Raven, a do meu antecessor, você sabe. E eu não posso perder
você.
- Então me deixa lutar do seu lado. Por que reprogramou Albert?
- Não fui eu. Foi aquele visitante de Rune-Midgard, o tal de Leonard Belmont. Não faço idéia de como ele conseguiu.
Diego engoliu seco e abaixou o olhar. Morrigane segurou seu queixo e levantou-o em sua direção.
- O que te entristece?
- Como você conseguiu entrar na mansão?
- Você não vai querer saber. Sério.
- Você foi para a cama com ele, não foi?
A expressão da morena mudou na mesma hora, ficando séria. Ela engoliu seco, olhando-o no fundo dos olhos.
-
Eu sou uma Mercenária. Honro meu juramento da guilda até o fim. Sempre
cumpro minha missão, sejam pelos meios que forem. Jamais vou precisar
pedir autorização para alguém para fazer algo que me ajude a concluir
minha tarefa. E eu precisava dos meus equipamentos. Você devia entender
isso.
- Eu... entendo. Apenas não gosto que encostem no que é meu.
-
Encostar, ele encostou. E bastante. Desculpe. Mas encostar não é
"possuir". E isso apenas você possui; o meu coração e minha dedicação.
As
duas bocas se emaranharam em um beijo há muito contido. Ficaram
abraçados, encostados em um canto escuro, enquanto a desgraça e a morte
acontecia nos arredores. Por fim, Diego devolveu o elmo e a máscara
para Morrigane. Ela devolveu também a proteção dele.
-
Temos que nos concentrar em nossa missão. - ele recolocou a máscara
pontuda, voltando a ficar com os olhos totalmente brancos -
Provavelmente o Pesar Noturno será acordado e vai deixar a Terra
Sagrada. Se Freya morrer no ritual das escrituras, a cidade de Rachel
estará condenada.
Morrigane concordou.
Agora, novamente sob a identidade de Raven, ela ficou invisível, assim
como Jöseph. Desceram devagar as escadas. Notaram um bando de Gremlins,
que aparentemente ignorava o casal oculto.
- Eu nunca tinha vindo aqui. - falou ela, baixinho - O que são essas coisas?
Alguns
artefatos gigantescos estavam flutuando acima de poços com água, com
passarelas em volta. Runas mágicas os rodeavam, emanando luz e dando um
ar místico.
- São Corações de Ymir. É o
dito artefato que possibilita a passagem dos que concluem seu
treinamento para o Hall das Valquírias.
- E o que tantos fazem aqui?
- São eles que dão o poder para o Pesar Noturno e as demais criaturas.
- Nossa... chupa, Rekenber. - disse a morena, fazendo referência à cidade que tanto se gabava de sua tecnologia.
Os
dois olharam ao redor. Um dos poços estava vazio, e o Coração de Ymir
dele estava apagado, caído. O Mercenário cerrou os olhos.
- Chegamos tarde demais. O Pesar Noturno está solto.
-
Jös... - Morrigane chamou-o. Ele olhou para trás. Uma variação do
Gremlin estava atrás deles. Era maior e mais forte, com mais garras e
dentes. E olhva para o vazio, onde os dois estavam.
- Um Hodremlin. Então deu certo o projeto. Mas fique tranquila, - falou o Mercenário - ele não pode nos ver.
E,
ao dizer isso, ambos foram atacados. A criatura sem olhos sabia onde
estavam. Morrigane surgiu do esconderijo e dilacerou o monstro com suas
Lâminas Destruidoras.
- Leafar e a Papisa correm mais perigo do que imaginávamos. - Jöseph se desesperou - Temos que voltar!
- Acho que isso vai ser difícil...
Morrigane
apontou para a escadaria. Um grupo imenso de Hodremlins estava entre a
saída e eles. E, sem opção, uma nova e sangrenta batalha começou.
***
As
cápsulas caíam aos montes no chão de terra. Rush latia furioso para os
monstros, enquanto Leafar descarregava pentes inteiros neles. Freya
corria atrás dele, na direção do aeroporto. O apito constante do
Rastreador fazia Leafar se virar e acertar tiros precisos, explodindo
cabeças, membros e garras dos Gremlins, Isillas e Vanberks.
Os corpos iam se acumulando no chão. Algumas gotas de suor escorriam da testa de Leafar. Ele continuava recuando e atirando.
-
Recarrega! - disse e jogou uma das pistolas para a Papisa. Ele se
ajoelhou e, segurando a arma que sobrou com as duas mãos, deu tiros
precisos. A menina recarregou a primeira pistola. Ele entregou então a
segunda. Ela repetiu o procedimento. Empunhou novamente as duas e
acertou os últimos monstros que tinham seguido-os pelo campo árido de
Rachel.
Olharam para o aeroporto. Não havia
nenhum dirigível nele. Notaram então um homem caído, imóvel. Era
Albert. Leafar colocou as duas pistolas nos respectivos coldres do
peito e foi até o mordomo, desesperado. Assustou-se com a visão; não
pelo ferimento, mas pelo tipo. Albert estava caído, com um corte imenso
no peito. Mas não saía sangue de seu corpo. Alguns fios e eletricidade
ocasional era o que escapava.
- O que é isso?
- Caverna... bzzzzt... preciso... caverna... zzzzzt.
- O que ele está falando, Freya? Será que ele quer ir até a Caverna de Gelo?
A menina tentava curar o mordomo em vão. Nada acontecia.
- Não sei, senhor Lea. E minha Cura não funciona nele. Ele não é humano.
- Oh, really? - irônico, Leafar levou as mãos até a cintura, olhando ao redor. - De que caverna ele está falando?
- Caverna... banheiro... mansão... bzzzzt... esta unidade está bzzzzt entrando em modo de bzzzzt economia de energia.
O mordomo parou de se mover. Leafar balançou a cabeça negativamente.
- Maravilha.
- Senhor Lea... - Freya começou a puxar a calça de Leafar, que estava de costas para o campo, olhando para o mordomo.
-
Bichos loucos surgem no templo e tentam nos matar, aquela Mercenária
peituda que nos salvou muito provavelmente é a Morrigane, minha caixa
de chocolates tinha duas pistolas, eu bati no meu cachorro e meu
mordomo é um robô. O que mais falta me acontecer?
- Senhor Lea! Socoooooooooooooooooooooooooooooorro!
Quando
se virou, Leafar notou uma criatura imensa com a Papisa nos braços. Ela
era toda branca, reluzente, com chamas saindo de seu corpo. O pescoço
era longo, e sua cabeça era oval, inclinada para a frente.
-
Freya! - rápido, Leafar sacou as duas armas. Descarregou todos os tiros
no corpo do monstro, que mal se moveu. Só parou quando ouviu um clique
de cada pistola. O monstro, por sua vez, ficou com a mão fumegante, com
chamas envolvendo-a. Tudo que Leafar se lembrava era de um clarão
imenso, acompanhado de um calor incrível. E, com ele, tudo ficou escuro.
***
Sua
cabeça doía. O mundo começava a ganhar alguma vida. Seus olhos se
abriram. Parecia estar em um tipo de gruta ou caverna - não sabia
dizer. Um bipe incessante chamou sua atenção. Levantou-se da maca onde
estava. Viu Albert deitado, com uma pequena criatura metálica que
parecia um escorpião soldando seu peito e costurando o que parecia pele
artificial.
- Onde... onde eu estou?
- Subsolo da Mansão Murrieta. Ou Mansão Belmont, como seu pai a renomeou.
A
voz da morena fez Leafar sentir-se confortável. Notou a garota sentada,
com uma agulha espetada em seu braço. Ela estava com a roupa de
Mercenária, sem o elmo e a máscara.
- Morrigane! Eu sabia que era você lá no templo! Que bom te reencontrar!
Ela
não sorriu. Olhou para o mordomo e voltou a olhar para o louro, que
estava sem jeito por ela não ter esboçado nenhuma reação.
-
Antes que me pergunte, vou explicar, já que não temos tempo a perder. -
falou com a voz enfraquecida - Esta mansão é a base do vigilante
conhecido como "Jöseph", batizado por um jornal popular como "Garra das
Trevas". Seu nome real é Diego Murrieta, meu noivo que simulou a
própria morte quando teve sua identidade secreta comprometida.
- Isso é muita informação de uma só vez. Era o cara que estava com você lá no templo?
-
Deixe-me continuar. A missão dos Jöseph, em Rachel, é proteger a
população original daqui, que é explorada por visitantes. Mas, acima de
tudo, é protegar a vida da Papisa atual. E isso tem sido feito há
décadas. Zhed Bekento é quem nos ajuda e nos chama sempre que a vida de
uma dela está em perigo.
- Certo. - Leafar
sentou-se perto de Morrigane, olhando-a. Estava um pouco sem jeito por
ela ter mencionado "noivo", mas ficou quieto. A história estava
interessante.
- Uma criatura tipo MVP
chamada Pesar Noturno foi invocada no subsolo do templo. Essa criatura,
além de proteger o módulo secreto do templo, chamado de "Terra
Sagrada", anseia em sair de Rachel para destruir todas as cidades que
encontrar. Mas a vida da Papisa não permite, como parte de um selo
antigo. Para quebrar isso, porém, existe um ritual, que deve ser feito
pelos fanáticos de classe "Echio" e "Agav". Se eles finalizarem o
ritual, além da Papisa morrer, o Pesar Noturno poderá sair para o
mundo. E inevitavelmente chegará até sua amada Rune-Midgard.
Leafar
ficou em silêncio alguns instantes, assimilando tudo. Quando teve
certeza de que entendeu o que estava acontecendo, foi até Albert. Viu
que o escorpião robô estava montando um rosto novo para ele. Olhou
então para Morrigane, mas não precisou nem perguntar. Ela sabia o que
ele queria saber, e começou a falar.
- Ele
é um robô. Tecnologia cortesia de Kiel Hyre. Sua missão é proteger e
dar suporte total ao Jöseph e à Raven, caso exista alguma.
- Como assim?
-
Assim como "Papisa", Raven também é um título. Mais precisamente, da
companheira de Jöseph. No caso atual, o meu, como Mercenária. A Classe
não importa, pois é o conceito em si de ajudar ao Jöseph que conta. Mas
o fato é que Albert existe para proteger e servir Jöseph e Raven. E o
seu pai, quando veio aqui, logo após que Diego simulou sua morte,
desconfigurou Albert. Ele passou a reconhecer apenas você como senhor
da mansão. E aí, para pegar minhas coisas, tive que...
Ela
parou de falar. Percebeu o quão fria estava sendo e sentiu-se mal por
isso. Leafar pareceu profundamente decepcionado. Ele se virou e foi até
uma enorme tela, que mostrava a cidade sendo atacada, com algumas casas
pegando fogo.
- ... teve que ir para a cama comigo.
- Desculpe.
- Eu estou acostumado.
Morrigane engoliu seco. Leafar ficou olhando perdido para a tela.
-
Eu sou muito conhecido em Rune-Midgard. Herdei a Ordem do Dragão e a
lidero. O Rei confia em mim. As pessoas sabem o meu nome. Meus inimigos
temem a minha presença. E isso tem um lado ruim. Muitas das garotas que
eu conheço só se aproximam de mim por quererem cinco minutos de fama. É
muito difícil alguém sair com o Leafar de verdade; elas querem sair com
o "líder da Ordem do Dragão" ou com o "General do Rei". Eu... estou
acostumado com isso. Tudo bem. A diferença é que você não vai pedir
para tirar uma foto comigo. Acho.
Ele se virou, entristecido, olhando para a Mercenária.
- Por algumas horas eu acreditei em você, Morrigane. Eu pensei que fosse possível.
Recuperada, ela tirou a agulha do braço. Levantou-se e andou até o louro. Passou a mão em seu rosto, carinhosa.
- Você é especial, Leafar. Merece coisa melhor do que essas marias-armadura... ou eu.
Ela
levou então as duas mãos na nuca e mexeu no fecho de seu pingente.
Retirou-o e andou até a frente de Leafar, colocando-o em seu pescoço.
-
Aceite como pedido de desculpas. Se eu te fiz acreditar que é possível,
use isso para não se esquecer. Sua companheira está te esperando por aí.
Morrigane então foi até um painel e começou a mexer em vários botões. Muitas imagens apareciam na tela brilhante.
-
Por ora, eu preciso urgente da sua ajuda. Diego ficou no templo de
Rachel. Enquanto conversamos, ele luta. Ele fez o possível para que eu
saísse com vida e viesse buscar auxílio. Se não impedirmos o ritual, a
Papisa irá morrer. E o Pesar Noturno estará livre de sua prisão nesta
cidade.
- E como eu posso ajudar? Eu preciso pelo menos de uma espada de duas mãos e da minha armadura. Não tenho como lutar.
-
Você é um Lorde. Lordes são Guerreiros Transcendentais. Como você luta
com espadas de duas mãos, provavelmente é forte e ágil, estou certa?
- Está. Na verdade, sou especializado em acertar qualquer alvo, como você.
- Sei. Treinamento "Crítico", não é?
- Sim.
-
Temos um protótipo. Nunca imaginamos que ele teria que ser utilizado
antes da hora. Era para o Diego, assim que ele passasse pelo Hall das
Valquírias. Albert o chama de "DarkClaw", em referência ao nome que o
jornal deu a Jöseph.
Um trecho da parede da
caverna se ergueu. Saiu muita fumaça dela, enquanto garras metálicas
traziam um traje todo negro. Ele possuía luvas metálicas de metal
claro, assim como ombreiras, joelheiras, caneleiras e botas. O peito
possuía um tipo de proteção em forma de garras. O cinto era uma caveira
da mesma cor, com olhos vermelhos.
- Parece
ser um traje típico de Algoz. - disse o louro, olhando a roupa - E isso
não me adianta muito. Sou um Lorde, não um Algoz.
-
Não se deixe enganar. Você está vendo uma das últimas palavras em
Exotraje e tecnologia de nanomáquinas. E por ser ágil, você vai se
adaptar com muita facilidade. Vou te explicar como ela funciona.
Leafar
olhou para uma bandeja ao lado da roupa. Olhou para uma máscara pontuda
igual a de Jöseph, mas toda negra. Pegou-a e olhou para Morrigane. Ela
assentiu com a cabeça, dizendo sem palavras que aquela era a decisão
certa.
- Muito bem, - disse ele - vamos ver do que essa exocoisa é capaz.
***
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