Morroc
Saga
Texto:
Rafael de Agostini
Arte: Daniel Uires
ÍNDICE
Primeiro capítulo ~ A carta
Segundo capítulo ~ Sentimentos
Terceiro capítulo ~ Contra-Ataque
Quarto capítulo ~ Acredito em você
Quinto capítulo ~ Mãos dadas (Final)

Prólogo
Em
algum lugar de Rune Midgard, há séculos atrás,
uma luta titânica e impiedosa acontecia. Não se sabia
como havia começado, mas duas figuras se enfrentavam, há
dez dias e dez noites, sem pausa, sem interrupção. Uma
tentava destruir tudo e todos, e a outra tentava impedi-la.
O
mundo era uma criança. As poderosas nações
dos dias atuais, cujos nomes seriam proferidos com orgulho por seus
habitantes, mal engatinhavam. Algumas delas sequer existiam, tendo em
seus lugares originais apenas descampados e rochas. Não
existiam muitos heróis. Mas o maior de todos eles - e talvez, de fato, o
maior que já existiu - estava ali. Sua armadura, pesada e
brilhante, refletia seu poder, que emanava de uma aura pura e
límpida, azul, cheia de vida. O curto cabelo azulado
contrastava com os olhos escuros, fixos no oponente. Mexia-se com
velocidade, e seus músculos explodiam com pura energia.
Seu
nome era Thanatos.
O oponente era uma das criaturas mais
temidas do mundo. O corpo, coberto por uma escama tão rija
quanto à de um dragão, marrom escurecida, era
sustentado por braços colossais. Um punhado de olhos de
serpente enfeitavam a grotesca visão, piscando em seus ombros
e músculos. O rosto da criatura, cheio de chifres, tinha uma
bocarra nojenta, com dentes amarelados e um hálito podre que
faria plantas murcharem no mesmo instante. Do alto de sua cabeça
descia uma capa de couro ainda mais duro, colada em seu corpo, que
cobria sua espinha, com pontas afiadíssimas, que envolviam
suas coxas e sua longa cauda.
Este era Morroc.
A
violência dos golpes fazia o ar ficar pesado. Não havia
mais nada vivo perto deles. Os dois se batiam de maneira franca,
direta, sem fintas, sem esquivas. Rune Midgard, futuro lar de tantas
lendas e histórias, tinha naquele palco o maior duelo que suas
terras presenciaram por séculos.
E
após tantos golpes de espada, tantos ataques de garras, tantas
magias e tanta devastação, a terra tremeu. Tremeu por
quilômetros. No centro de uma grande cratera, apenas cheia de
areia e restos, resultado da incomparável luta, o demônio
estava, finalmente, vencido. Thanatos erguia-se de pé sobre
ele, segurando sua poderosa espada de duas mãos. O lendário
"Cavaleiro Arcano" tinha vencido e, mais que isso, escrito
para sempre seu nome na história.
Não
satisfeito, embainhou sua espada nas costas. Agarrou firme a cauda
espinhenta de Morroc e arrastou-o para o deserto ao sul. Thanatos
sabia como vencer o demônio, e garantiria que ninguém
mais teria que ver a criatura, nem dentro de cinco mil anos.
Ali
começaria uma Era de prosperidade, que duraria alguns
milênios. Mas, como em toda história, um dia a paz chegaria
ao fim. E talvez nunca mais retornasse.

***
Primeiro
Capítulo
~
A Carta
O
som de passos quebrava o silêncio do longo corredor. Um após
o outro, os pés delicados conduziam suavemente sua dona pelo
piso de mármore impecavelmente limpo. Grandes colunas de
pedra, intercaladas por pinturas na parede, acompanhavam aquela
caminhada, cujo destino era um gramado, acariciado por um sol
belíssimo. O brilho fez os olhos da elfa se apertarem,
enquanto a brisa tocava suavemente seu longo rabo-de-cavalo prateado.
Correu o olhar pelo campo, até ver outro elfo, com um arco
armado, pronto para disparar. Do seu lado, um Guardião de
Midgard, ou simplesmente "GM", estava ao lado de um
dispositivo.
- Vai. – disse o elfo, sereno.
O GM
apertou um botão e um disco foi arremessado em alta
velocidade, bem alto, no céu azul. Com calma, o elfo
acompanhou o objeto voador e, com um movimento curto, liberou a corda
retesada do arco. A flecha voou certeira no alvo.
- Belo
disparo, Raijen – disse a elfa recém-chegada, retribuindo um
cumprimento respeitoso do GM ao lado do amigo.
- Disponha, Lu.
Quer atirar um pouco também?
Ela apenas fez que não
com a cabeça. O GM que previamente acionara o dispositivo para
Raijen notou um olhar de canto de olho da elfa. Pediu licença
e se afastou, vendo que ela solicitava educadamente para falar a sós
com o amigo.
- O que houve? – Raijen limpava o suor da
testa e da cabeça, aproveitando para pentear o cabelo moreno e
curto.
Os dois conversaram por muito tempo. Raijen deixou o
arco deitado no chão, sentado na grama com Luthien. O tempo,
ali em Asgard, passava em um ritmo diferente do que passava para os
seres humanos, em Midgard. E ficaram assim por suas próprias horas, até que
o sol começou a se pôr.
- Você entende a
necessidade dessa missão, meu amigo? – disse Luthien, com
certo pesar na voz.
- Claro. Mas nós vamos lutar, não
vamos? Digo, não vamos começar com aquele papinho de
"Boa sorte, heróis!" pra ficar só assistindo, né?
- Eu prefiro cair morta agora se tiver que falar isso uma
única vez para um dos heróis de Rune Midgard.
-
Que bom! Um pouco de ação! E quando você quer
começar a agir?
- O quanto antes. Cada minuto é
precioso demais.
Raijen se levantou, quieto, tomando o arco em uma das mãos. Andou até
o que parecia um bebedouro - uma bacia de prata em um pilar de pedra,
no meio do campo. Sussurrou algo e tocou com calma a água.
Imagens começaram a se formar na superfície, enquanto
Luthien se aproximava, curiosa.
- Escute... imagino que vá
chamar ele também. - disse o elfo.
- Vou sim. Na
verdade, era o primeiro nome que eu imaginava.
- Tem certeza?
Acho que prefere gente que consiga lutar para ajudar, não é?
Luthien ficou preocupada e voltou sua atenção
para a imagem na água da bacia de prata.
- Ele vai se
ferir gravemente de novo? - perguntou, com a voz baixa.
- Sim,
mas não fisicamente...
Os dois suspiraram, olhando as
cenas que lhes eram mostradas. Em determinado momento, a elfa virou o
rosto para o lado, chocada com o que viu.
- Eu... entendo.
Que assim seja. Mas prepare-se. Quando chegar o momento, vamos usar
todos os nossos recursos. E chamaremos todos que forem de nossa
confiança.
Com graça e leveza, a elfa se
afastou. Raijen apertou o arco, ainda olhando para a bacia de prata.
- Eu estou pronto desde que nasci, Luthien...
***
Rune
Midgard
-
N-não... de novo não! Não pode ser!
Drácula
estava indignado. Seu corpo estava suspenso no ar, cravado na parede
escura e fria da base da Torre de Geffen. A larga espada de lâmina
roxa atravessava seu peito, fincada com violência, enquanto seu
sangue escuro jorrava aos montes. Começou a derreter,
observado pelo Lorde na sua frente. Os fios de cabelo louro escorriam
pelo elmo de Orc Herói que ele sustentava na cabeça,
ofegante.
Mais uma vez, Leafar vencia o Conde Drácula,
dentro de sua base, em Geffen. E teria sido uma batalha rotineira,
típica, não fosse pela garotinha loura caída aos
pés dele.
Foi tudo muito rápido. Elizabeth Sarah
Belmont era seu nome. Era filha adotiva do clone de Leafar com a
Caçadora. Aquela criança, que seguia o caminho divino
do sacerdócio, era a última remanescente de uma família
com uma história muito triste; o último elo de Leafar
com sua vida passada. Por motivos que pertencem à outra situação recente, que jamais foi contada, aquele era o ápice
de uma aventura. Alguém descobriu como devolver a Drácula
a maldição de transformar as pessoas em vampiros. Após
uma jornada dolorosa, onde relacionamentos acabaram e pessoas foram
gravemente feridas, Drácula estava privado desse
poder, fadado novamente à mediocridade de ressurgir de hora em
hora para assombrar eternamente o calabouço da Torre de
Geffen.
- Eu... estava tão... p... pert...
Era
impossível para o vampiro falar mais qualquer coisa. Estava
completamente derrotado, com o corpo se decompondo rapidamente. Em
silêncio, Leafar voltou-se para a menina, naquele chão
fétido. A roupa branca de noviça estava suja de sangue,
misturado à lama e sujeira daquele túmulo gigante.
-
Você me salvou, Liza.
Ela sorriu, quase sem forças.
Com a mãozinha, segurou a capa de Leafar, puxando-o para perto
dela. Murmurou no ouvido dele. Os olhos do Lorde encheram-se de
lágrimas no mesmo instante. Levantou-se e arrancou a espada da
parede, embainhando-a. Com cuidado, pegou a menina com as duas mãos
e começou uma subida longa e demorada, degrau por degrau, até
o topo da torre.
Amanheceria em alguns minutos. Leafar
finalmente alcançou o último andar. Tirou o elmo e
soltou a guarda da espada, deixando ambos no chão.
-
Eu sou a última vampira... - disse Liza, olhando fixamente
para o rosto de Leafar.
- Não fale isso...
Morrendo
de dó, Leafar abraçou forte a menina. Olhava para o céu
com medo. Sabia que a luz do astro-rei traria fim imediato para ela. Mas
não negaria seu pedido - ver seu último nascer do
sol.
- Com o meu fim, ninguém nunca mais vai virar
vampiro, né?
O Lorde engoliu seco. Liza falava a
verdade. Era a última com a maldição de
vampirizar pessoas. Sua morte traria paz para muita gente. E mesmo
assim Leafar não queria que ela se fosse. Era seu laço
com a família que queria ter construído. Não
conseguia fazer nada diferente de chorar com a menina nos braços.
- Descanse em paz, Liza... - finalmente disse, notando os
primeiros raios alaranjados surgindo no horizonte.
- Obrigada
por tudo, tio Lea... obrigada... papá.
Leafar virou-se
com ela para o leste. O sol, em seu espetáculo matinal,
começou a nascer, superando a escuridão. O calor de
seus raios atingiu a dupla, no ponto mais alto de Geffen.
-
É... lindo...
Estas foram as últimas palavras de
Elizabeth Sarah Belmont. O preço da garota por assistir a uma
das maiores apresentações diárias da natureza,
como vampira, era ter sua existência erradicada. Seu rosto se
petrificou com o brilho - não do sol, mas do seu sorriso. Sua
pele começou a secar. Não houve mais nenhum movimento
de seu corpo.
- Deus, não... por favor, não...
O
louro tombou de joelhos. A brisa matinal começou a dissolver a
pele da menina, cujos restos começaram a voar como pó
para o nada, encerrando definitivamente um ciclo. Nada, nem cabelo,
nem osso ou sequer sangue restou. Apenas suas roupas e acessórios
caíram no chão, obrigando Leafar a fechar os olhos com
força, para não gritar de desespero.

Sentiu
então uma mão em sua cabeça, acariciando-o. Não
precisou olhar para reconhecer seu pai, Leonard Belmont, Arquimago
membro do Conselho de Magia da cidade.
- Acabou, meu filho.
-
Por que meus inimigos destruíram toda a minha vida? Por que,
pai?
- Olha, tecnicamente, eles destruíram a vida do
seu clone e de todos relacionados a ele. Não foi a sua.
- Por que, pai? Por
que essas coisas acontecem comigo?
- Que coisas? Refere-se a
você ter sido clonado, seu clone ter se casado e tido uma filha
no seu lugar, depois sua pseudo-esposa ter assassinado seu clone,
você ter perdido seus poderes de sacerdote e ter sido enfiado
em uma guerra contra os Arautos de Surtr como Lorde, ter tido que
assumir a Ordem do Dragão mesmo sem saber do que se tratava,
sua quase esposa ter sido morta na sua frente junto com as suas
amigas, você ter sido espancado até o limite da vida e
sua quase filha ter morrido nos seus braços como vampira?
Leafar olhou com raiva para o pai. O Arquimago coçava
o queixo, olhando para o alto.
- Isso para não citar
que, desde então, você perdeu... hm... duas namoradas?
Ou três? A sacerdotisa louca conta? Tinha aquela outra caçadora
ruiva maluca, depois a brux...
- Pai, por favor!
-
Olha, se você usasse uma máscara pra esconder o rosto e
um nome legal como "Espada Vingadora" ou "Cavaleiro do Sol Nascente", esse tipo de coisa não aconteceria, sabe? –
Leonard deu a mão para que Leafar se levantasse.
Segurou
o filho pelo ombro, terminando de admirar o nascer do sol.
-
Sério, você devia pensar a respeito disso!
-
Preciso de férias.
- Precisa. Sua mãe e eu já
preparamos algo para você.
O Arquimago, com o mesmo
tique de Leafar, estalou o pescoço, balançando o
cabelo, preso no alto da cabeça em um rabo-de-cavalo.
Puxou então um envelope do bolso e entregou para o filho.
-
Eu não acredito que no meio dessa busca contra o Drácula
o senhor ainda teve tempo para planejar as minhas férias!
Digo, isso é uma falta de respeito!
- Aprenda, filho.
Você precisa fazer planos. Se você não faz planos,
significa que não pensa no amanhã. De um modo ou de
outro, Drácula seria derrotado. Está no nosso sangue
vencer ele. Sua mãe e eu confiamos em você. Agora você
precisa descansar.
- Mas essa cidade... – dizia ele, vendo
o conteúdo da carta - nunca fui para este reino!
Arunafeltz...?!
- Vá, filho. Nunca se sabe
quando vai começar a próxima aventura. E, pior, quando
ela vai terminar... e com quais consequências!
O
Arquimago abaixou e pegou os restos das roupas de Liza. Colocou na
mão de Leafar, com o olhar complacente. O Lorde abraçou-o,
de olhos fechados.
- Descanse. E deixe as
lembranças de hoje repousarem no fundo do seu coração.
Você precisa dele para continuar vivo.
Os dois ficaram
em silêncio, respeitando a morte da pequena Elizabeth. Leafar
suspirou e olhou o envelope, sussurrando o nome da cidade para a qual
iria logo mais.
"Rachel".
***
Cidade
de Morroc
O
sol estava a pino no céu azul e límpido. O bafo quente
trazia o cheiro da areia do deserto, invadindo cada fresta da cidade,
construída naquele lugar distante, solitário e cheio de
mistérios. Em meio a isso, duas figuras de branco protegiam os
olhos com as mãos na testa, enquanto andavam para o maior
prédio do lugar – o Palácio de Morroc.
-
Raijen, – disse Luthien, enquanto o vento alisava seu cabelo –
procure as guildas locais. As que investigam a cidade e, em especial,
as que cultuam Morroc, seja com a intenção de ajudar ou
de... você sabe.
O
GM apenas sorriu. Deu as costas e
andou na direção da taverna. Luthien puxou um
caderninho do bolso, junto com uma caneta. Abriu em uma página
previamente marcada e começou a conferir suas anotações.
Andou ao redor do palácio. Marcava coisas, rabiscava e andava pela
cidade, conferindo cada lugar em que parava. Ficou assim por muito
tempo. Sua expressão estava triste. O que quer que fosse que
estivesse comparando, estava tirando sua calma. Só saiu de seu
transe quando sentiu alguns toques no seu ombro.
- Ei, tia! –
disse o garoto, com roupas de Aprendiz – Você é GM,
né?
- S-sou sim. – a elfa tinha percebido tarde
demais que esquecera de ficar invisível para trabalhar em
paz.
- Será que você poderia me ajudar? – disse
o garoto sorridente, tirando uma grande Casca de Ovo da cabeça.
- No que precisa de ajuda?
- Onde fica a guilda dos
gatunos? Não é aqui na cidade, né?
Luthien
ficou parada, observando o menino. Seu olhar parecia perdido. Engoliu
seco e apertou inconscientemente o caderninho, angustiada com algo.
- Tia? – insistiu o Aprendiz, assustado com a reação
dela – Eu não quero tank não! Só me fala onde
é a guilda que eu me viro, por favor!
Saindo de seu
transe, Luthien piscou forte. Fixou o olhar no garoto, saindo de seus
devaneios.
- Isso... não fica na cidade. Ela fica
dentro da pirâmide, na saída noroeste. Tem um labirinto
lá. Para encontrar a guilda, você...
- Ah, muito
obrigado! Com isso eu me viro! Só precisava saber onde era!
Até mais!
O menino acenou e saiu correndo,
determinado, enquanto ajeitava a Casca de Ovo na cabeça.
Luthien sentou-se à sombra do palácio, consternada. O
tempo passou e continuou sentada, segurando o caderninho, com medo de
abri-lo. Finalmente viu Raijen se aproximar, trazendo dois sorvetes
de casquinha. Deu um para ela e sentou-se do seu lado.
- Pode
dizer – falou o GM, dando uma lambida no sorvete.
- Dizer...
o que?
- A verdade. Os cálculos batem?
- Rai...
um Aprendiz veio me perguntar onde era a guilda dos gatunos. Era só
uma criança. E eu indiquei pra ele a pirâmide.
-
A pirâmide vai ser afetada?
- N-não...
-
Então relaxa um pouco. E aí, os cálculos batem
ou não batem?
Com pesar, a GM abriu o caderninho.
Mostrou uma página específica para o elfo. Ele passou
os olhos e voltou a fitar a amiga.
- Eu falei com os
populares – disse ele, dando uma mordida generosa no sorvete.
-
E eles? Sabem de algo? Quão perto chegaram?
- Passaram
longe. A maioria acredita que é um selo, que cultos vão
liberá-lo, que sacrifícios têm poder e todo esse
tipo de coisa. Alguns juram de pé juntos que são
defensores do selo e toda uma conversa bonita, até. Eu quase entrei em duas guildas. Pena que não posso...
- E
isso nos ajuda ou atrapalha?
- Ajuda, claro. Se houver uma
mudança repentina no comportamento desses "seguidores -
protetores" de Morroc, vai chamar demais a atenção.
E eu ter conversado com eles reforçou suas fantasias. São
todos pessoas boas, e vão ajudar, mesmo sem saber disso.
Raijen pegou o sorvete da mão de Luthien, que não
tinha encostado nele. Começou a tomar ele também,
enquanto ela olhava para as torres do belo palácio. O elfo
notou e passou a mão no ombro dela.
- Pare de pensar a
respeito disso. Você sabe que é preciso agir. Já
se passaram alguns meses aqui em Rune Midgard, desde que decidimos
esperar. Os heróis estão prontos.
- Eu não
sou muito adepta de "missões secretas", Rai.
Mas...
- ... mas você sabe que uma movimentação
de milhares vai chamar a atenção. Vai ser difícil
de controlar, coordenar e, pior, ter sucesso. Multidões são
para guerras. E não é exatamente com uma guerra que
vamos lidar agora.
A elfa se levantou e colocou a mão
no bolso. Puxou uma gema azul. Ia arremessá-la no chão,
pronta para abrir um portal, mas sentiu a mão de Raijen
segurando a sua.
- Calma. Não perca a esperança
ou a fé. Nós temos que ser fortes. Sinceros, sem
joguetes... mas fortes. Somos o exemplo para todos eles.
Os
dois se abraçaram. A partir daquele momento, não
saberiam quando teriam outro momento de paz. Assim que deixassem
Morroc, começariam uma longa e complicada jornada. Sabiam que
não lutariam pela paz, mas pelo cenário com menos
estragos possível.

- Muito bem. – a elfa se recompôs
e soltou um longo suspiro – Vamos para Prontera.
A gema foi
arremessada no chão, transformando-se em uma coluna de luz
azul. Raijen estalou os dedos, olhando determinado para a frente. Sem
perder mais tempo, entrou na coluna, desaparecendo. Luthien notou as
pegadas dele no chão. Ficou momentaneamente saudosa, mas,
balançando a cabeça, também entrou no portal.
***
Arredores de Prontera - Entrada do Labirinto da
Floresta
Algumas
horas depois
O
silêncio era matador. O grupo estava sentado na grama, quieto
há alguns minutos. Algumas folhas de papel passavam de mão
em mão. Cada vez que alguém as relia, sentia uma
perturbação enorme. Por fim, uma Lady pegou a tal carta
com fúria e se levantou.
-
Peraí! Deixa eu entender direito então essa p***a! Cês
tão me dizendo que Morroc vai pra casa do c*****o?! É
isso?
-
Eu não usaria estes termos - Luthien falou sem jeito,
ruborizada pelos modos da Lady - mas... sim.
-
P***a! Aí f***u tudo!
Raijen,
também ali, olhou para as duas Suma Sacerdotisas. Elas apenas
mantinham-se quietas, pensativas. Ambas, ruivas, viajavam em seus
próprios pensamentos. Miara, com uma longa trança nas
costas, estava com a cabeça apoiada nos braços,
sentada. Bonnie Heart, com o cabelo mais curto, mexia em uma pequena
coroa dourada, como se fizesse planos.
-
Luthien - disse ela, voltando o olhar para a GM - então deixa
eu repassar, para eu ver se entendi.
-
Claro.
-
Morroc voltará; é inevitável e a cidade será
destruída.
-
Sim.
-
Não existe absolutamente NADA que possamos fazer para impedir
isso.
-
... ... ... ... exato - a resposta demorou para sair.
-
Nossa única chance de contê-lo é por meio de
Thanatos. Mas essa parte eu não entendi direito.
A
elfa se aproximou e sentou mais perto das sacerdotisas, observada
pela Lady. Começou a falar, com a voz baixa.
-
Thanatos foi o único homem capaz de derrotar Morroc. A torre
que ergueram para ele funciona como um tipo de "armazém"
com as suas memórias; tanto que o monstro que reside lá
é a "Memória de Thanatos". Mas essa memória,
porém, não tem o que chamaríamos de "personalidade". São sentimentos
específicos que lhe dão algo próximo de ter uma. E por serem sentimentos ruins, como a Desgraça
e o Ódio, a "Memória de Thanatos" é o
monstro que é encontrado lá, como conhecemos.
-
Tudo bem - disse Bonnie, se ajeitando na grama, sentando mais perto -
Mas eu não entendi o que temos que fazer. O que tem a ver
enfrentar o Thanatos se queremos anular o Morroc? Ele não é um demônio preso na torre, com intenções de dominar o mundo?
-
Essas coisas são por causa dos sentimentos ruins que são usados para
invocá-lo, Bonnie. Temos que fazer sentimentos BONS preencherem sua
memória no
momento em que ele for invocado. Temos que vencer os sentimentos
ruins e substituí-los pelos bons. Assim teremos a esperança
de que ele nos dê alguma luz para sabermos como enfrentar
Morroc.
-
Luz? Esperança? - a Lady mais uma vez ficou indignada - Aqui,
oh orelhuda! Tu já lutou contra Thanatos? - ao dizer isso, a
mulher, de longo cabelo moreno, jogou o Bardiche no chão,
furiosa.
-
Nunca lutei contra ele. Só vi os relatos a respeito, Sandy.
-
Minha filha, com essa p***a desse bicho não tem conversa!
Enquanto tu vai tentar jogar papinho de hippie nele sobre a paz
mundial, ele vai te matar, pegar os seus ossos e ***** *** ***** **
***** ** *****, *******! - disse, dando um chute em um Poring que
tentava inutilmente comer a longa arma.
Luthien
notou que não só ela, mas os demais estavam todos
vermelhos - até mesmo Raijen. Sua voz quase não saía.
-
Eu sei que você já o enfrentou, e sei que seu grupo é
eficiente na batalha típica contra ele. Por isso que sua ajuda
é necessária, Sandy. E essa batalha não será "típica". Precisamos realmente invocar os sentimentos bons dele. É
possível?
A
Lady olhou para as duas Suma Sacerdotisas. Mediu então os dois
GMs.
-
Vocês dois vão com a gente?
-
Vamos.
-
Bonnie, tu vai chamar a sua rapaziada?
-
Vou selecionar alguns Gullwings e iremos.
Sandy
então observou Miara, ainda sentada. Abaixou o tom de voz, um
pouco sem jeito.
-
Desculpa perguntar... mas por que você está aqui? Cadê
o Lea?
-
Ele não está aqui e não virá - Miara
respondeu rapidamente, com a voz firme.
-
Sei que não é da minha conta, e pergunto como amiga. Tu
realmente me desculpe, não quero te desmerecer na liderança,
mas aconteceu alguma coisa com ele? Por que não é ele
que está aqui?
A
ruiva de tranças se levantou. Em seu peito, resplandecia o
brasão rubro-dourado da Ordem do Dragão. Olhou Sandy
nos olhos, firme.
-
Aconteceu algo sim e ele não está conosco. Não
acho educado e próprio falar da vida pessoal de meu líder
e amigo dessa maneira, nessa situação. Ele confiou a
liderança da Ordem do Dragão a mim neste momento. Se
não estou sendo útil, posso lhes desejar ótima
sorte em sua empreitada, senhoritas.
-
N-não, Miara. - Sandy colocou a mão no ombro dela -
Desculpe mesmo. Eu não fiz a pergunta nesse tom. Só
fiquei preocupada porque sei que ele seria o primeiro a estar aqui
pra ir com a gente.
-
Tudo bem, Sandy.
-
Bem... é isso aí, mulherada! - Raijen se levantou e
esticou os braços acima da cabeça, se espreguiçando
- Combinado?
As
quatro olharam para ele, quietas. Sem jeito, ele deu as costas para
elas, disfarçando, enquanto Luthien tomava a frente novamente.
-
Partiremos amanhã à noite. Por favor, convoquem apenas
os que acharem realmente necessários. Levem seus melhores
equipamentos. Na madrugada, subiremos a Torre de Thanatos e
resolveremos isso o mais rápido possível.
-
Eu tenho uma última pergunta, Luthien.
-
Diga, Bonnie.
-
Por que não podemos falar sobre isso para o rei?
Luthien abaixou os olhos. Devagar,
dobrou a carta e guardou-a na bolsa de sua roupa de GM. Sua voz saiu
fraca, baixinha.
- Pelo mesmo motivo pelo qual não
podemos contar com a cidade de Morroc daqui a alguns meses.
A elfa arremessou uma gema no
chão, abrindo um portal. Raijen acenou para as três e
entrou, seguido pela elfa silenciosa. Miara e Bonnie se entreolharam,
sem dizer nada. Sandy parou na frente das duas.
- Aí, só eu não
entendi? Qual a pegadinha? Como assim, "não contar com Morroc
daqui a alguns meses"?
- Sandy, - Bonnie segurou uma gema
azul, também pronta para abrir um portal - não
poderemos contar com a cidade porque ela deixará de existir.
Logo, baseado nessa comparação, o Rei Tristan III...
...
A Suma Sacerdotisa entrou em seu
portal. Miara se levantou, cruzou as mãos no peito e
desapareceu, sob a luz típica do Teleporte. Apenas a Lady e
seu Peco Peco ficaram ali, parados, ao som de grilos, até que a expressão
de Sandy finalmente mudou, com os olhos arregalados.
- ... ... ... entendi! P***a!!!!
***
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