RagnaTale: Ruína

Roteiro e texto: Rafael de Agostini Ferreira
Arte: Eliza Milk
Logo: Leonardo "LeonheART"
***
Essa história acontece na seguinte linha cronológica:
Leo
>>> Ruína <<<
Hora Zero
***
Capítulo 1
- A Detentora do Poder Sagrado
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Setembro de 2006
- ... e livrai-nos do mal, amém.
A
mulher ergueu-se. A longa capa azulada, até então repousando no chão da
Catedral de Prontera, acompanhou seu movimento, abraçando suas costas e
pernas. A espada e o escudo foram empunhados e, com leveza, começou sua
caminhada para fora da construção. O sol reluziu em sua armadura, mas
não ofuscou o brilho da própria aura azulada da Paladina conhecida como
Jô Mungandr.
- Milady! Milady! - berrava uma garota que corria em sua direção.
-
Acalme-se. - Jô parou ela por um dos ombros e levantou sua cabeça pelo
queixo - Respire fundo e diminua a euforia. Não sei que mal a afligiu,
mas se não tiver forças para me explicar o que houve, será impossível
ajudá-la.
A garota sentiu-se aliviada com
as palavras. Fez como lhe fora instruído e voltou a respiração ao
normal. Beijou a mão da Paladina e abaixou a cabeça.
- O Rei a aguarda. Diz ter um assunto da mais extrema importância e deseja lhe falar.
A
loura agradeceu. Passou a mão na testa da garota, sussurrando uma
bênção e caminhou pela bonita calçada de pedra da capital. Passava e, a
cada metro, recebia sorrisos e cumprimentos dos aventureiros. Jô era,
sem sombra de dúvidas, uma das maiores heroínas de Rune-Midgard.
***
O
salão real estava em silêncio. O Rei Tristan dedilhava nervosamente o
braço de seu trono. Notou a Paladina, que aproximou-se e ajoelhou
diante dele.
- Vivo para servi-lo, meu Rei e meu senhor. Diga qual a tua vontade que eu a farei se cumprir.
O
Rei agradeceu e fez um movimento de mão para que ela se levantasse.
Olhou para os guardas, que trancaram a porta dupla do salão. Olhou
então a mulher no fundo dos olhos.
- Hrymm se foi. - disse ele, com a voz entristecida.
- Para onde, meu rei?
-
É o que eu gostaria de saber. Apenas sei que ele renunciou ao cargo.
Seus aposentos estão vazios e ele partiu levando tudo, incluindo seus
itens divinos. Tem idéia do que se passou com ele e onde ele pode ter
ido?
- Não sou apta a julgar meus
semelhantes, Majestade. Mas se me permite especular, creio que ele
esteja em uma busca pessoal por poder. E alguém como ele é independente
demais para ser barrado.
- Eu entendo, minha fiel Jô. E ainda tenho mais uma notícia triste.
A
Paladina abaixou a cabeça, assentindo. O Rei engoliu seco. Bebeu um
gole do líquido em sua taça, oferecida por um servo com uma bandeja, ao
lado de seu trono. Olhou a mulher novamente.
- Roubaram um pingente antigo do Tesouro Real. Gostaria muito que você o recuperasse.
- Apenas me diga qual o pingente que sumiu que eu irei atrás dele, meu Rei.
- Foi um tesouro da antiga capital, Glast Heim. Trata-se de um pingente de Naglfar.
Jô
tremeu. A simples menção do nome fez uma lágrima emocionada escorrer de
seus olhos. Nagflar, o de coração puro e forte. Herói que marcou uma
Era. O Paladino que usava armadura dourada, e que em seu Peco Peco, com
proteções da mesma coloração, venceu sozinho o Bafomé Primordial. A
serviço do Rei Tristan I, liderou exércitos de maneira esplêndida, até
a ocasião de sua morte. E foi por sua causa que Jô tornou-se uma
Paladina. Seguiu seu exemplo de esperança e de fé, e hoje era a heroína
da nova capital, servindo ao Rei Tristan III.
- Eu juro pela minha vida que irei recuperar a peça que me pede, majestade.
Determinada, levantou-se. Pediu licença e, segurando forte a espada, se retirou, deixando um agoniado Rei Tristan para trás.
***
- Eu quero o Mjolnir. Não vou continuar essa conversa sob outros termos.
A
figura, nas sombras, ouviu com atenção a exigência do Mestre-Ferreiro.
Os cabelos azuis, espetados, combinavam com aquela expressão
determinada e firme do ex-armeiro oficial do Rei Tristan.
-
Entenda que o que lhe ofereço - disse a figura misteriosa - é mais que
um artefato. Não estou convocando pessoas para que elas sejam
simplesmente "fortes". Eu estou dando a cada um de vocês a chance de se
tornarem soberanos.
- Como deuses?
- Sim, Hrymm. Como deuses.
Os
lábios do Mestre-Ferreiro sorriram involuntariamente. Nada tiraria
aquele sorriso de seu rosto. Ele provaria de uma vez por todas que era
o verdadeiro Deus do Trovão.
***
O sol estava firme em
Geffen. Jô passava e abençoava as pessoas que não paravam de
cumprimentá-la e acenar. Não gostava muito da adulação que tinha, mas
sabia que isso era importante para dar paz à população. Notada por
todos, foi até a saída oeste. Parou para conferir uma anotação.
- Pesquisando o paradeiro do pingente roubado, Paladina?
A voz não a fez virar. Limitou-se a sorrir.
- Eu não vou perguntar como você sabe isso. Afinal, se não soubesse, não seria você.
- De fato.
O
Arquimago louro passou por ela, com o cabelo preso num rabo-de-cavalo.
Ele parou ao lado dela, olhando para a imensa ponte que ligava a cidade
da magia ao campo depois do rio.
- Permite que eu a acompanhe até Glast Heim?
- E por que Leonard Belmont, alto membro do Conselho de Magia de Geffen, quer ir comigo para lá?
-
Não imagine que a acho inapta de ir sozinha. Mas eu também tenho
interesse em ver algo na antiga capital. Além disso, dois amigos me
aguardam lá. Talvez pudéssemos ir todos juntos.
- Minha investigação é...
-
Confidencial, eu sei. - o Arquimago começou a andar - Mas se o que
investigamos for o mesmo assunto, nossas informações podem se
complementar.
Sem muita opção, Jô aceitou. Leonard Belmont não
era do tipo que fazia jogos ou usava meias palavras. Cumpria sua
missão, apesar de raramente compartilhar do que realmente se tratava.
Além disso, era um dos homens mais poderosos do reino. Sua reputação o
precedia.
Caminharam pelos campos, enfrentando desde simples
Kobolds até Petites Voadores. Não tiveram muito trabalho, e logo na
entrada de Glast Heim viram uma Suma Sacerdotisa e um Mestre-Ferreiro.
- Esta é Hellenia. - disse ele, apresentando a morena - O elfo você já conhece.
- Saudações, Christian. - a loura fez um breve aceno.
O
elfo apenas meneou levemente a cabeça. Jô viu ele lutando uma vez
contra um criminoso auto-denominado "Justiça Infinita" - não por acaso,
clone do filho de Leonard. Pareceu um grupo consistente aquele.
- Vamos para o túmulo de Nagflar. Jô pode nos guiar pelo caminho mais rápido.
A
menção do nome do Paladino fez a loura se arrepiar por inteiro. Seus
olhos ainda ficaram marejados com isso. Não se lembrava quando começou
a ouvir elas. Talvez tenha sido no seu berço, ou mesmo na barriga de
sua mãe. Mas cresceu ouvindo as histórias dos feitos de um dos
primeiros heróis dos reinos. Amava tudo que Nagflar tinha feito ou
falado. E era uma Paladina, defensora da vida, pura e simplesmente por
causa dele.
Saindo de seu momentâneo transe, ela guiou o pequeno
grupo. Passaram pelo cemitério e pelas costas da abadia. Cruzaram os
muros internos e, ao noroeste da cavalaria, chegaram a um túmulo
esquecido pelo tempo. Uma belíssima espada estava cravada nele,
enfeitando o que seria sua tampa.
Jô ficou de joelhos e murmurou
uma oração. Leonard olhou para os amigos, esperando a garota terminar
sua obrigação religiosa e pessoal com seu ídolo. Por fim, passou por
ela, parando ao lado da espada.
- Esta é uma Balmung. - disse o
louro - Apenas dois tipos de pessoa estão autorizadas a utilizá-la:
Guardiões de Midgard ou aventureiros que tenham sido honrados pelos
deuses em alguma ocasião especial. No caso, esta era a de Naglfar, a
única pessoa que pôde usar uma por tempo indeterminado. Ela funciona
como um selo, para que seu túmulo jamais seja aberto por nenhuma pessoa.
- E por que a espada está quebrada? - Christian limitou-se a ficar de braços cruzados, olhando a lâmina.
-
Quebrada? - Jô levantou-se na mesma hora e olhou. Não via nada de
errado. Seu olhar buscou o do elfo de cabelo verde, precisando de
alguma explicação.
- Já forjei muitas armas, moça. Apesar de não
fazer mais isso, sou capaz de reparar elas. E meu conhecimento de forja
não foi perdido. Essa espada está quebrada. E não emana mais mágica
nenhuma. Tente pegar ela para ver.
Descrente, Jô levou a mão até
a empunhadura. Ficou perplexa quando a lâmina se quebrou logo depois do
final da guarda, restando apenas um toco.
- O túmulo foi aberto. - Leonard falou, virando-se para Hellenia - Abra um portal para Prontera.
- Sim senhor.
A Paladina, segurando o toco da Balmung, foi até a frente de Leonard, boquiaberta.
- Você não vai abrir o túmulo para olhar? Como pode ter tanta certeza assim?
-
Ora, Paladina. Se eu tentasse abrir o túmulo, eu tenho certeza que você
sacaria heroicamente sua espada e escudo, entraria em alguma pose de
combate bonita e diria algo como "eu jamais permitirei que vocês
profanem o descanso de Nagflar!". Estou errado?
- N-não... - ela ruborizou na hora.
Mas como eu pareço ter certeza sobre isso, você está curiosa e quer ver, não é?
Jô concordou. Notou então Hellenia suspirando e dando alguns zeny para Christian. Viu que a Paladina percebeu e explicou.
-
É que o Leonard falou que ia fazer isso e que a sua reação ia ser
exatamente essa. O Christian falou que duvidava e eu apostei com ele. E
perdi.
Com um sorriso vitorioso, o Mestre-Ferreiro passou pelas
duas mulheres. Com os braços musculosos, ergueu a tampa de pedra sem
fazer cerimônia, apoiando-a do lado do túmulo. E com exceção de
Leonard, ficaram surpresos com a ausência do corpo.
- Eu... eu preciso reportar ao rei sobre isso imediatamente! - disse ela.
Hellenia
abriu um portal do lado da Paladina, tão logo ela terminou de falar.
Ela agradeceu. Ensaiou dizer algo, mas Leonard espalmou a mão.
- Não perca seu tempo e o nosso tentando explicar o que ainda não sabe. Fique tranquila. Nós voltaremos a nos falar.
A Paladina desapareceu na coluna de luz azul. Leonard então se ajoelhou, analisando de perto a tampa de pedra.
- E se ela não estivesse tão esbaforida, coitada, teria notado isso.
- Isso o quê? - Hellenia se aproximou para olhar também.
-
Que a espada cumpriu seu papel. Ninguém abriu o túmulo porque de fora
isso seria impossível. Mas a magia dela não previu o fato de alguém
tentar abrir ele de dentro para fora.
A Suma Sacerdotisa ficou chocada. Leonard se levantou, anotando coisas em um bloco de papel.
- Christian, conserte esse túmulo e essa espada. Eu acho que estou fazendo uma imagem do plano maior que está acontecendo aqui.
***
- Como ele pôde fazer isso comigo? COMIGO?
O Arquimago andava indignado por Payon. Balançava os cabelos morenos
nervosamente. Estava andando há dias desde que fora expulso da Escola
de Magia de Geffen por Leonard Belmont. As palavras "Você é inapto. Vá
embora" ecoavam em sua mente.
Cansado, parou na frente da entrada da caverna. Seus olhos brilhavam de maneira psicótica.
- Eu... sou o maior Arquimago da era atual. E eu posso provar. Ele está errado. TODOS ELES ESTÃO ERRADOS!
E soltou então uma gargalhada insana. Chamou a atenção dos iniciantes,
curiosos com aquele homem estranho rindo sozinho. Ele, por sua vez,
entrou na escuridão da caverna. Um espadachim e uma mercadora batiam
juntos em um Bongun. Mas não terminaram, pois o Arquimago disparou um
Trovão de Júpiter, eletrocutando a criatura.
- Isso chama-se "ks", idiota.
A voz fez o homem virar. Era um Ferreiro louro, que segurava dois
manguais enquanto uma bonita Alquimista morena amarrava a própria bota.
- Não ousem me atrapalhar! Eu vou concluir o meu treinamento, igual o poderoso Zephyrus!
- Está louco? - o Ferreiro olhou furioso para o Arquimago.
- Vou destruir todos os mortos-vivos dessa caverna e conseguir alcançar a Verdade Absoluta!
- Querido, - disse a morena, levantando-se - acho que ele está copiando o incidente daquele grupo do Roan.
- Sei. Está imitando o Bruxo louco.
"Louco"? O adjetivo deixou o Arquimago irritado. Suas mãos ficaram
envoltas em chamas no mesmo instante. Não admitiria mais ser
classificado dessa maneira. Esboçou atacar o casal, mas levou um murro
na boca, dado pela mulher.
- Quem vocês pensam que são para contrariar o poderoso Mestre Arcano Hatii II? - berrou ele, limpando o sangue da boca.
- Poderoso quem? - a mulher deu outro murro no homem, fazendo-o cair sentado.
- Nós somos Algus e Myria Rasen. E não gostamos de gente como você por
aqui. - o Ferreiro pisou no peito dele - Esse é um lugar para
iniciantes ou para gente que vem caçar a Flor do Luar.
- Ele deve estar aqui porque é incapaz de treinar em outros lugares, Algus.
Agora o chamavam de incapaz. Hatii não ia tolerar mais essa ofensa. Em
sua mente, em uma fração de segundos, tinha queimado o casal vivo
enquanto ria e dançava em seus cadáveres. Mas a realidade era
diferente. Quando ameaçou invocar sua lentíssima Chuva de Meteoros,
apanhou tanto no rosto que tinha dificuldades em ficar com os olhos
abertos. Apenas ouvia sons e conversas distantes, sentindo a grama
macia do exterior da caverna.
- Nunca mais volte aqui. - ouviu a voz do homem dizer - Da próxima vez você vai aprender a conjurar magias sem os dentes.
***
- ... e é por isso que lhes afirmo com a maior precisão, senhoras e
senhores: os Homúnculos vão revolucionar nossa vida de combates.
O salão nobre, em Juno, explodiu em palmas. Dezenas de perguntas eram
feitas ao mesmo tempo. Flashs disparavam sem fim na direção do Criador
ruivo. Ele sorria, deliciando-se com cada momento. Para Fjalar, aquele
era um momento de glória. Membro do corpo acadêmico da Universidade de
Juno, era o primeiro homem a anunciar publicamente os estudos sobre a
forma de vida artificial conhecida como "homúnculos", que seria um
precioso reforço para os Alquimistas e Criadores.
- Eu responderei suas perguntas aos poucos! Um de cada vez, por favor!
- disse ele, sentando-se enquanto seus assessores organizavam os
curiosos.
E uma Suma Sacerdotisa levantou-se. Ajeitou o cabelo por trás das
orelhas de elfa e passou pela porta do salão. Aquela gritaria e
alvoroço a incomodavam demais. Sempre curiosa, natural de sua raça, foi
até Juno para ouvir aquele anúncio que prometia ser inesquecível. Mas
era algo apenas para Alquimistas. Não era de seu interesse.
Distraída, saiu da enorme universidade, na nada modesta cidade voadora,
e prendeu sua atenção em um grupo posando para fotos. Uma Caçadora
organizava uma fila para que crianças subissem nas montarias de dois
Templários, enquanto uma Sacerdotisa ruiva brigava com algumas pessoas.
Apertou os olhos ao reconhecer o brasão rubro-dourado com as monogramas
"OD".
- Ordem do Dragão. - disse, espontaneamente.
- Exatamente, senhorita. - a Caçadora pensou que a Suma Sacerdotisa
falava com ela - Estamos angariando fundos para os desabrigados do
tsunami em Comodo. Gostaria de colaborar com a causa?
- Oi? - a Suma Sacerdotisa olhou então para a Caçadora loura, com duas tranças, uma caída em cada ombro.
- As fotos com os Templários saem por dez zeny cada. As histórias infantis com a Sacerdotisa saem por cinco zeny apenas.
A ruiva começou a reparar melhor então. Viu que os Templários pareciam
felizes em exibir os brasões. Eles colocavam crianças em Peco Pecos e
tomavam o cuidado de abraçá-las e exibir a monograma. A Sacerdotisa,
por outro lado, discutia simultaneamente com quatro pessoas, enquanto
as crianças dormiam ao redor, esperando algo acontecer. No fundo, uma
Mercadora cuidava do que parecia ser o caixa daquela "ação social",
enquanto um bardo deitado dedilhava melodias aleatórias em um bandolim,
mais preocupado em olhar para as coxas dela. Do lado dele, uma
Sacerdotisa loura, de voz ligeiramente grossa, escondia o cigarro
quando alguém lhe pedia uma foto. Parecia se emocionar fácil com o que
lhe falavam e ficava dando palpites nas roupas e costumes dos demais,
mesmo que não lhe perguntassem.
A Suma Sacerdotisa estava chocada. A Caçadora então cutucou-a.
- Qual seu nome? - disse ela, com uma caneta e uma prancheta.
- Bonnie.
- E sobrenome?
- Heart. Aliás... sabe algo sobre algum Argus?
A loura olhou a lista do começo ao fim. Olhou frustrada para a ruiva.
- Ninguém com esse nome passou aqui. Desculpe.
Com um sorriso, Bonnie agradeceu. Estava separada do irmão desde os
cinco anos de idade. Era hábito perguntar por ele sempre que
encontrasse alguém que lidasse com nomes e listas.
- Ei... - cutucou então a loura - Pra quê quer saber meu nome?
- Bom, o seu lugar na fila é o de número cento e doze. Você deve ser chamada daqui a vinte minutos.
- Fila do quê?
- Pra tirar foto com os Templários.
- Eu não quero tirar foto com vocês.
- Mas todos querem tirar uma foto conosco! E você vai colaborar na compra de alimentos e roupas para as vítimas do tsunami!
Bonnie franziu o cenho. Não gostou nada daquilo. Não era essa a imagem
que tinha daquela guilda. Apesar de viver a maior parte do tempo em Al
De Baran e odiar jornais e revistas, já tinha ouvido falar da tal força
de paz que servia ao Rei Tristan III. Mas aquilo, com aquelas pessoas
exalando preguiça, sem armas prontas para lutar, deixou-a profundamente
frustrada. Começou a tentar lembrar de um nome que sempre ouvia
acompanhando as notícias sobre a Ordem do Dragão.
- Era com L... como era mesmo? Lafaer... Lafear... Lafera... Lifare...
Leafar! Isso! Cadê o Leafar? Ele não é o chefe de vocês? Um Cavaleiro,
ou algo assim.
Por um momento o grupo ficou em silêncio. Alguns abaixaram a cabeça.
Outros fingiram que não ouviram. Mas a menção do nome dele os perturbou
em diferentes níveis.
- Ele não é nosso chefe. - disse a Caçadora - O clone dele é que era, mas nós o matamos. Eu sou a líder agora.
- Clone? Mataram? Você é a chefe?
- Sim.
A ruiva apontou então para algo ao longe, fazendo uma cara de surpresa.
- Ali! Não é ele ali?
Na mesma hora, todos viraram para olhar. Apertaram os olhos mas não
viram nada. Quando se voltaram, notaram Bonnie já longe, voltando para
dentro do prédio.
- Odin me livre! - falou sozinha, balançando a cabeça negativamente -
Se a minha vida depender de gente hippie assim, tô é ***! Oxalá me
guarde que eu sei me defender e não vivo na capital!
De volta ao salão, Bonnie reparou em um alvoroço maior do que quando
saiu. Viu uma moça alta, bonita, de cabelo escuro longo e liso, óculos
finos, segurando um bloco de notas. Do seu lado, um rapaz de porte
mediano e ágil, de cabelo castanho médio, com uma máquina fotográfica.
- Dê um zoom no rosto dele, Pedro. - disse ela, orgulhosa - Quero ver sua reação à próxima pergunta.
- A minha será a mesma de sempre, Luisa! - Pedro piscou sorridente.
- Sempre engraçadinho, senhor Parker. - ela aumentou o volume da voz então - Tenho uma última pergunta, senhor Fjalar.
- A rodada de perguntas já terminou, senhorita Lane.
- Mas a minha é curta e rápida. E o povo de Rachel que lê o Planeta
Clarim quer saber: é verdade que o senhor usou cobaias humanas para
suas experiências com os homúnculos?
O salão ficou em silêncio. A jornalista então buscou uma folha do seu bloco de notas.
- Aqui diz que sua família morreu tragicamente em uma invasão de
monstros em Rune-Midgard há alguns anos. E há menos tempo os corpos de
seus familiares desapareceram. O senhor não prestou queixa e sumiu
com...
- Calem essa mulher. - disse ele, tremendo.
- ... o senhor sumiu - Luisa continuou falando firme enquanto Pedro
olhava com cara sarcástica para um soldado que tentou se aproximar -
com todas as suas anotações sobre a Pedra Filosofal. E seu maior
interesse com o advento dos homúnculos seria encontrar um modo de fazer
sua família reviver com eles.
- Eu não sei do que é que você está fal...
- Um de seus assistentes recentes desapareceu há pouco tempo. A guarda
real não encontrou nenhum vestígio do corpo dele, mas ele tem uma
tatuagem peculiar nas costas. Será que o senhor se importaria de nos
mostrar as costas desse homúnculo aí no palco?
O salão ficou tenso. Se pudessem ver mais de perto, notariam uma gota de suor escorrendo da testa de Fjalar.
***
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