Einherjar
- Prólogo do Valhalla
Roteiro e texto: Rafael de Agostini Ferreira
Arte: Leonardo “LeonheART” Luccas
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Esta história acontece na seguinte linha de cronologia:
Eclipse Final
Ruína
Ruína de Rune-Midgard
Hora Zero
Fim de Rune-Midgard
Shirabara
Dämmerung
Garra das Trevas
Morroc Saga
>> Prólogo do Valhalla <<
Einherjar
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# Einherjar
“Também conhecidos como ‘Os Guerreiros de Odin’, os Einherjar são os guerreiros mortos recolhidos pelas Valquírias para irem ao palácio de Valhala, onde viverão em banquetes e fartura até o derradeiro dia do Ragnarok. As valquírias escolhiam apenas os melhores e mais heróicos guerreiros.”
# Valhalla
“Na mitologia nórdica ou escandinava é o local onde os guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha.”
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Ir para o capítulo 2
### AVISO IMPORTANTE ###
Esta história possui spoilers do último capítulo de Garra das Trevas e da quest da Ilha Esquecida. Se não quiser ter a surpresa estragada, PARE DE LER AQUI
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- ... e pela lealdade apresentada, eu a condecoro com o raro título de “general” da Ordem do Dragão. Ajoelhou-se como Filhote, mas agora vai se erguer como General Dragão Vermelho!
Sob as palavras do louro, a Suma Sacerdotisa morena se levantou. Agradeceu e olhou para o Mestre do seu lado. Mal acreditava que tinha conquistado o título de dragão cromático - honraria dada a poucos membros que ostentavam as anagramas rubro-douradas da Ordem do Dragão. Ele mesmo, Castor, tinha acabado de ser nomeado General Dragão Verde. Aquele era um dia de festa para a guilda. E os aplausos dos demais os fazia se lembrarem muito bem disso.
- Por ora estão dispensados. - disse Leafar, satisfeito - Avante, Dragões!
Um “avante” foi ouvido como resposta. Viu que cada um ali tirava sua própria boina verde. Ele já segurava a azul na mão, dirigindo-se para a saída da clareira, oculta no sul do quadrante cinco de Prontera, quando recebeu uma mão no braço.
- Nem pudemos nos falar direito! Oi, né!
A Bruxa sorriu para o amigo. Leafar queria ir embora, mas Míriël era sua amiga de infância. Em outra ocasião, cuidou dele enquanto esteve em coma, no laboratório de seu pai. Não costumava lhe negar pedidos ou tempo.
- Oi, Mí. - sorriu e abraçou-a rapidamente. Tentou se soltar discretamente, mas ela sustentou o abraço.
- Quase não nos falamos. Como você está?
- Bem, obrigado. - respondeu rápido, ansioso para partir.
- E o que me conta de novidade, Le? - disse ela, sendo uma das poucas que não o chamava de “Lea” como apelido.
O Lorde não queria perder tempo. Não sabia como dispensar Míriël sem ser estúpido ou parecer que não queria a companhia dela. Mas ouviu a voz familiar por cima do seu ombro.
- Quer dizer, eu vou ali só abrir portal pro Nadav e você já agarra a primeira que dá mole?
Míriël riu, soltando Leafar, balançando a cabeça negativamente enquanto olhava para a elfa.
- Não é nada disso, Bonnie. - disse ela, segurando o riso - Só queria saber como vocês estão!
- Liga pro celular dele então! Precisamos partir! Não é? - e a Suma Sacerdotisa ruiva deu um murro no ombro de Leafar.
- Preciso realmente ir, Mí. Desculpe. Depois nos falamos melhor. Beijos, me liga!
Bonnie pegou Leafar pela mão e saiu correndo com ele. Foram até as margens do rio. Ela buscou uma gema azul, pronta para abrir um portal.
- Você está ficando ótima em saídas estratégicas - disse ele, com o semblante sério - mas está começando a ficar marcada como namorada ciumenta.
- Eu não me importo, Lea. Estou mais preocupada com o que você acha e o que tem para fazer.
A coluna de luz azul surgiu no chão. Os dois pularam para dentro dela. Em segundos, estavam na entrada da Mansão Belmont, na cidade de Rachel, no distante reino de Arunafeltz. Sem perder tempo, correram. Rush, o cão de Leafar, os acompanhou, indo até o banheiro. Leafar girou as torneiras do lavatório em uma sequência específica, e a água da banheira escorreu, revelando um escorregador. Pularam nele.
No final, em uma base subterrânea cheia de aparelhos eletrônicos e telas, encontraram o prestativo mordomo Albert, que tão logo os recepcionou, ajudou Leafar a começar a retirar a armadura metálica.
- Patrão Belmont, seus alvos desta missão são humanóides de tamanho médio. Possuem alta defesa, por se tratar de uma divisão de cavaleiros renegados. As armas recomendadas são sua Gladius Capital Tripla e seu Rondel. O exotraje será mais eficiente no Modo Ofensivo. Confirma a configuração?
A essa altura, Leafar estava apenas com uma calça preta e botas. EnquantoBonnie sentava-se em um terminal com um computador, ele olhou para o mordomo.
- Eu sempre aceito suas sugestões de configuração, Albert. Não sei por quê me pergunta. O Pingente já está configurado?
O mordomo saiu da frente e indicou um pedestal para o louro. Leafar foi até ele e puxou do centro um Pingente roxo e dourado, desencaixando-o de sua base.
- Adoro essa parte.
Ele colocou-o no pescoço e ajoelhou-se, segurando o artefato. Dele, uma onda negra saiu, espalhando-se pelo seu corpo; na verdade, um número incontável de nanomáquinas, que começou a envolver seu corpo por completo, formando uma roupa igual à armadura típica dos Algozes, toda preta, com os detalhes em prateado.
- Por que se ajoelha? - Bonnie, que lia uma folha recém impressa, mal olhava Leafar, entretida com a informação.
- Em respeito ao que houve com eles. Sempre que visto o exotraje me lembro do sacrifício dos dois. Então faço isso ajoelhado.
Por um momento, a Suma Sacerdotisa parou de ler o papel. Apenas lançou o olhar por cima dele, buscando firme o de Leafar, que ficou sem graça.
- Está bem, vai. E por causa dos Rune Rangers! Poxa! - os olhos de Leafar chegavam a brilhar. Bonnie balançou a cabeça negativamente.
- Você é general de Rune-Midgard. Tem o poder o político de mandar para a cadeia qualquer um que te olhe torto ou não te dê bom dia. É o segundo homem mais rico de Rachel. Como se não bastasse, agora é o herói secreto da cidade. - Bonnie suspirou - Eu pagaria o dinheiro que fosse pra que um dos seus fãs estivesse aqui, te vendo vestido com essa roupa que faz os caras mijarem nas calças só de olhar, te ouvindo falar dos Rune Rangers.
- Se eu fosse um ser humano - Albert entregou para Leafar o cachecol vermelho e a máscara negra pontuda de olhos brancos - eu teria rido de seu comentário, senhorita Heart.
- Ah, Bonnie! Vai falar que você não lia os livros sobre eles quando você era pequena? E recentemente lançaram até uma série de quadrinhos! Eu queria muito ser...
- ... ou o vermelho, ou o dourado. - interrompeu ela, dando a folha que lia para Leafar - Já ouvi isso umas mil vezes. Você só tem tamanho mesmo. Aqui, preste atenção. Esse grupo acabou de voltar de um destino desconhecido. Tudo que sabemos é que eles despacharam algo importante nesse lugar e vieram receber seu pagamento. Você precisa descobrir o quê aconteceu e aonde aconteceu, Lea.
Antes que pudessem dizer qualquer coisa, o celular de Bonnie tocou. No mesmo momento, todo som de máquinas ao redor cessou. A ruiva olhou o visor.
- É o padre Bamph. Por favor, não façam barulho.
Ela levou então o aparelho até o ouvido.
- Alô. Sim, sou eu. Sua bênção, padre. Como posso ajudá-lo? Ah, entendo. Entendo. Sim, claro. Eu estou indo agora mesmo para Comodo. Larjes, não é? Está bem. - ela olhou então para Leafar - Claro, eu informo o general. Pode contar com nossa discrição. Amém.
- Acredito que o desaparecimento que o padre Bamph lhe informou tenha algo a ver com nossa investigação, senhorita Heart. - Albert agora entregava as adagas para Leafar - Só não acho prudente um encontro com o informante dele no cassino da cidade litorânea.
A ruiva ficou indignada. Abriu a boca e colocou as duas mãos na cintura, olhando para Leafar.
- Ele ouviu a minha conversa! Lea!
- Não posso fazer nada, Bonnie. Ele ouve todas as conversas telefônicas aqui dentro da mansão. Normas de segurança.
- Bom, como esse desagradável falou, terei que ir pra Comodo. Então não vou poder te acompanhar como Raven agora.
- Tudo bem. Albert, você poderia...
- Eu já previ essa situação e já convoquei a senhorita Freya, patrão.
Tão logo o mordomo terminou de falar, eles ouviram algo como um “weeeeeeeeee” vindo do escorregador. O grito agudo e feliz foi ficando mais próximo, até culminar com uma garotinha loura caindo nas almofadas no final, abraçada com Rush.
- Senhor Lea! - disse ela, soltando o cachorro. Leafar se ajoelhou para abraçá-la.
- Ei! Cadê a peruca?
- Deixei lá no banheiro! Fico tão feliz de não precisar usar ela aqui embaixo, sabia?
Leafar olhou a garotinha, que tinha pouco mais de nove anos. Freya tinha sido a Papisa do Templo de Rachel, que adora a deusa de mesmo nome. Após o incidente que culminou no fim de seu predecessor como “Jöseph”, o guardião da população original da cidade, Leafar adotou a menina como sua protegida e como a filha que jamais teria.
- Devia mudar de nome permanentemente. Freya não combina mais com você.
- Ah, senhor Lea! - disse ela, soltando-se do abraço - Eu vou ficar louca assim! Cada hora tenho um nome! Freya, Ruby, Raven.... cácácácácácácá!
- Eu juro que ainda não me acostumei com a risada dessa menina. - de braços cruzados, Bonnie voltou sua atenção para a tela da câmera que vigiava a entrada do templo.
Albert ajudou então a menina a vestir a roupa negra de sacerdotisa. Colocou uma Máscara de Fantasma nela, escondendo os olhos bicolores, vermelho e azul. Ela adorava aquilo. Ser a companheira “Raven” de Jöseph, ou “Garra das Trevas”, como os populares o chamavam, era como uma brincadeira para a menina, que até então tinha crescido ignorante, presa sob os cuidados dos sacerdotes da deusa homônima.
- Onde vamos, Jojô? - disse ela, arrumada ao lado do louro.
- Para sua antiga casa. - Leafar, já de máscara, tinha parado de brincar. Sua voz saía séria e breve.
- Vamos ver a nova Papisa?
- Não. - Leafar conferia o trajeto que faria, checando as câmeras das ruas da cidade.
- E lembre-se - Bonnie se abaixou e ajeitou o cabelo da menina - que só nós sabemos que ela é “nova”. Depois que o Lea te tirou de lá, eles só colocaram outra garota lá, como se nada tivesse acontecido.
- Tá bom, tia Bobbô!
Bonnie odiava os dois apelidos que Freya tinha lhe dado - tia e Bobbô. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, recebeu a mão de Leafar nos lábios.
- Vá para Comodo. Avise Albert quando acabar e volte para cá.
- Ah, boa sorte para você também. E eu também te amo, Lea.
- Eu sei.
Sob o olhar de Albert, Bonnie e Rush, Leafar e Freya, ou Jöseph e Raven, partiram, sumindo na escuridão da base subterrânea.
***
Era noite em Rachel. Nos jardins do templo, Leafar, escondido graças ao módulo de “controle de refração cutânea” - ou “aquele negócio que imita a Furtividade dos Mercenários”, segundo Freya, tentava se aproximar da Sacerdotisa Niren e dos Cavaleiros com os quais ela conversava. Eles não usavam brasão de nenhuma cidade. E vez ou outra um deles arriscava um olhar mais assanhado no generoso decote da morena, dona de poderosas curvas.
Leafar balançou a cabeça. O chão estava cheio de folhas e galhos secos. Embora estivesse invisível, ainda fazia barulho. E pisar nelas ia entregá-lo. Bastava uma magia da mulher para que Leafar não conseguisse mais se ocultar. Tentou ler os lábios deles, mas ainda era novo nisso e não conseguia entender nada. Os únicos nomes que identificou foram “Veins” e “Zhed”.
- Raven. - disse ele baixinho.
- Diga, Jojô. - Leafar ouviu a resposta vinda de um dispositivo de áudio da sua máscara e que estava ligado direto em seu ouvido.
- Siga os cavaleiros quando eles se desligarem de Niren. Preciso falar com Bekento.
Rápido, Leafar correu pelo jardim, se afastando. Ainda invisível, saltou o muro de pedra. Usando uma fina corda, com um gancho metálico preso na ponta, escalou o templo, seguindo o caminho que aprendera pelo teto. Ágil, pulou, segurando-se na borda. Escorregou por um pilar até alcançar a janela do piso térreo. Entrou pela janela aberta, rolando no chão e saindo de sua Furtividade, segurando as duas adagas. O Sacerdote, de cabelos brancos, tombou sentado no sofá, pálido.
- Um dia desses, marque minhas palavras, - disse ele - um de vocês ainda vai me matar de susto. E você é o que está chegando mais perto disso, Garra das Trevas.
- Por que não me chama de Jöseph, como todos os outros, B? - disse Leafar, com a voz alterada pela máscara, enquanto se levantava, com a capa negra pontuda acompanhando seu movimento.
- Desculpe. Mas é que os outros não usavam roupa de Algoz. Ainda estou me acostumando com isso.
- Eu preciso de informação.
- Sobre o quê?
Leafar titubeou. Resolveu jogar com o que tinha, para não mostrar que estava perdido.
- Uma pessoa desapareceu em Rune-Midgard. Niren estava conversando com algumas pessoas ali fora, e o seu nome e o da cidade de Veins surgiram.
O homem sentou-se e abaixou a cabeça.
- Você soube então dos contrabandistas de Veins?
- Sim.
Claro que Leafar não sabia deles até agora, mas tinha acabado de descobrir. Ficou de pé, perto da janela, olhando o homem, que começou a desabafar espontaneamente.
- Bem, sobre qual assunto você não sabe, não é mesmo? Me lembra muito o segundo Jöseph. Mas enfim, esses contrabandistas só nos causaram problemas. Uma ação deles cruzou com uma ação coordenada pela Niren. Eles tinham um refém, e essa pessoa...
Zhed titubeou. Engoliu seco, mas sentiu o olhar do Garra das Trevas penetrando fundo nos seus.
- ... essa pessoa é do alto escalão de Prontera.
- Quão alto?
- Nobre. Mas eu não posso falar. Por favor, converse com Niren. Não me coloque em uma situação ruim, por favor.
Leafar sabia que Zhed tinha problemas com a Sacerdotisa. Não queria complicar o amigo. Por isso, como Garra das Trevas, não o pressionou mais. Apenas assentiu com a cabeça e pulou pela janela, escalando de novo o templo. Fez o caminho de volta, dessa vez parando na beirada, com a noite escura ajudando-o a se ocultar naturalmente enquanto o vento mexia sua capa.
- Raven. Onde eles estão?
- Indo para o aeroplano. Quer que eu faça algo? - a voz da menina estava alegre, ansiando por emoção.
- Passe eles e quebre alguns Galhos Secos. Atrase-os. Não sei se vou precisar interrogá-los.
- Sim senhor!
Ajoelhado, Leafar tirou a máscara e colocou o Rastreador GZ modificado. Abaixou o visor vermelho sob a vista esquerda e começou a varrer o jardim com a visão, até que a mira identificou Niren parada em um dos quiosques. Estava sozinha.
Novamente mascarado, Leafar ficou invisível e saltou para o jardim. Correu em silêncio e parou a alguns metros da mulher. A rara luz da lua que escapava ocasionalmente das nuvens delineava suas formas generosas.
- Quero saber sobre os contrabandistas de Veins. - disse ele, direto, aparecendo.
- Estava demorando. Quando vi sua assistente-mirim seguindo os cavaleiros, comecei a me perguntar quando é que eu teria a honra de encontrá-lo novamente.
Ela virou-se. Olhava-o por cima dos óculos. Deu passos lentos em sua direção. Leafar apenas ouviu baixinho um “fique tranquilo, ela está desarmada”, vindo de Albert, pelo comunicador da máscara. Niren então olhou-o nos olhos. Tirou os óculos, dobrando uma das hastes, mordendo com os lábios a outra.
- Como posso ajudá-lo?
- Os contrabandistas de Veins tinham um refém. Quem era ele?
- Você vai muito direto ao ponto, Garra das Trevas. Precisa aprender a saborear mais cada momento.
Ao dizer isso, Niren tirou da boca a ponta dos óculos, molhada de saliva, e deixou a haste escorrer entre seus seios, terminando presa no decote. Leafar agradeceu baixinho por Bonnie não ter sido a Raven dessa missão ou ele iria apanhar muito quando ela terminasse.
- Não tenho tempo a perder, Niren. Quem é o prisioneiro.
- Só posso te contar sob uma condição.
- Qual condição?
- Deixa eu ver seu rosto sob a máscara.
Leafar ficou em silêncio, na mesma posição. Uma bola de feno, que escapou do deserto vizinho, passou rolando ao fundo. A sacerdotisa sorriu.
- Eu tinha que tentar, não? Mas sério, minha condição é uma só. Descubra se essa pessoa ainda está viva. Você vai saber quem é quando encontrá-la.
- E onde ela está?
- Está em um lugar abandonado que chamamos de “Monastério”. Agora usamos o lugar apenas como cativeiro. Essa pessoa foi deixada lá, mas eu fui informada que o lugar está cheio de demônios. E talvez a pessoa não esteja mais viva.
Niren abaixou-se. Colocou a mão em um dos tornozelos e começou a subir o vestido. Leafar apertou os olhos. Ela levantou a roupa até a coxa, tirando do elástico que prendia sua meia calça um papel enrolado. Esticou a mão, oferecendo-o para o Algoz.
- É uma carta de navegação com o meu selo. Ela não apenas indica o caminho para a “Ilha Esquecida”, como vai também fazer com que Al Hamad o supra com mais informações.
Sem perder tempo, Leafar tomou a carta das mãos de Niren. Seus olhos se arregalaram quando viu o destino: Veins.
***
Dentro da carruagem conduzida por Albert, Freya - ou “Ruby”, agora de peruca vermelha - acariava Rush. No banco oposto ao dela, Bonnie e Leafar estavam sentados de braços dados. Estavam em silêncio há minutos. Conforme Bonnie tinha conversado com o padre Bamph, um membro da família real tinha desaparecido. O padre foi evasivo em suas respostas. Mesmo Larjes, o contato do padre, não foi claro nas informações. Mas tudo indicava que o problema envolvia o Rei Tristan III. Era comentado nos bastidores do poder que o rei era extremamente mulherengo. No incidente conhecido como “Hora Zero”, ele tinha revivido três dos maiores inimigos do reino apenas por causa da falsa promessa de ter uma de suas amantes de volta. No que será que tinha se metido agora?
A carruagem parou. Albert abriu a porta para que os três descessem. Vestido novamente como Lorde, acompanhado de Bonnie e Ruby, Leafar olhou ao redor. A cidade de Veins tinha um clima seco. Era quase possível dizer que eles respiravam areia pura ali. Mal tinha amanhecido e o comércio local já estava agitado. Homens corriam com camelos para os lados. Uma mulher vendia sabão, enquanto um bêbado trabalhava metal. As casas variavam entre construções de pedra e madeira, soltas em planícies ou enfurnadas na encosta de um rochedo. O tilintar de aço podia ser ouvido no ponto de construção de um aeroporto, com um aeroplano estacionado. Ao longe, o adormecido vulcão de Thor, cenário de tantas outras histórias, vigiava a cidade.
O trio entrou então em uma casa que tinha a entrada cercada de bandeiras com o brasão de Arunafeltz. Um homem velho, de turbante, atrás de uma mesa, notou-os e fez um movimento de mão para que se aproximassem.
- Então você é o representante de Rune-Midgard que me ligou às seis da manhã?
- Eu sou Leafar. Leafar Belmont, General do Rei Tristan III, de Rune-Midgard. Estas são Bonnie Heart, também General do Rei Tristan III, e Ruby Heart, nossa...
A menina, já sentada em uma cadeira, balançava os pés, ansiosa.
- ... nossa filha. - completou, evitando olhar para Ruby, que comemorava secretamente com Rush aquela citação.
O homem pareceu desconfortável com a menção do nome do rei. Deu a mão para Leafar e, pegando-o de surpresa, beijou seu rosto, uma vez em cada lado.
- Eu sou Al Hamad. Estou me aposentando. Era pra eu já estar em casa descansando. Mas quem disse que a vida é fácil?
- Ela nunca é. - Leafar sentou-se, vendo que o homem tinha feito o mesmo.
- Muito bem. Tem a autorização aí?
Bonnie puxou a carta de Niren e entregou-a para Al Hamad. Ele apenas passou os olhos por cima e devolveu-a.
- Eu fico surpreso com essas coisas. Vocês nem são cidadãos de Arunafeltz mas parecem ter bons contatos. Podemos acabar logo com isso então?
- Certamente. - Leafar ajeitou-se na cadeira.
- Esse homem de Rune-Midgard foi até o cassino de Comodo. Havia esses contrabandistas por lá. Eles são do pior tipo possível: lidam com tráfico de pessoas. E quando esse homem apareceu, logo viram que ele era rico. Armaram uma cilada, usando uma mulher como isca. Deu certo tirar ele de perto dos guardas e eles capturaram-no.
Leafar suspirou. Aparentemente, novamente uma mulher tinha colocado o rei em uma situação delicada. Al Hamad continuou o relato.
- O que eles não esperavam é que ele fosse do alto escalão de Prontera. E com medo de serem perseguidos, invadiram nossa fronteira marítima. E tudo que eu soube por último foi que eles foram levados para o Templo de Rachel.
- Todos eles, Al Hamad? - Leafar aproximou-se, interessado.
- Sim, todos. Os contrabandistas e o tal homem de Rune-Midgard. Na verdade, estávamos interrogando eles quando o grupo do templo nos abordou e levou todos. Não tivemos tempo de saber a identidade real do homem.
- Suas informações já ajudaram bastante. Eu agradeço pelo tempo gasto conosco. - Leafar fez uma breve reverência.
O homem sorriu e apertou a mão de Leafar.
- Que Alá o acompanhe em sua jornada em busca da verdade.
- Quem é Alá? - a pergunta saiu do Lorde na mesma hora, sincera.
- Deus. - Bonnie, preocupadíssima, levantou-se.
- Salamaleiko, estrangeiros!
Al Hamad então deu um beijo nos dedos, tocou a testa e sua mão partiu dela para o alto da cabeça, enquanto ele a abaixava. Bonnie imitou o movimento e deu uma cotovelada em Leafar para que ele fizesse o mesmo. Junto com Ruby, eles saíram da casa.
- Eu não acredito. - disse o louro, parando na frente da carruagem, com a porta aberta sendo segurada por Albert - O rei está preso nessa Ilha Esquecida, no meio do nada. Isso se ele não estiver... - a voz morreu em sua boca.
- Precisamos de um barco para chegar lá. - Bonnie colocou as mãos na cintura, olhando ao redor.
- O pai do garoto Karyn - disse Albert, na mesma posição - cuja irmã foi salva recentemente por vocês no Vulcão de Thor, tem um barco. Ele pode lhes emprestar a embarcação.
- Mas como nós vamos chegar lá? - Bonnie ajeitou o cabelo por trás das orelhas de elfa.
- Seu contato, Larjes, está nos seguindo há sete horas e vinte e três minutos. Não olhe agora, mas ele está na taverna, na segunda janela da sua esquerda para a direita. Acredito que ele ofereça ajuda, já que em sua ficha consta a habilidade de navegação.
- Preciso de um mordomo desses pra organizar os Gullwings, Lea.
O louro ignorou o comentário de Bonnie. Fez Ruby entrar na carruagem e olhou para o robô camuflado como o senhor idoso e calvo que todos acreditavam que ele era.
- Pelo jeito, os monstros de lá são demônios e temos que partir imediatamente. O que separou para nós, Albert?
- O patrão é indubitavelmente mais forte como Lorde, mas sua penetração no lugar desconhecido, em combate direto e pesado, pode demorar mais que o necessário. Apesar da senhorita Heart ter se especializado em exorcizar monstros ultimamente, creio que ela vá apenas atrasá-lo em sua infiltração.
- Ei! - Bonnie deu um murro no braço de Albert, mas sua mão doeu em contato com a rigidez do metal que o compunha.
- Novamente o exotraje será sua melhor opção para uma infiltração rápida. Se tiver a sorte de que os monstros sejam mortos-vivos, poderá passar sem problemas por eles usando a Furtividade. Para batalha, sua armadura foi configurada para o tipo Crítico, mas em Modo Defensivo. Sua arma será a katar Escama Invertida. Abasteci também seu traje com vinte cargas de Força e duas horas de Força Auxiliar, já que não terá a senhorita Heart para lhe dar suporte.
- Está bem. Vamos então. Cada minuto perdido pode ser crucial para a vida do Rei. Albert, vamos atrás do Karyn. Bonnie, tente falar com o Larjes e peça ajuda para ele nos guiar até a Ilha Esquecida.
- E eeeeeu, senhor Lea? - Ruby apareceu na janela da carruagem.
- Você cuida do cachorro.
- Eeeeeeeeeeee!
A menina ergueu os braços e se jogou, enquanto apenas um “caim” choroso pôde ser ouvido de Rush. Bonnie notou Leafar tenso, mordendo os dentes. Ela colocou a mão em seu ombro.
- Calma, Lea. Vai dar tudo certo.
- Eu espero que sim, Bonnie. Já não temos problemas suficientes? O que mais pode acontecer?
***
Prédio da Corporação Rekenber
- As autoridades de Rune-Midgard sabem disso?
A pergunta veio de um homem forte, que usava um avental branco. Ele olhava para o chefe da guarda.
- Não. De fato, parece que o reino deles enfrenta algum problema interno grave. Eles não têm respondido com rapidez nossos contatos.
- Então Schwartzvald lava suas mãos. Não temos nada com isso. Nem com os problemas internos deles...
O homem se afastou, levando as mãos com luvas brancas para o rosto, ajeitando o pince-nez .
... nem com a fuga do prisioneiro Dhutt. - complementou ele.
***
[conclui no próximo capítulo]
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