Houve uma época em que o Satã Morroc era uma lembrança distante. A
cidade de Rachel não tinha a figura misteriosa do Garra das Trevas.
Dhutt ainda não era um General e não tentou se tornar o novo senhor de
Rune Midgard. Loki não tinha destruído os três mundos de Chaos, Loki e
Íris, para que Odin os unificasse. Surtr ainda não tinha reunido sua
Ruína, nem tentado destruir o reino. E três membros dela ainda não
tinham causado tanta dor a Leafar e Bonnie Heart em uma única
madrugada. Leafar, aliás, não tinha sido clonado. E a Ordem do Dragão
ainda não tinha renascido.
Antes de tudo isso, já existia um homem. Um homem que buscava a verdade. Sempre.
Seu nome é Leonard Belmont. E é sua história que será contada aqui.
***
RagnaTale: Leo
Texto: Rafael de Agostini Ferreira
Arte: Daniel "NIORI" Uires
Índice
I
II - ler
III - ler
IV - ler
V - ler
VI - ler
VII (final) - ler
***
Quadrante cinco da cidade de Prontera
Meados de 1500
Há
quinhentos anos atrás, uma grande guerra aconteceu nos reinos. Uma
profecia se realizaria, e a força dos homens seria testada em seu
limite. Milhares morreram lutando. Guildas foram extintas. Cidades,
outrora majestosas, tinham tornado-se pó. Alguns deuses tinham ido
pessoalmente para Midgard, e a lenda sobre a luta de Thor contra Loki
em Prontera seria repetida por séculos.
Alguns
grupos, porém, se sacrificaram pelos demais. E à Ordem do Dragão,
liderada pelo Lorde Christian Vallmore, general de um dos primeiros Rei
Tristan I, coube a missão de um combate derradeiro contra a fera que
seria nomeada por camponeses como "Demozan". E um a um, os combatentes
de brasão rubro-dourado foram sendo derrotados. Aos poucos, seu sangue
tingiu a grama de vermelho. Regimentos inteiros tombaram ante o poder
da fera.
E se arrependimento matasse, o elfo
Essny Tahllam teria sido o primeiro a morrer. Negou o chamado de
batalha quando a guerra explodiu. Abandonou sua amada Geffenia para
fugir assustado. Mas mais que isso, tinha negado o convite de unir-se à
Ordem do Dragão para aquela batalha. Ferreiro habilidoso, tinha
reparado a armadura do Dragão Dourado, líder daquele exército. E,
sozinho em sua caverna, arrependeu-se. Correu para o campo de batalha.
Tropeçou em corpos e sujou-se em restos de vidas, caídos pelo chão. E
ficou de joelhos ao ver o suspiro final de Christian, dando ordens para
seu último comandado - um Templário de cabelos azuis.
"Ele
morreu", pensou, emocionado com o corpo caído do homem, enquanto via o
templário correr. Fugido de sua terra, com a mancha da covardia por não
ter lutado aquela batalha, tudo que fez foi seguir de longe o homem de
cabelo azul, até uma clareira. Viu ele cavar na terra e enterrar uma
espada e um livro. E Essny prendeu a respiração quando notou o corpo
peludo e os chifres enormes do Bafomé que encurralava o homem. A garoa
fina que caía naquela escuridão parecia ter o poder de iluminar a cena
surreal, do templário ferido contra o monstro. E as últimas palavras do
templário, que ficariam gravadas na mente daquele elfo, foram ouvidas
com atenção por ele.
"Um
combatente não é o mais forte. Não é o mais bem equipado, nem o mais
bem armado. Não é o que possui mais poderes ou maiores capacidades. Um
combatente não é nomeado por títulos, posses ou honrarias. Um
combatente é alguém que ama. Um alguém que ama o próximo. Que ama a
família e os amigos. É alguém que ama a própria vida, a ponto de abrir
mão dela para o bem de todos que ama! E sua maior arma é o poder que
emana da sua essência! Jamais vou recuar diante do inimigo! Eu sou um
Cavaleiro da Ordem do Dragão, arauto da paz!"
E
sob essas palavras, o templário desarmado avançou. O Ferreiro viu o
homem ser mortalmente ferido pelo monstro e por suas pequenas crias, de
risada estridente e maléfica. E no silêncio de seu esconderijo, viu
quando aliados do homem finalmente chegaram e derrotaram o Bafomé. Mas
o que realmente lhe seria marcante foi o momento em que ELAS
apareceram. Lindas, pernas e braços torneados, armaduras e armas
brilhantes. Oito Valquírias, que cercaram o templário e choraram sua
morte. E tão sinceras e puras foram as lágrimas das Valquírias que uma
pequena poça se formou naquele lugar. E tão rápido quanto chegaram,
partiram, carregando o corpo dele para o descanso final, no Valhalla.
O
elfo, parado ali há horas, ainda absorvia tudo aquilo. Seus braços,
molhados de chuva, foram o apoio para que se levantasse. Caminhou até a
água e ajoelhou-se. Suas mãos tocaram o líquido da poça sobrenatural.
Ficou olhando o próprio reflexo, que era distorcido pelas gotas que
caíam.
- Eu juro, diante dessas lágrimas -
disse ele, olhando o rosto refletido - que jamais, enquanto eu viver,
voltarei a forjar uma arma ou armadura.
Uma pena então caiu na água. Essny virou-se e ficou boquiaberto diante da visão - uma Valquíria.
-
Se veio tirar minha vida, eu aceito e não tenho a menor intenção de
reagir, senhora. - disse ele, prostrado no chão, com o rosto baixo.
-
Não precisa ter vergonha de me olhar, guerreiro. De fato, não voltará a
forjar nesta vida. Mas também errou em tua conclusão. Não vim para
cessar tua existência.
A floresta ficou mais escura. Essny olhou para a mulher alada, mas seus olhos élficos tinham dificuldade em encontrá-la.
- Não consigo enxergá-la, minha senhora.
- Pois acostuma-te à escuridão. Ela será teu refúgio e abrigo. Pois assim diz Hildr, e assim há de ser.
Resignado, o elfo ficou de joelhos. Abaixou a cabeça e, com atenção, ouviu as palavras da Valquíria.
***
Cerca de quinhentos anos depois
Izlude
A
respiração das pessoas estava presa com a luta. A arena, em Izlude,
estava lotada. Aquele era o combate final do torneio amador de
pugilismo do reino. Os dois finalistas se enfrentavam com garra e
determinação. E um deles, porém, estava acuado em um dos cantos do
quadrado. Suas luvas, azuis, estavam sujas com o próprio sangue. Um dos
olhos estava roxo, quase fechado. Suas costas estavam apoiadas no pilar
que unia as cordas daquele ângulo. Uma mulher segurava um pingente com
um escudo, desesperada.
Seu nome era
Margareth. Margareth Belmont. Recém-casada, estava sufocada com o medo
e, mais que isso, com a surra que um dos homens levava.
- Atena, por favor. Olhe de meu marido. Por favor...
E
o louro recebia golpes violentos. Seu longo cabelo movia-se
selvagemente para os lados cada vez que a luva do oponente acertava seu
rosto. Suas bochechas sangravam muito. Mas o que chamava a atenção é
que o homem que apanhava, sorria.
- Já tá com a idéia variada, maluco? - perguntou o moreno, suando em bicas, respirando como um touro.
- Heh. Você bate forte. Mas parece cansado.
O
moreno não respondeu. Deu dois socos rápidos, abrindo a guarda do
louro, e finalizou com um cruzado no rosto dele. Em alguns segundos, o
rosto do louro encontrava a lona. Ouviu ao longe uma contagem, enquanto
via, com o olho aberto, a esposa aflita na platéia. Piscou para ela e
se levantou sem muito esforço, para surpresa do adversário.
- O que significa isso? - disse o homem, assustado.
- Como eu falei, você parece cansado. - respondeu o louro, tirando sangue da boca com as costas da luva.
Como
um trovão, o louro partiu para cima do moreno. Começou a disparar
repetidos socos, rápidos e fortes. Se em um momento parecia próximo de
ser derrotado, agora batia como se a luta tivesse acabado de começar. A
platéia reagia com cada golpe, berrando e assobiando, extasiada com
aquilo.
- Vai! - o louro continuava sorrindo, com a boca sangrando, enquanto batia - Pergunta logo!
O
moreno tentava se defender, mas os socos foram minando suas energias.
Seu rosto agora estava com mais cortes e hematomas do que o do louro.
Foi se encolhendo, tentando inutilmente se proteger dos murros.
- Oooolha! - insistiu o louro, batendo sem pausa - Você vai cair e não vai fazer a pergunta! E não vai aprender!
- Desgraçado! - o moreno cuspiu sangue enquanto gritou - COMO reagiu assim?
O sorriso sangrento no rosto do louro aumentou. Agora sim ele sentia-se completo. Aquele questionamento massageava seu ego.
- Só reage quem está perdendo, amigão. Não era o meu caso. Eu fiquei apanhando enquanto você se cansava. É diferente.
Furioso,
o moreno avançou. Seus socos acertaram apenas o ar, enquanto o louro
esquivava. Vindo de baixo, então, o punho do louro atingiu o queixo do
oponente. As pernas dele tremeram. Seus braços relaxaram, e o enorme
homem caiu imóvel na lona. O juíz abriu a contagem, enquanto o louro
limpava o suor e o sangue do rosto com as bordas das luvas.
- ... oito... nove... dez! - um gongo soou - E o vencedor por nocaute é Leonaaaaaard Belmont!
Margareth correu, empurrando pessoas. Subiu na arena, e sem se importar com sangue ou suor, abraçou o marido.
- Não faça mais isso, Leo.
-
Fica tranquila. - dizia ele, tirando o protetor cheio de saliva e
sangue - Eu estou certo sobre minha teoria, e é isso que importa.
- Mas precisa disso, amor? Olha seu rosto...
-
Bah! Uma curinha e fico novo. Pra quê servem Sacerdotes, no final das
contas? Eles precisam fazer algo mais além de ficar apanhando de
monstros enquanto alguém ataca de longe!
Os dois riram, se olhando com cumplicidade. Notaram um rapaz se aproximar, segurando um lápis e um bloco de notas.
- Com licença, senhor Belmont. Concede uma entrevista para o Clarim de Izlude?
- Claro. - respondeu o louro, enquanto sua esposa arrumava o rabo-de-cavalo dele.
- O senhor venceu o torneio sem perder nenhum combate. Qual o segredo?
- Treinamento duro, disciplina e dedicação.
- Desde quando o senhor treina boxe?
- Treino com o meu pai desde que eu era pequeno.
- E por que o seu corpo está com essa coloração meio roxa? O que seria? Parece magia...
- Nada. - a resposta foi rápida - É impressão sua.
- Onde reside, senhor Belmont?
- Geffen, com a minha esposa aqui, Margareth.
- Certo. E o senhor é Cavaleiro ou Monge?
- Sou Bruxo.
O repórter riu. Balançou a cabeça, pois tinha escrito "Bruxo" em sua ficha, mas riscou.
- Tudo bem, vou deixar isso como brincadeira. As pessoas vão rir. Mas sério, o que o senhor é?
- Bruxo.
- É piada, né?
- Eu estou rindo?
Os
dois ficaram em silêncio. O repórter parou, ora olhando para Leonard,
ora olhando para o bloco de notas. Por fim, recebeu um tapinha no
ombro, do Bruxo que se afastava.
- Eu te
ajudo. "Bruxo enche Cavaleiro de porrada na final do torneio de
pugilismo amador de Izlude. Detalhes na página cinco" - disse, saindo
sem olhar para trás, segurando a mão da esposa com uma mão e o troféu
com a outra.
***
Geffen, algumas horas mais tarde
O
aroma de chá invadia o aposento da confortável casa. Margareth trazia
uma bandeja com dois bules e duas xícaras. Repousou-a em uma mesinha de
madeira. Leonard mal olhou a esposa, concentrado em um livro, no meio
de tantos outros abertos sobre uma mesa maior.
- Com leite ou sem?
- Com.
Margareth
despejou cuidadosamente o chá dentro de uma das xícaras. Pegou outro
bule e derramou algumas gotas de leite nele, dando-lhe nova aparência.
Ela serviu o homem, deixando a xícara do seu lado. Ele agradeceu e
virou-se para ela, dando um pequeno gole.
- O que descobriu, querido?
-
Que eu estou certo. Aliás, sempre estou. Mas descobri mais que isso. Eu
estou terrivelmente certo. Por que um artefato se chamaria "Olho de
Oparg"? Ora, é simples! Por que ele foi de algum "Oparg"! E existiu um
Oparg. Veja isso.
Ele pegou um pergaminho e
abriu-o na mesa. A curiosa esposa olhava as anotações por cima, mas
gostava mesmo de ouvir as explicações da boca dele.
-
Há muito tempo - prosseguiu o louro, com o olhar perdido nas palavras -
uma mulher despertou a luxúria em Odin. Como várias, aliás. Sabe-se que
o todo-poderoso não é exatamente um exemplo de fidelidade. Mas ele
sentiu-se atraído por uma garota humana, uma certa "Lineth". Levou-a
para o Valhalla e fez amor com ela até não poder mais, e deu-lhe dois
presentes: deu um anel e permitiu que ela fosse uma de suas Valquírias.
Lineth, agora como serva de Odin, começou a trabalhar para ele,
recolhendo mortos do campo de batalha e fazendo valer sua lei e ordem.
Leonard
pegou outro pergaminho e abriu-o. Seus olhos estavam hipnotizados. Ele
adorava contar histórias, e um dos motivos que o fizeram apaixonar-se
por Margareth foi a vontade dela em ouvir o que ele tinha para contar.
-
Foi em algum ponto aqui, Maggie. - disse, segurando o pergaminho aberto
- Em algum lugar dessa história, foi quando aconteceu. A Valquíria
Lineth conheceu um homem que a fez se apaixonar. Seu nome é
irrelevante, pois na verdade ele era a personificação de Oparg, o deus
dragão. E ele, com sua magia, na verdade apenas quebrou o encanto que
Odin tinha jogado sobre a moça. Encanto este que encontrava-se no anel,
uma magia conhecida como "Anel dos Nibelungos".
- Ela o amava por causa do anel então?
-
Sim! - respondeu ele, feliz em ser acompanhado no raciocínio. Margareth
era, de fato, muito inteligente - E ela se apaixonou por Oparg.
Abandonou o cargo de Valquíria e fugiu com o deus dragão, sabe-se lá
para onde. Odin ficou possesso. Ele tinha muitas amantes, mas não
suportava quando alguém lhe roubava uma. E como tantas outras vezes,
com outros deuses, aconteceu uma guerra secreta entre o panteão de Odin
e o de Oparg. E como nos prova o artefato "Olho de Oparg", quem venceu
foi o senhor do Valhalla.
- Senão teríamos um "Olho de Odin" agora, não? - disse a mulher, sorrindo.
-
Sim, querida. Em todo caso, Oparg escondeu Lineth de Odin. Mesmo
derrotado, ele não falou onde a moça estava. Ninguém sabe seu paradeiro
até hoje. E depois de vencer o deus dragão, Odin destruiu seu corpo e
separou as partes, para que ninguém nunca soubesse que ele, de certo
modo, falhou. Digo, ele venceu Oparg, mas não ficou com a mocinha no
final. Não satisfeito, fez um simulacro de Lineth, para fingir que
tinha vencido e que tinha reconquistado seu troféu.
- Simulacro?
-
Sim. Uma cópia. Ele pegou o corpo de uma garota malvada que era
parecida com Lineth e matou-a. Fez um acordo com Hela, que deixou sua
alma e vontade submissa a Odin. Assim, uma das Valquírias de Odin,
hoje, é essa farsa.
- Ai, Leo, que horror!
- Mas não é isso o que me causa comoção.
- E o que é?
-
Oparg não era um deus tolo. Ele não ia matar ou exterminar Lineth. Seja
como for, mesmo tanto séculos depois, ela existe e está viva. E ele
deixou um "mapa do tesouro" em algum lugar. Alguém, um dia, vai achar
essa mulher. Caso contrário, sua luta com Odin não faria sentido. Nem
sua derrota.
Com calma, ele se levantou e
foi até algumas caixas que estavam ao lado de um armário. Abriu-a e
tirou um embrulho. Levou até a mesa, cuidadoso.
-
Encoste a janela. - disse para a esposa enquanto abria as tiras de
pano. E ali se revelou um brasão de guilda. Eram duas letras: uma letra
O vermelha e um D dourado, mas muito gastas. O símbolo era feito de
pano e estava velho, cheio de pontas e sujeira.
- "OD"? - Margareth se inclinou, vendo as letras - O que significa?
-
Esse símbolo, segundo meus estudos, data de mais de quinhentos anos
atrás, quando Glast Heim ainda era a capital. "OD", querida, significa
"Ordem do Dragão". E este brasão é o elo perdido que liga Odin, Oparg e
Lineth.
- E o que você vai fazer?
Leonard
sorriu. Dobrou o embrulho com o brasão novamente e guardou-o de volta
na caixa. Ficou de costas para a mulher e esticou os braços, para que
ela lhe vestisse o manto bege e marrom de Bruxo.
- O que eu sempre faço. Vou descobrir a verdade.
***
Caverna Oeste de Comodo
Os
homens estavam sem reação. Há alguns minutos, aquele bando de
mercenários estava quase terminando sua missão. Recuperaram um baú
enterrado e perdido ali há séculos. Mas estavam acuados, e por um único
homem. Leonard, com o olhar compenetrado, encarava o que parecia ser o
líder.
- Agora lhe daria a opção fácil. Você
deixa essa caixa no chão, eu pego ela e vocês vão embora. Mas você não
vai fazer isso. Falando assim, eu desafio a sua autoridade diante de
seus colegas. É óbvio que você está precisando se firmar socialmente, e
se eu subjugá-lo apenas com minhas palavras, você jamais teria sua
moral com estes outros homens. Então você pode me atacar.
O
Mercenário soltou a caixa e puxou suas adagas, mas sentiu algo de
errado. Suas pernas estavam rígidas. Olhou com terror vendo que estava
se petrificando. E com o rosto deturpado pela sensação, parou, imóvel.
-
Quanto a vocês três, a proposta é mais generosa. Eu realmente deixaria
vocês fugirem assustados. Ou podem só pegar seu líder e levá-lo para as
cabanas da praia. Mas esta não é a oportunidade perfeita para uma
vingança? Digo, eu sou um Bruxo. E vocês são três mercenários. Armados.
O
primeiro avançou. Segurou firme a katar e pulou. Foi atingido no peito
por uma coluna de pedra, saída do solo. Perdeu o ar e mal conseguia
ficar acordado, enquanto viu um meteoro mítico surgir no meio do nada,
atingindo em cheio o segundo, tirando-o também do combate. O impacto da
pedra deixou o terceiro homem tonto, sem conseguir se controlar.
-
"Como ele fez isso sem usar as mãos?" - disse Leonard, com os dois
braços para trás, olhando o Mercenário - Ah, é claro. Você pensou isso,
né? Desculpe desapontá-lo. Sei que gosta dos meus colegas mais
teatrais. Talvez eu devesse erguer meus braços assim.
O louro levantou os braços, fazendo o homem recuar e dar com as costas na parede.
-
E talvez eu devesse dizer algo assim: Ifrit, senhor do fogo e das
chamas! Permita-me embeber meus braços em seu calor infernal! Que meu
Mana queime até o infinito e que a carcaça perene desta criatura volte
ao pó diante de teu abraço!
O Mercenário começou a suar. Nada aconteceu. O silêncio o estava matando.
- Ou eu podia fazer isso.
Leonard ergueu uma das sobrancelhas e uma barreira de fogo surgiu na frente do mercenário. Depois outra do seu lado. E outra.
- E aí você escolhe entre eu explodir você aí dentro ou... dane-se. Tenho mais assuntos a resolver aqui.
O
Bruxo ajeitou o óculos, enquanto uma rajada azul puro saiu do solo, da
sua direção até o Mercenário, que foi envolvido em um bloco de gelo.
Sem pressa, ele andou até a caixa que o primeiro homem soltou. Pegou-a,
analisando a tampa.
- A Chuva de Meteoros -
disse, olhando as gravuras entalhadas na madeira - tem uma pequena
chance de causar tontura e perda de sentidos no alvo. Os dois homens
que ataquei agora foram vítimas de tontura. Existem alguns outros
ataques, porém, que têm essa mesma chance. O Golpe Fulminante, por
exemplo. Mas existe um mais eficiente, que foi batizado como "Martelo
de Thor".
Ele virou-se para um canto escuro da caverna, com a caixa sob um dos braços.
-
A desvantagem é que, mesmo quando se usa esta técnica estando oculto, o
solo treme. E para alguém que é diretamente ligado com o ambiente e
suas forças, como eu, alterar os elementos que me rodeiam é como tentar
passar escondido vestido de preto em uma sala toda branca e iluminada.
Além disso, notei sua presença ainda na minha casa, do lado de fora da
janela, com esse cheiro de suor não disfarçado, há cerca de quarenta e
oito minutos.
A caverna continuou em silêncio. Leonard sorriu.
- Já mencionei também que eu ganhei o leilão em Prontera de uma carta Maya Macho?
- Então as histórias sobre você são verdadeiras.
Uma
figura apareceu diante de Leonard. Vestia-se com uma roupa que parecia
ser a de um Ferreiro, mas modificada. As botas eram diferentes, além da
camisa ser menor. A calça tinha outros detalhes. O corpo era musculoso.
E as orelhas, pontudas.
- E, claro, elfo. -
complementou Leonard, sem alterar a expressão - Descuidado assim, só
podia ser uma criatura que despreza os seres humanos a ponto de
subestimar nossa capacidade de observação.
- Não tenho palavras para dizer em como estou feliz em encontrá-lo.
-
Responda-me então as duas únicas coisas que ainda não deduzi. Seu nome
e o que quer comigo, coincidentemente quando consigo este artefato.
-
Meu nome é Essny Tahllam. Venho de uma casa élfica esquecida há
séculos. Carrego uma enorme vergonha nos meus ombros, e vivo cada dia
de minha vida para limpar minha honra.
- Desculpe, não estou emocionado. Se puder me responder logo o que perguntei, agradeço. Meu tempo é precioso.
- Talvez se interesse então na história do deus dragão Oparg.
- O que você sabe sobre ele?
-
O suficiente para ter sua atenção, talvez? Você conseguiu agora o
segundo Olho de Oparg. E você sabe que não são apenas duas as partes
dele.
- E qual seu interesse em reviver o deus dragão, elfo?
- O interesse, humano - uma voz feminina chamou a atenção do Bruxo - é meu.
Assim
como o elfo, a mulher alada surgiu, com as asas gloriosas abertas,
pousando suavemente no solo. Ela arremessou uma gema branca no chão,
que abriu um portal da mesma cor.
- Um portal divino. - comentou o Bruxo, sem surpresa - Para onde vamos?
- Para longe destes homens, que vão acordar em breve.
Sem
perder tempo, Leonard e Essny entraram, seguidos da Valquíria. Em uma
fração de segundos, estavam em um lugar bonito, no meio do céu azul.
Nuvens passavam por eles e pelo chão de mármore branco.
- Este é o Hall dos Heróis, Leonard Belmont. E o trouxe aqui por duas razões. Uma é a privacidade. A outra é pagamento.
- Não estou vendendo nada.
-
Não é por venda. É por recompensa. Você vai nos ajudar, e eu lhe
honrarei com o título máximo que alguém de sua classe pode conseguir.
- Vai me tornar um Arquimago?
- Sim, assim como ela me tornou um Mestre-Ferreiro - disse Essny, sereno.
-
Eu sou Hildr, uma das Valquírias que serve fielmente a nosso senhor
todo-poderoso Odin. Há uma traidora em Asgard, vivendo entre os
escolhidos. Você sabe disso.
- E desculpe
ser direto, mas o que isso tem a ver comigo? Por que eu te ajudaria?
Por que acha que me oferecer a promoção de Arquimago iria me estimular
a tomar uma atitude em seu favor?
- As
respostas para todas estas perguntas, Leonard Belmont, resumem-se a
uma: a continuidade de sua família depende do fracasso de nossa
traidora. E você é o único capaz de fazê-la fracassar.
- Sou todo ouvidos, moça.
-
Antes de começar, saiba que não lhe darei suporte algum, a não ser
informação. Não vou socorrê-lo em combate nem realizar milagres. Se
algo der errado, jamais, sob hipótese alguma, meu nome será envolvido.
-
Uma mulher sincera. Que raridade... então diga-me quem é a tal traidora
e por onde começamos. Ou melhor, diga-me onde isso envolve minha
família.
- Lembra-se de seu antepassado, o qual você resgatou o brasão da Ordem do Dragão?
- Julian Belmont. - a resposta foi imediata, e Leonard não deixou de reparar que Essny ficou cabisbaixo à menção de seu nome.
- É exatamente aqui que começa nossa história.
E
apenas o vento, o sol e o céu foram testemunhas daquela conversa, até
aquele momento. Começava ali uma busca que duraria décadas.
***
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(arte da capa sem os logos no nosso blog)