RagnaTale: Leo

Texto: Rafael de Agostini Ferreira
Arte: Daniel "NIORI" Uires
Artista especialmente convidado: Leonardo Luccas "Leonheart" (capa deste capítulo)
~ Final ~
- Dedicado ao Fox (melhoras no pós-operatório, amigo!), à Mari (Bonnie original), à Nova Ordem do Dragão, Pdrk e todos os amigos leitores, que fazem cada linha valer a pena de ser escrita
http://br.youtube.com/watch?v=HyJzhBrSUMk
***
A Suma Sacerdotisa corria desesperada. Tinha perdido os amigos de vista. Encontrou a carta tarde demais. "Se eu tivesse lido isso dez minutos antes!" era o que Hellenia pensava. Estava ofegante. Ela se embrenhava pela tumba abandonada, em Louyang. Tinha medo do que ia encontrar. E congelou com a cena.
Em meio a dezenas de Yao Juns destruídos, viu quatro corpos humanos caídos. Sua respiração parou por alguns instantes. Reconheceu os corpos de Myria e Hael. "Deus, eu falhei", foi o que pensou. Notou o casal caído de mãos dadas. Antes de deixar a tristeza consumir suas forças, foi então até a outra dupla. Não reconhecia o templário de cabelo liso e azul. Viu os ferimentos mortais nele. Virou-se então para o louro, cujo Elmo de Orc Herói estava intacto em sua cabeça. Apertou os olhos e tirou o cabelo moreno da frente dos olhos quando notou que o Sacerdote era o único que ainda respirava. Aproximou-se devagar e passou a mão no rosto dele.
- Leafar? - disse, confusa.
- Eles deram a vida por ele. Esse era seu destino.
A voz fez a morena se virar. Notou então a valquíria, gloriosa, atrás dela, com uma armadura negra. Segurava uma lança descomunal. Sussurrou o nome dela, "Hildr", enquanto olhava, pasma.
- Myria e Hael eram meus amigos, valquíria. - a Suma Sacedotisa finalmente deixou as lágrimas escorrerem - O que posso fazer por eles?
- Dê as más novas a Aióros. A partir de hoje, ele não tem mais pais.
Hildr passou por Hellenia e se ajoelhou ao lado de Leafar, pegando seu corpo com as duas mãos, enquanto os outros cadáveres flutuavam ao redor dela.
- Vai levar ele também? Pensei que só recolhesse os mortos.
- De certo modo, esta vida também acabou.
Ao dizer isso, Hildr alçou vôo, sumindo na escuridão da caverna, deixando para trás uma Hellenia sozinha, perplexa.
***
Os olhos de Leafar começaram a se abrir. Reconheceu seu pai olhando-o, com um sorriso de lábios fechados. Aos poucos, aquela luz branca foi desenhando o mundo ao seu redor: uma cama imensa, com lençóis límpidos; poltronas e almofadas ao redor; pinturas belíssimas e uma garota linda, com trajes leves, tocando uma harpa.
- Não, você não morreu. - Leonard se adiantou, prevendo a pergunta do filho - Mas infelizmente seu amigo Kao, o templário, pereceu protegendo-o. E sim, esse lugar parece divino porque é; estamos no Valhalla, o palácio de Odin em Asgard.
Leafar se levantou. Estava nu. Uma segunda garota então entrou na sala, de rosto baixo, e vestiu-o com uma toga, amarrando um cinto dourado em sua cintura. Com carinho, fez com que sentasse na cama enquanto calçava sandálias nele. A que tocava a harpa momentaneamente parou para ajudar a amiga, prendendo braçadeiras de couro no louro.
- Está sendo vestido assim porque temos um encontro com Odin. Não fale mais do que o necessário. Odin é benfeitor, mas não é um coleguinha seu de infância. Não o irrite, não minta para ele e não tente parecer superior. Agora vá com as moças. Elas vão lavar seu rosto e pentear seu cabelo. Não tenha filhos com elas. E fique tranquilo. Nós nos falaremos de novo depois.
Ruborizado e confuso, Leafar andou, com as servas conduzindo-o pelo palácio. O Arquimago foi então até a imensa janela, que recebeu Hildr, vinda de um vôo suave, que culminou com ela aterrissando graciosamente no chão de mármore.
- Não falou para ele sobre Myria e Hael, falou?
- Não, Hildr. Leafar nunca viu os dois lá. Agora você termina de me contar a história que começou.
Hildr sorriu. Sentou-se na beirada da cama, com as asas recolhidas. Tirou o elmo, revelando os belos cabelos cacheados.
- Como lhe disse, Kao era a reencarnação de Julian Belmont, seu ancestral e último sobrevivente da Ordem do Dragão original. E a missão dele, nessa tarde, em Midgard, foi salvar a vida de seu filho, Leonard.
- Por quê?
- Porque Leafar é um Belmont. E entre os fardos que sua família deve carregar, está o de lutar pela paz.
- Mas por que essas pessoas se sacrificaram pelo meu filho?
- Vou devolver sua pergunta com outra. Não me julgue idiota por isso.
- De modo algum. Eu gosto de parábolas, se for essa a intenção.
- De que maneira você sabe que existe luz em um lugar?
- Por que existem sombras. - a resposta do Arquimago foi rápida.
- Exatamente. Sob essa ótica, podemos considerar que a luz precisa das sombras para existir.
- Pode ser mais clara, Hildr?
- Posso sim, Leo. Literalmente.
***
Leafar estava ajoelhado, tenso. Ao seu redor, nomes que faziam parte das lendas que popularam sua infância e sua vida, o observavam, de Balder a Loki, de Freya a Tyr. Mas, na sua frente, a maior de todas elas - o todo-poderoso Odin, sentado em seu magnífico trono.
- Apesar de minha onisciência em meu palácio, filho do homem, - disse o deus - eu não costumo tirar de meus convidados sua privacidade. Divirto-me com seus pensamentos relevados por si próprios. Levante-se e diga o que pensa agora.
Com vergonha, o louro ficou de pé. Olhou com medo para Odin. Ensaiou dizer algo bonito, mas o sorriso no canto de sua boca entregou-o.
- A única coisa que penso é que jamais contarei para ninguém sobre esse dia. Ser humano algum jamais vai acreditar nisso.
Os deuses sorriram com a simplicidade de Leafar. Ele abaixou a cabeça, sob o olhar divertido do todo-poderoso.
- Bem, então você terá muita coisa para contar, caso decida. Em todo caso, sente-se.
Como mágica, Leafar notou que surgiu atrás dele um banco de couro vermelho. Sentou-se, enquanto Freya deu um passo adiante. Com um sinal de mão dela, uma porta se abriu, e um homem moreno de olhos dourados foi até o lado de Leafar, que apenas sussurrou um admirado "Oparg", enquanto ele também se sentava. A loura então ajeitou a volumosa veste verde que trajava e começou a falar.
- O todo-poderoso Odin, senhor de todos os deuses do Valhalla, convocou esta reunião extraordinária para resolver uma pendência com o ilustríssimo Oparg, deus e senhor dos dragões, e você, Leafar Belmont, filho de Leonard e Margareth Belmont.
- Eu agradeço imensamente. - Oparg abaixou a cabeça, respeitosamente. Leafar viu e fez o mesmo, ainda tenso. Freya continuou seu discurso.
- Odin, absoluto em sua condição de deus e comandante, também mostra sua piedade e clemência. E para selar sua condição de paz com o panteão dracônico, ele irá libertá-lo definitivamente de seu grilhão.
Leafar olhou assustado para Oparg. O deus dragão, em sua forma humana, fez um sinal de mão para que o louro se acalmasse. Ele tomou a palavra então.
- A partir do dia de hoje, está definitivamente encerrado o incidente de Lineth, Julian Belmont, Leafar e a Ordem do Dragão. Doravante, a guilda dos homens voltará a ter as bênçãos de Odin e seus deuses, assim como a proteção e guia dos dragões.
- Assim é, e assim será. - Odin completou, olhando a dupla.
- E para demonstrar a clemência de Odin com o filho do homem, o todo-poderoso lhe concederá, nessa ocasião única, a devolução dos poderes que lhe seriam de direito.
O silêncio pairou na sala. Leafar começou a se sentir mal. Uma vertigem tomou-lhe de sopetão, fazendo com que caísse de joelhos. Tentava pedir ajuda, mas a voz não saía. Era como se sua mente e seu corpo estivessem sendo manipulados sem sua permissão. Via as lembranças de seu treino de Sacerdote ficarem cada vez mais distantes, como algo que nunca tinha acontecido. Seus músculos ficaram tensos com as cenas de batalha de espadas que invadiam sua mente, tal qual uma gigantesca onda repentina que se quebra no mar. Tudo doía. Seu nariz começou a expelir sangue. E, tão forte quanto começou, a dor parou. Levantou-se. Sentia-se diferente. Algo não era mais igual. Ao seu redor, uma aura azul clara resplandecia, absoluta.
Ouviu então passos pesados. Era Tyr correndo em sua direção, com uma belíssima espada de duas mãos. Oparg ofereceu uma parecida a Leafar. Sem pensar, o louro segurou com firmeza a arma oferecida pelo deus dos dragões. Tyr atacou, e Leafar defendeu o golpe, na altura de seu pescoço. Sem recuar, aparou outros dois ataques e, com rapidez, contra-atacou, obrigando o sorridente deus da justiça a dar um passo para trás, esquivando-se.
- Eu afirmo, meu deus, - disse Tyr - que este homem com o qual troquei golpes é um legítimo Cavaleiro. Louvado seja, Odin, por teu poder e sabedoria. - voltou-se então para Leafar, que estava confuso por ter usado a espada de maneira tão eficiente - E regozijai, pois trocaste golpes com Tyr e pode viver para contar sobre isso.
- Só reafirmo que ninguém nunca vai acreditar em nada do que está acontecendo aqui hoje. - Leafar respondeu baixinho, enquanto devolvia a espada para Oparg.
- É porque não viu ainda o que fará contra o Satã Morroc, Nugael!
- Contra QUEM?
- Basta. - Freya novamente tomou a palavra, enquanto Tyr voltou para seu lugar - Já é suficiente que este homem saiba que representa a paz entre Odin e Oparg. E que doravante viverá sua vida com o livre arbítrio que lhe foi concedido.
"Livre arbítrio?", Leafar pensou. Nem lhe perguntaram se ele queria deixar de ser Sacerdote. Tentou usar seu Magnificat, mas nada aconteceu. Estava privado de seus poderes - por ora; no futuro, descobriria que ainda podia usar sua Cura e algumas Bênçãos em si próprio.
- Há algo que queira dizer, além de demonstrar sua gratidão, Nugael? - Freya olhou para Leafar. Ele coçou a cabeça, sem muita idéia de como reagir ou exatamente o que falar.
- Eu... agradeço, claro. Não entendo por que me chamam de "Nugael" se meu nome é "Leafar". Acho que estou feliz com essa minha nova condição. Quer dizer, eu queria ter me tornado um poderoso exorcista. Mas acho que posso fazer valer a paz pela força física. Só acho estranho essa luz me rodeando. Não queria chamar tanto a atenção.
- Agradeço a sinceridade. - Odin ajeitou-se em seu trono - E por isso lhe darei uma recordação de nossa conversa.
Sob o olhar de todos, Odin estendeu a mão. A aura azul de Leafar se desprendeu de seu corpo, tornando-se uma esfera de energia. O deus olhou então para um homem musculoso, com o peito nu e longas tranças, tanto no cabelo quanto na barba.
- Adiante-se, fiel armeiro.
- Tua vontade é o que me comanda, meu senhor.
- Vai transformar esta energia em algo útil para nosso convidado. E tão logo termine seu serviço, ele será enviado de volta ao plano dos homens. Assim eu ordeno a ti, Hefestus.
- Minhas mãos e minha arte jamais forjariam arma ou armadura para um mortal. Meu dom é exclusivo dos deuses, merecedores de empunhar meus artefatos. Mas não desonrarei o seu pedido. Este indigno terá, ao final do dia de hoje, algo do qual jamais se esquecerá. Assim, poderá partir logo e voltar para o lugar que merece.
Leafar não sabia se se sentia feliz ou ofendido. Em todo caso, ficou em silêncio. Não sabia o que dizer ou como reagir.
***
- Eu sou Cavaleiro! Caramba!
O rapaz comemorava. O cabelo vermelho, arrepiado, contrastava com o sorriso em seu rosto. Segurando um elmo metálico, com uma espada bastarda embainhada, fazia festa com seus amigos, na frente da Cavalaria de Prontera. Usava uma roupa marrom de Cavaleiro, com o brasão de Rune-Midgard estampado no peito.
- Parabéns, Aióros! - disse uma garota, abraçando o amigo. - Valeu a pena todo o treino, hein?
- Sim! Estou muito feliz! Finalmente meus pais vão se orgulhar de mim!
- E o que você vai fazer agora? - perguntou outro, segurando um garrafão de vinho.
- Nossa, vou entrar na A.M.P. e me dedicar!
- O que é isso?
- Academia Militar de Prontera! Quero seguir a carreira e quem sabe um dia integrar as forças do rei! Já pensou que legal?
Parou a comemoração por um segundo ao notar a Suma Sacerdotisa se aproximando. Levantou a mão e correu até ela.
- Hellenia! Olha que legal! Eu sou um Cavaleiro! Passei nos testes!
A morena não conseguiu sorrir. Não devolveu o abraço que ele lhe deu sem pedir. E causou estranheza ao jovem.
- O que aconteceu? Não ficou feliz?
- Eu fiquei sim, claro.
- Meus pais vão adorar!
- Eu vim lhe trazer uma notícia.
O sorriso sumiu do rosto dele na hora. Seu corpo se arrepiou de tensão, como prelúdio do que iria ouvir. O corpo dele amoleceu.
- D-diga...
- Por favor, seja forte.
- Diga! - ele falou com mais firmeza.
- Seus pais faleceram esta tarde, na Tumba do Imperador, em Louyang. Os corpos estão sendo enviados para Geffen, para que seja providenciado o funeral e o enterro.
Aióros ficou calado alguns momentos. Não havia mais festa ou comemoração. Ele apenas abaixou a cabeça. O chão em sua frente começou a ficar molhado. Caiu então de joelhos, sendo amparado pelos amigos.
- Por que você não salvou eles, Hellenia? - disse, olhando a Suma Sacerdotisa enquanto as lágrimas lhe escapavam aos montes.
- Eu não tive tempo. Nem fui com eles. Eu teriado lutado com eles até o fim.
O garoto começou a chorar sem controle. Foi perdendo as forças e, desesperado, desmaiou. Hellenia notou o olhar de reprovação dos amigos dele e, angustiada, saiu correndo.
***
Leonard estava sentado, imóvel. Suas mãos estavam com os dedos cruzados, apoiando sua cabeça. Ele olhava pela imensa janela do quarto. Ignorou completamente Leafar, no jardim, com alguns dos deuses, que se divertiam assustando-o com seus poderes e conhecimentos.
- Eu não vou negar, Hildr. Eu estou surpreso.
A valquíria sorriu. Aproximou-se do Arquimago, colocando a mão em seu ombro.
- Você sabe coisas demais para um ser humano, Leo. Não sinta-se mal por não saber de absolutamente tudo.
- Mas estou me aproximando de saber. E agora eu sei disso...
Ele se virou e pegou uma Máscara de Fantasma. Colocou a na altura do rosto, olhando a luz pela abertura dos olhos.
- Desde os tempos antigos, a Ordem do Dragão é uma guilda que luta pela paz. Ela reúne gente forte o suficiente para manter suas crenças e ideais, que acreditam na mesma causa e que são capazes de seguir a uma liderança.
Levantou-se e foi até a janela. Ficou olhando Leafar apanhando de Balder, sob o riso de alguns outros notáveis, no que parecia uma lição de como usar a habilidade "Dedicação".
- Mas esse altruísmo exagerado é sua maior fraqueza. É fácil demais enganar eles. E essa mania de "salvar o mundo" os faz serem muito chatinhos. Eles não fazem nada que um "herói" não faria.
- Sombras, Leo.
- Sim, sombras. Que existem para que a luz continue plena. Para que todas as pessoas saibam que ela está ali, brilhando por elas.
Hildr deu a volta e foi até uma mesinha, onde outras máscaras estavam repousando. Leonard se virou na direção da mulher alada.
- Julian Belmont foi um dos primeiros. - disse ela - A dor da morte de Christian Vallmore, o primeiro Dragão Dourado, o fez sentir a pior dor de todas. Afinal, falhar em proteger a Ordem do Dragão é a pior vergonha que pode existir para uma Sombra.
- E os dois que morreram hoje? Três, aliás. O templário também era um deles?
- Sim. "Kao" era uma reencarnação de Julian. Como punição, pedido dele mesmo, ele tem um ciclo constante de renascimento, onde seu propósito é dar a vida pelos membros da Ordem do Dragão, até o dia do Ragnarök. E Hael e Myria eram Sombras.
O Arquimago se levantou e falou alguns palavrões em élfico, com os braços cruzados, indignado. Os dois tinham sido seus companheiros de estudos em Geffen. Perderam o contato quando Leonard optou pelo caminho acadêmico e os dois foram se aventurar. Tinha encontrado uma vez aquelas Máscaras de Fantasma em suas coisas, me assumiu que eram parte do equipamento convencional de Bruxos - muito populares no passado. Conseguiram enganá-lo, e isso o deixava furioso.
- E agora que eles morreram, Hildr?
- Não há mais Sombras.
Leo foi até a janela. Viu Leafar finalmente acertar alguns golpes em Balder, que não sentia a menor dor e se limitava a rir, satisfeito com o treinamento que dava. Voltou-se então para a valquíria.
- Qual a ajuda que você me dará?
- Total.
- Odin sabe disso?
- Sabe.
- Quantas pessoas eu posso chamar?
- Tantas quanto julgar necessário.
- Quais as regras mesmo?
- Uma Sombra não pode se revelar jamais. Seu rosto jamais deve ser exposto. Ela jamais falará sobre isso com outra pessoa. Fará o que for necessário para manter a Ordem do Dragão viva, inclusive mentir, roubar e matar. E dará sua vida sem pensar pelo Dragão Dourado.
Ele pegou a Máscara de Fantasma e colocou-a sob o rosto.
- Mande-me para Rune-Midgard, Hildr. As Sombras do Dragão precisam de mais gente.
**
O corpo de Leafar doía. Ainda usava a mesma roupa de quando saíra do quarto. Estava novamente no salão onde falara com Odin. O todo-poderoso o aguardava, dessa vez com menos gente. Hefestus estava do seu lado, segurando algo grande, coberto.
- Sua estada no Valhalla termina agora, Nugael. Espero que tenha aproveitado cada segundo na companhia dos deuses.
- Isso de fato mudou minha vida, todo-poderoso.
- Que bom. Então receba agora esta lembrança do dia de hoje. Para nós, um dia comum; para você, o primeiro do resto de seus dias.
Novamente Leafar ficou sem entender se foi elogiado ou ofendido. Viu então Hefestus se aproximar.
- Como eu disse, mortal, minhas mãos não trabalham para os que não são deuses. Jamais negarei, entretanto, uma ordem de meu soberano.
Hefestus puxou o pano, revelando uma belíssima armadura metálica. Possuía braçadeiras e ombreiras brilhantes, com luvas, placa peitoral, botas, caneleiras e joelheiras. Detalhes em vermelho completavam, ornamentando aquele belíssimo trabalho.
- Esta é uma armadura com os mesmos traços de uma armadura típica de Lorde. Você não merece uma armadura com desenho ou cor única. Ninguém merece. Mas saiba que esta é uma "Armadura de Odin". Ela não é indestrutível e nem vai lhe conferir nenhum dom. Não dá nenhuma proteção extra ou sequer faz algo de especial. Seu único poder é o de ser utilizada por quem for digno.
Duas garotas surgiram e despiram Leafar. Vestiram-no com a roupa básica de Cavaleiro e, por cima dela, Hefestus começou a equipá-lo com a armadura. O louro olhava para Odin, que o observava como alguém que acabava de ter um experimento bem sucedido.
- Volte para Rune-Midgard, Leafar. Vá e viva sua vida da maneira que achar melhor. Quando precisar de ajuda, ore por nós, assim como ora pelos deuses dragões. Nós olharemos de vocês.
O louro, trajado como um Lorde, agradeceu. Foi conduzido por Heimdall para a bonte Bifrost, que o levaria de volta para Midgard. Virou-se para se despedir, mas recebeu um forte golpe, que arremessou-o pela trilha multicor, em uma velocidade que o fez perder a consciência.
***
A porta da catedral de Prontera estava escancarada. Logo na primeira fila, Hellenia estava ajoelhada. Chorava muito, apoiada no encosto de madeira. Tentava levantar o olhar para o altar, mas não conseguia. Estava consumida pela dor da perda dos amigos. Não só isso, mas por não ter lido a carta deles a tempo. Se tivesse visto um pouco antes, alguns minutos que fossem, talvez tivesse chegado a tempo. Mas mais que isso, as palavras de Aióros faziam seu coração pesar. "Por que você não salvou eles?".
- Por que? Por que eu não fui capaz? Por que não consigo salvar as pessoas que são importantes para mim? Me ajuda, meu deus! Me ajuda!
Virou-se então e viu um Arquimago louro do seu lado, usando uma Máscara de Fantasma. Ele estava com a mão estendida.
- Ajudo.
***
A ruiva andava ansiosa. Recebia assobios e cantadas baratas ocasionais de iniciantes enquanto seguia pelas ruas de Geffen, enrubescendo e cobrindo os ombros com um delicado xale. Esse era um dos males de ser Odalisca em uma terra com mais homens do que mulheres. Mas amava o que fazia e, no final das contas, aqueles cortejos eram um elogio por fazer tudo que fazia e manter-se linda.
Tirou o papel do bolso e conferiu o endereço. Respirou fundo. Era ali, a casa dos Belmont, ao norte da Torre de Geffen. Era ali que morava aquele Sacerdote louro que lhe chamava tanto a atenção. Ele estava sumido há algum tempo, e Nymue estava curiosa. Nunca tinha visto o seu rosto, tendo apenas notado de relance que ele tinha olhos verdes, por baixo da máscara que ele usava. E saber que o tal “Irmão Valmont” era, na verdade, o real Leafar Belmont, a deixava mais curiosa ainda.
Bateu na porta. Ficou sussurrando sozinha: "Oi! Então, eu estava passando por aqui e pensei que podíamos ir beber algo!". Não ia errar. Mesmo que ele não bebesse, o importante era iniciar contato. Sem drama, sem enrolação. Mas ficou sem palavras quando a porta da casa foi aberta. Notou um homem louro, com o cabelo médio liso, cujos fios dançavam ocasionalmente por seu rosto, movidos pela brisa quente da cidade. Os olhos verdes se apertaram enquanto sua memória buscava o nome da Odalisca. Vestia a bela armadura metálica, que reluzia a luz do sol, adornada por uma capa rubra, que deixava aparecer a guarda de uma espada de duas mãos, presa em suas costas.
- Nymue? - disse ele - A da Abadia de Santa Capitolina?
- ... ... ... ... eu... eu tava bebendo e... digo... a bebida estava passando por ali... quer dizer... eu pensei que podíamos beber por ali e... e... você não era Sacerdote?
- Era. Larguei da profissão.
- Nossa... você está lin...
Leafar levou a mão até a boca de Nymue e apertou os olhos. Olhou para o centro da cidade e, sacando a espada, correu. Tudo que a atônita Nymue viu foi ele brilhar em dourado uma vez. A lâmina de sua espada ficou translúcida e, rápido, ele se posicionou na frente da torre. Segurou firme a arma. Um bando de Pesadelos Sombrios surgiu da entrada da construção. Teriam se espalhado se o Lorde não tivesse derrubado eles com dois Impacto de Tyr. Enquanto a guarda da cidade entrava na torre para tentar entender o que tinha acontecido, Leafar apoiou a espada no ombro, voltando para perto da amiga.
- Então, quer ir beber algo? - disse ele.
A Odalisca não reagia. Leafar estalou os dedos na frente dos olhos dela.
- Ei, Nymue! Acorda! Vamos?
Sem reação, ainda absorvendo aquela informação, ela pegou o braço de Leafar e andou com ele para a taverna. O louro parou, porém, ao ver um objeto no chão que chamou sua atenção. Abaixou-se e pegou uma proteção de cabeça - um Chifre Pontudo.
- Que foi, Lea? - a ruiva se aproximou, curiosa.
- Estranho. Isso deve ter caído dos Pesadelos Sombrios. Mas a única criatura da Torre de Geffen que possui um destes é o Doppelganger. E eu não vi ele por aqui.
- Você precisa relaxar um pouco. Venha, vamos embora. Não pense nisso agora.
Escondidos atrás de uma das casas, um trio olhava para o casal indo para a taverna. Eram um Arquimago, um Mestre-Ferreiro e uma Suma Sacerdotisa - todos usando Máscaras de Fantasma. Ao notar o item na mão de Leafar, o Arquimago olhou para o Mestre-Ferreiro, cujas orelhas de elfo podiam ser vistas entre o cabelo verde.
- Eu não vi cair, desculpe.
O louro de máscara olhou então para a Suma Sacerdotisa, que segurava o corpo inerte do Doppelganger pelos tornozelos.
- Eu só dei apoio e tirei o corpo. Não tive como ver também. - disse ela, séria.
- Isso não pode mais acontecer. Vocês dois tomem cuidado com isso daqui para a frente.
Os dois assentiram com a cabeça. O Arquimago, entretanto, sorriu.
- Hoje vocês completaram sua primeira missão. Continuem suas vidas normalmente. Mas lembrem-se que quando eu os convocar, devem vir imediatamente. Avante, Sombras.
O Mestre-Ferreiro e a Suma Sacerdotisa responderam com um breve "avante" e sumiram. O Arquimago então tirou sua máscara. Andou até a rua, sorridente com o incidente que acabara de causar, libertando o Doppelganger, apenas para testar seu filho e seus amigos. Passou por fora da taverna e, pela janela, viu Leafar rindo e se divertindo com a amiga. Sorriu olhando para o céu, lembrando-se da visita ao Valhalla. Chegou em casa, recepcionado por Margareth, que o aguardava com uma caneca de chá gelado e um beijo demorado.
- Pensei que depois daquele tempo todo em Rachel, nunca mais teria um marido mascarado que faz coisas escondidas. - a loura piscou, com os braços entrelaçados em seu pescoço.
- Eu parei com isso, você sabe, querida.
- Você nunca pára, Leo. - Margareth respondeu com a voz suave - Mudam as máscaras e os lugares, os inimigos e as missões... mas apesar de não admitir, você continua lutando pela vida alheia.
- Melhor que isso. Eu luto pela vida do meu filho.
- Você é incorrigível, meu bem.
- Errado. Eu sou um Belmont.
Os dois se beijaram. Ambos estavam certos. E as palavras de Margareth provariam-se verdadeiras dali a algum tempo, na guerra que mudaria a história de Rune-Midgard para sempre - que será contada a seguir.
Mas este capítulo, que conta um pouco da vida de um dos homens mais enigmáticos e poderosos de Rune-Midgard, chega a seu fim.
***
Sombras do Dragão
Zero
Hildr
Valquíria de Odin
Paradeiro atual: Palácio Valhalla, em Asgard
Número Um
Leonard Belmont
Arquimago, humano
Idade desconhecida
Paradeiro atual: cidade de Geffen, cidade da magia
Número Dois
Christian Vallmore
Mestre-Ferreiro, elfo
Idade estimada em mais de 500 anos
Paradeiro atual: cabana em Geffenia, ocasionalmente indo para a superfície
Número Três
Hellenia
Suma Sacerdotisa, humana
Idade não revelada
Paradeiro atual: membro da Ordem do Dragão
***
- Quantas pessoas eu posso chamar?
- Tantas quanto julgar necessário.
- Uma Sombra não pode se revelar jamais.
- Seu rosto jamais deve ser
exposto.
- Jamais falará sobre isso com outra pessoa.
- Fará o que for
necessário para manter a Ordem do Dragão viva, inclusive mentir, roubar
e matar.
- Dará sua vida sem pensar pelo Dragão Dourado.
***