Olho ao redor. A funcionária Kafra treme de medo, sentada, encostada
em uma árvore. A noite está incrivelmente bonita; feia é a situação.
Miara e Valkirie estão desesperada, exauridas, curando Gewitter e
Nekrunn. Raasckar olha na direção de Morroc, desconsolado em sua
solidão. Percebo James ajeitando bandagens no braço de Niita, enquanto
o novato Kaizen segura firme suas pistolas, olhando tudo assustado.
O choro da Kafra me chama a atenção. Um aprendiz morreu no colo de
Kamui, enquanto as pequenas Bujunga e Cyära rezam por ele. Meu deus...
são duas crianças! Será que Fei e Sailor, ali sentados, um dia terão a
oportunidade de ter seus filhos? E Bonnie Heart? Seus amigos estavam
todos mortos – assim como os de Moon. Noto Rinoa arrepiada de medo –
provavelmente de lembranças de seu povo elfo em uma guerra similar.
Fenix e Kyrie ouvem Nekrunn lhes passar forças. Annette está brincando
nervosamente com o vestido, tentando se distrair. Lone procura a
esposa, enquanto ouço os gemidos de dor e sofrimento dos milhares de
feridos ao redor. Crystal, Éorien e Ender tentam ajudar como podem.
Castor, Aelita e Polux tentam minimizar o sofrimento de uma criança, ao
lado do cadáver da mãe. Vejo o bardo Mizue tentando consertar o
bandolim. Míriël mostra o pavor no olhar. Mesmo Sarah, sempre
inabalável, segura o arco com firmeza, procurando paz no aperto.
Estão todos no limite.
Viro-me para a incendiada Prontera. Quantas vezes fui arremessado para
fora da cidade, com a violência dos golpes? Perdi a conta. Sinto um
puxão na minha capa. É a Kafra.
- Vai ficar tudo bem, não vai?
Não gosto de mentir. Não vai ficar “tudo bem”. Vai doer. Provavelmente vamos morrer. Mas... se morrer lutando é ficar bem...
- Sim – digo – Vai ficar tudo bem.
O vento me obriga a olhar para o “lago” – uma pequena poça d’água que
chamamos de “Lago das Valquírias”, por ter sido onde o último Cavaleiro
do Dragão da Era passada morreu.
- Vamos para o lago – falei intuitivamente. Todos ficaram em silêncio. Não repeti e andei.
Ouço os passos; estão me seguindo. A brisa nos acompanha, tirando o
cheiro de morte por alguns minutos. Como sempre faço, paro no meio da
água. As pessoas se acomodam ao redor. Ficam todos me olhando. Eu
preciso dizer alguma coisa. Começo tirado meu elmo.
- Amigos... aliados... bravos companheiros de batalha. Cada um de nós
aqui é uma pessoa única, lutadora e especial. Cada um de vocês
enfrentou revezes e problemas que, de um modo ou de outro, superaram.
Todos vocês são vencedores. Sempre foram.
Eles abaixaram a cabeça. Estanquei a ferida. Estão se lembrando de quem são. Isso é bom.
- Essa não é a primeira vez que enfrentamos algo maior que nós. Não é a
primeira vez que nossa força parece falhar. E é isso que nos torna o
que nós somos: livres.
Sorriem. Que bom. Vi alguns deles apertarem os cabos das armas, determinados.
- Se vocês acreditam que a vida vale a pena, se acreditam que o poder
que possuem, em qualquer grau que seja, é o suficiente, é a hora de
usar ele em sua força máxima, seja ela qual for.
Não consigo segurar as lágrimas. Mas vou manter a expressão firme. Chega de choradeira. Temos uma luta para vencer.
- Cada um de vocês aqui, nasceu lutando. Cada um lutou para sair das
entranhas de suas mães, e se hoje tivermos que morrer, que seja como
nascemos... que seja lutando!
Recoloco o elmo, com a mão trêmula. Não tem ninguém que não esteja
lacrimejando junto comigo. Respiro fundo. Eu fui sacerdote antes de ser
Lorde. Lembro um trechinho de duas orações que gosto muito.
- Mil tombarão à sua direita... e dez mil tombarão à sua esquerda...
mas mesmo que andemos pelo vale da sombra da morte, nada temeremos!
Ninguém percebeu que misturei elas. Ouvi alguns “amém” e “que assim
seja”. Olho para Prontera, ao longe. Pego um pouco da água do nosso
lago sagrado e bebo. Temos uma batalha para lutar.
- Nenhuma criatura, monstro ou demônio vai nos tirar o que somos; SOMOS
LIVRES! LOKI VAI TOMBAR HOJE!!!! Que Prontera torne-se cinzas, e que o
sangue lave o lugar! Mas hoje é o dia em que nos provamos ser livres!!
As sacerdotisas tomam a frente. Gozado... nenhum homem sacerdote. Vejo
quão importantes são as mulheres em nosso grupo. Recebemos suas
bênçãos. Nossos corpos enchem-se de força. Seguro firme minha
Katzbalger.
- Temos uma última caminhada a fazer, amigos, e a faremos com honra!
Prontera é nossa, de mais ninguém! PELA VIDA! AVANTE, AMIGOS! AVANTE,
DRAGÕES!!
Não sei que sentimento está me possuindo. Mas tudo que eu faço é
correr. E sinto o chão tremer. Não tem terremoto, nem nada. São meus
amigos atrás de mim – dezenas deles. Não vou lutar sozinho. Vamos
juntos, até o fim.
Passo pelo portal oeste de Prontera. O clone de Seyren estava nos
esperando. Nada de bons modos; ativo o Frenesi, e o mundo fica sem som
pra mim. Está tudo rubro. Arrebento o desgraçado com minha espada. O
Frenesi me deixa muito mais forte – e rápido. Meus amigos não têm
velocidade para me acompanhar. Deixa, vou na frente. Um Bafomé de
joelhos, quase subjugado. Passo e bato com força, separando a cabeça
monstruosa do resto do corpo. Pulo os restos da muralha interna. Ali
costumava ser a loja de utilidades – agora é apenas entulho.
Ali! No monumento das mãos! É Loki! Noto a aura maligna dele. Escuto
sua gargalhada insana. Ele está de costas pra mim. Em quanto tempo
alcanço ele? Dez segundos? Menos. Eu corro mais rápido que isso, mesmo
com essa armadura.
Avanço. Minha espada brilha em dourado – duas vezes, por causa da
Lâmina de Aura e da Dedicação. Vai ser tudo rápido, tudo fácil. Cravo a
espada na nuca dele e pronto. Faltam só alguns passos. Adeus.
O que é esse barulho de metal familiar no chão de pedra? É a minha
espada. A Katzbalger caiu. Mas eu não soltei ela... não mesmo. Tanto
que minha mão está ali com ela, junto com braço direito inteiro. A dor
é tão grande que o lado direito do meu corpo está dormente. Loki me
olha por cima do ombro. Está vestido como um algoz. O desgraçado me
chuta no peito e se vira para continuar encarando a destruição do
castelo de Prontera. Meu deus... o castelo! Está demolido! Mas dane-se.
Ainda tenho um braço. Arranco a espada do aperto da minha mão direita.
Gozado... agora entendo porque minha técnica se chama “Rapidez de Duas
Mãos” – não consigo utilizar o aprendizado apenas com uma. Cecil, outra
clone, fura minha perna esquerda com uma rajada de flechas. Howard, o
Mestre-Ferreiro, também quis brincar, e quebra minha perna, esmagando
meus ossos do joelho para baixo.
Bati as costas em algo. Acho que é o monumento das mãos. Meu elmo
finalmente cai da minha cabeça. Loki está me olhando por cima do ombro
de novo. Voltou a olhar para o castelo. Que engraçado... é o primeiro
inimigo que me ignora. Estou muito mal acostumado a ouvir meus inimigos
berrarem meu nome com fúria ou desespero. Loki me ignorou. Os clones
também deixam de me dar atenção. Não tenho um braço, e é uma questão de
segundos até eu morrer. Mas não vou morrer parado. Me jogo para a
frente. A dor na perna destruída é indescritível. Com a perna boa, tomo
meu último impulso. Bato em Loki, mas a droga da espada só resvala
nele. Fico caído no chão, de frente. Ele nem se moveu. Está entretido
com a queda do castelo de Prontera.
Finalmente ele está me olhando. Com o pé, me vira de frente. Perdi sangue demais. Eu vou morrer.
- Destruí seu mundo. Vocês perderam, Leafar.
Sorrio. Ele me chamou pelo nome. Isso prova que nós incomodamos ele.
Loki está certo. Ele venceu. Mas ele sabe meu nome. Ele sabe que nós
lutamos. Sabe que não foi só chegar e dominar.
Com a mão que ainda tenho, mostro meu dedo médio para Loki. Começo a
rir... ou tento. Não sinto mais nada. Não sei se estou rindo. Apenas
vejo a bota dele esmagando os ossos sob meu peito. Está ficando tudo
escuro. Meu corpo está dormente. Uma voz divina ecoa na minha mente:
“Vocês não perecerão, aventureiros. Agora é a minha vez. Descansem.
Descansem...”
Não sinto mais nada.