Garra das Trevas
Índice
Capítulo 1 ~ Um novo lar
Capítulo 2 ~ Não estamos sozinhos
Capítulo 3 ~ Luz e sombras
Capítulo 4 ~ Capítulo 1

Roteiro e texto: Rafael de Agostini Ferreira
Character design e arte: Daniel "NIORI" Uires
Os acontecimentos deste capítulo encontram-se na ordem apresentada na seguinte linha cronológica:
Eclipse Final
Ruína de Rune Midgard
Hora Zero
Fim de Rune Midgard
Dämmerung
Shirabara
-> Garra das Trevas <-
Morroc Saga
***
Izlude, cidade-satélite de Prontera
9h50 da manhã
O som de sinos podia ser ouvido por toda parte. Na plataforma de embarque, ao sul da pequenina cidade, carregadores levavam dezenas de malas e pacotes para um veículo imenso - um grande navio, mas com um enorme balão oval preso no alto, que o mantinha suspenso no ar.
- Atenção, senhores passageiros! - berrava um homem com um megafone - Decolamos em vinte minutos! Por favor, queiram embarcar no aeroplano!
O louro sentia-se estranho ali. Izlude era o lar dos Lordes; todos já tinham sido espadachins um dia. Leafar, porém, tinha recebido suas habilidades por "herança" de seu clone, que roubou boa parte de sua vida. Assim, era um "inexperiente Lorde experiente". E não era apenas isso que o incomodava. Não vestia sua armadura. Não tinha por perto nenhum de seus elmos ou nem uma simples espada. Vestia uma camisa entreaberta de cor chamativa, com um cordão dourado no pescoço - ornamento que contrastava com a pulseira negra em seu pulso. No lugar das joelheiras e botas metálicas, somente uma bermuda simples, com sandálias nos pés. Um óculos de lentes vermelhas segurava seu cabelo para trás, naquela visão atípica do líder da Ordem do Dragão.
- Então... férias, não é? - disse ele, olhando a pequena comitiva que o acompanhara até ali.
Seu pai, o Arquimago Leonard Belmont, estava de braço dado com a esposa, Margareth. Miara, a sacerdotisa, usava uma roupa rosa - sinal do treinamento de suas habilidades de Transclasse. O homem de sobretudo preto e cabelo castanho curto era Kaizen, um Justiceiro que tinha recém integrado a guilda. Segurava um embrulho do tamanho de uma caixa de sapatos, observado curioso pelo cãozinho de Leafar, Rush.
- Você precisa, filho. - disse Leonard, olhando orgulhoso.
Leafar suspirou. Não tinha mais como escapar daquilo. Seu pai era um dos homens mais influentes de Geffen. Membro do Conselho de Magia, recentemente Leafar descobrira que ele participara de uma longa jornada secreta para reviver o deus dragão Oparg, padrinho da Ordem do Dragão - sem citar que o próprio Leonard tinha clonado Leafar, usando os conhecimentos do Doutor Lighthal, para salvar sua vida há alguns anos.
E toda essa influência tinha sido aplicada agora para garantir que Leafar teria um descanso. Leonard e Margareth entendiam que ele tinha passado por muitos traumas em pouco tempo, e essa viagem lhe faria bem. Usando os recursos que tinha, Leonard tinha conseguido um lugar para Leafar.
- Eu preciso é levar a minha espada. - respondeu ele, claramente contrariado.
- Nada disso! - foi a mãe quem interrompeu, soltando o braço do marido e indo arrumar sem necessidade o cabelo do filho - Você já faz demais por Rune Midgard! Que é isso? Fanático por trabalho? Precisa descansar um pouco! E lá em Arunafeltz a vida é mais tranquila! Eles possuem uma igreja enorme, e não tem nada de assustador lá perto! Só campos selvagens, com criaturas irrelevantes. Nada de levar espadas, armaduras e afins. Não senhor, mocinho!
Miara e Kaizen riram enquanto Leafar era abraçado pela mãe, quase sendo sufocado. Ele, após libertar-se do aperto materno, aproximou-se dos dois.
- Mia... posso ficar tranquilo então?
- Pode sim, milorde.
Leafar sorriu. Sabia que Miara era respeitosa com seu clone, que tinha fundado a Ordem do Dragão. Depois que o novo Leafar e Miara perderam seus pares, tinham se tornado amigos muito mais próximos. Por muitas vezes, Leafar insistia com ela que não era necessário nenhum tipo de formalidade. Mas mesmo lembrando ela disso todas as vezes, ela continuava chamando-o de "milorde" ou "senhor". Era uma batalha perdida, mas que não o impedia de sorrir quando lembrava-se da fidelidade da amiga.
- Bem, aí tem o número do lugar onde vou ficar. Tem também o meu número.
Kaizen olhou curioso para o aparelho na mão de Miara. Era uma caixa retangular pequena e fina, toda vermelha. Tinha um visor nela, e parecia ser possível abri-la.
- O que é isso mesmo? - perguntou ele, coçando a cabeça.
- É um celular, Kaizen. - disse ela, deixando o Justiceiro olhar - Foi a Bonnie Heart quem nos comprou alguns.
- E pra que isso serve mesmo?
- Funciona igual nossos brasões da Ordem do Dragão. - continuou ela, com paciência - Não nos falamos por eles, onde quer que estejamos?
- Sim!
- Então. Esse celular é a mesma coisa. Mas ao invés de tocarmos ele para falar, digitamos um número. Aí a outra pessoa precisa ter um celular também. O celular dela solta uma música. Nós abrimos ele e falamos.
- Aaah! Aposto que é coisa de Lighthalzen!
- É sim! - Miara sorriu e com delicadeza pegou de volta o aparelho do Justiceiro, enquanto se aproximava de Leafar.
- Certo. - Leafar olhou para o próprio aparelho, de cor preta e discreta - Então você pode me ligar, caso precise. Deixo a Ordem nas suas mãos. Confio no seu julgamento, Mia! E espero que até lá tenha terminado seu treinamento, para usar aquela roupa vermelha bonitona!
A sacerdotisa ruiva sorriu e abraçou o amigo. Antigamente, Miara teria gaguejado e mostrado insegurança. Agora, porém, tinha confiança no que fazer e em como podia exercer plenamente sua liderança.
- Obrigada, senhor. Espero que tenha um ótimo descanso e faça uma boa viagem!
- Leafar! - Kaizen tomou a frente e também abraçou o amigo - Sabe, eu te daria uma espada pra levar, mas sinto que o seu pai ali ia me trucidar! Então tome isso!
O Justiceiro entregou a caixa para Leafar. Rush começou a pular, inquieto.
- Haha! Não repara o cachorro estar louco! Tem chocolate aí! Mas é um chocolate de um evento sazonal, sabe? Os fabricantes dizem que é bom para levantar o astral. Então não coma ele à toa!
- Obrigado, Kai! Vou me lembrar disso!
O louro andou até a plataforma de embarque, onde seu pai entregava uma gorjeta para os carregadores das malas. Virou-se então para ele.
- É isso aí, meu filho. Lembra-se do homem que vai encontrá-lo, né?
- Sim. Albert, não é?
- Exatamente. Ele vai te apresentar a cidade e cuidar de você lá.
- Eu não preciso de cuidados...
- Tsc.Você não vai muito longe assim.
Os dois ficaram quietos. Leafar olhava para o chão, desanimado. O cãozinho notou e deitou-se nos pés dele, complacente. Ao fundo, um navio partia para a cidade de Alberta, enquanto o ar marítimo acariciava gentilmente a todos.
- Filho, escute. - Leonard colocou as duas mãos nos ombros de Leafar, que mantinha-se cabisbaixo - Essa viagem é para você se renovar. Quando Elizabeth morreu, a menina levou com ela todos os vestígios do que aconteceu até agora. Está prestando atenção?
- Sim, pai.
- Não perca mais seu tempo citando os nomes daqueles que se foram. Deixe-os gravados nas lápides do jazigo de nossa família. Cada vez que você perde seu tempo lembrando dessas pessoas, está desperdiçando tempo da sua própria vida. Amanhã ou depois um inimigo pode finalmente derrotá-lo. E o que você terá feito até este momento? Terá vivido plenamente, ou terá passado suas horas em uma lamentação eterna?
Leafar sorriu. Abraçou o pai de maneira sincera, como forma de dizer obrigado.
- Por falar em "viver plenamente" - Leonard discretamente puxou um papel do bolso - aqui tem o endereço de uma casa de moças massagistas em Rachel. Sensacional!
- Pai! - Leafar fechou a expressão, indignado.
- Ora! Você está indo viajar solteiro! O que custa passar lá?
- Lá aonde? - Margareth se aproximou, interessada.
- Em uma... padaria! É maravilhosa! A variedade é algo... hun... incrível! - disse o Arquimago, colocando o papel no bolso da camisa de Leafar.
- Ah, filho! - a mãe colocou as duas mãos no rosto dele - Não deixe de ir lá! Tenho certeza que vai se divertir com tanta coisa gostosa pra comer.
- Ah, sim! - o Arquimago girou os olhos, desconcertado - Com certeza tem muita coisa BOA pro Leafar COMER por lá. - terminou dando uma piscada para ele.
- Tchau, família...
Balançando a cabeça, Leafar acenou e passou pela plataforma. Entregou um bilhete para um homem e, acompanhado de Rush, entrou no enorme navio voador. Em alguns minutos, as amarras tinham sido soltas do chão. Uma grande âncora tinha sido erguida, e o enorme barco estava singrando o céu azul, voando para o norte, furando as nuvens brancas e macias, com destino à cidade de Rachel.

***
Capítulo 1 ~ Um novo lar
Aeroporto de Rachel
13h
Leafar mal deu dois passos para fora do aeroplano, notou um homem aproximando-se dele. Estava vestido com roupas elegantes: um smoking preto, de colete cinza. O rosto oval tinha um bigode curto e bem aparado. A calvície acentuada não conseguia anular totalmente a mescla de tons escuros e claros do que ainda tinha de cabelo, denunciando que não era mais um garoto há algumas décadas.
- Presumo que o senhor seja o General Leafar Belmont, do reino de Rune Midgard.
- Sou eu mesmo, senhor.
- "Senhor" digo eu, senhor. Permita que eu me apresente. Meu nome é Albert, e venho encontrá-lo a pedido de seu pai.
- Prazer, Albert. Eu sou Leafar.
- Encantado, senhor. Com a sua licença, vou recolher sua bagagem. Sua carruagem o aguarda. Por favor, fique à vontade.
Rush correu na frente de Leafar, indo cheirar a carruagem. De madeira, toda bem trabalhada, possuía portas pequeninas, com cortinas na parte interna, escondendo um estofado vermelho. As rodas traseiras eram maiores que as dianteiras, e tinha espaço para as malas tanto na parte posterior quanto no teto. Lampiões apagados encontravam-se à frente e atrás dela, que estava atrelada a quatro Grand Pecos.
- Acho que o meu pai exagerou um pouco...
Albert se aproximava, com alguns rapazes trazendo sua bagagem. Notou que o mordomo tinha algumas moedas douradas nas mãos. Tão logo as malas foram colocadas na carruagem, Albert deu o pagamento para os carregadores. Abriu então a porta para Leafar, que foi atropelado por seu cãozinho, que saltou na sua frente, entrando.
- Nosso tempo estimado de viagem - disse ele, segurando a porta aberta, de olhos fechados, queixo erguido e a outra mão para trás - é de treze minutos e doze segundos.
Agradecendo, Leafar entrou na carruagem. Enquanto o cachorro, inquieto, cheirava os bancos e o chão, Leafar olhou pela janelinha. O solo parecia seco, com pouca vegetação. Apertou os olhos ao notar alguns Drops brincando com um tipo de Poring que era todo de pedra. A carruagem seguia moderada, avançando naquele descampado, até que os muros da cidade de Rachel foram se aproximando.
Cruzaram um enorme arco de pedra, observados por alguns guardas. Rush pulou no colo de Leafar, buscando enxergar o que seu dono via. Notaram casas bonitas, bem construídas e finamente acabadas. Fazia calor, e ouviram o barulho de pessoas pulando no que parecia ser uma lagoa, ao longe. A carruagem foi até o centro da cidade e virou à direita, subindo a rua principal. Parou em frente a uma construção enorme.
- Albert...
- Senhor?
- Isso está certo?
- Creio que não entendi sua questão, senhor.
- Esse é o lugar certo?
O mordomo deu uma curta pigarreada, orgulhoso. Começou a tirar as malas da carruagem pacientemente enquanto falava.
- Acredito que o senhor tenha notado a grande mansão ao noroeste, senhor Belmont. Imagino que pensou que fôssemos para ela. Mas ela pertence ao Sumo Sacerdote Zhed, o homem mais rico de Rachel. Posso lhe garantir, entretanto, que a antiga Mansão Murrieta é tão luxuosa e confortável quanto a do senhor Zhed.
- Albert, eu queria dizer que achei esta mansão... ... mansão? Meu pai me alugou uma mansão?
- De modo algum, senhor. A antiga Mansão Murrieta jamais seria alugada, sob hipótese alguma, devido à sua história.
- Ah, menos mal. Mas o que estamos fazendo aqui, já que ela não é alugada?
- Seu pai a comprou. A antiga Mansão Murrieta agora é a Mansão Belmont.
- Ok. Meu pai REALMENTE exagerou.
Albert adiantou-se e abriu a porta, de cabeça baixa, esperando Leafar entrar. Novamente o cãozinho invadiu o lugar antes de Leafar, correndo e cheirando tudo. O louro olhou sem jeito para o mordomo.
- Ele não é de quebrar nada, Albert. Fique tranquilo.
- Seu cão é tão importante quanto o senhor.
O lugar era imenso. Leafar tinha vivido sua infância na mais modesta casa dos pais, em Geffen. Seu pai tinha um laboratório subterrâneo secreto, mas ele não podia ir brincar lá. Quando saiu do estado de animação suspensa, Leafar alternou entre morar na Catedral de Prontera e na Abadia de Sta. Capitolina, no treinamento de Sacerdote. Depois, ao receber os dons de Lorde, como sinal do final da guerra entre Odin e o deus dragão Oparg, passou a viver viajando entre as cidades do reino, em busca de se aprimorar como combatente e líder. O mais próximo que teve de um lar foi a casa que seu clone e a esposa compraram em Payon; mas nunca chegou a morar lá, doando o lugar para uma associação que cuidava de órfãos.
- Quem morava aqui antes?
- O digníssimo senhor Diego Murrieta, falecido há alguns meses.
Saindo do transe inicial que o impacto da mansão lhe causara, Leafar prestou atenção no mordomo. Ele já tinha recolhido toda a bagagem da carruagem e deixado no chão, perto da porta, do lado de dentro. Segurava uma carta arranjada de maneira bonita em uma bandeja de prata.
- Estas são minhas referências e habilidades, senhor. Sirvo os mestres desta mansão desde que ela foi construída. Se for de seu agrado trazer uma equipe de criados e servos que melhor lhe satisfaçam, ou caso o senhor deseje entrevistar outro mordomo, estarei feliz em providenciar-lhe candidatos enquanto me retiro para a agência de empregos.
- N-não, de modo algum.
Leafar começou a olhar a carta. Era impressionante. Albert cuidava da mansão sozinho. Limpava, cozinhava, arrumava e fazia todas as tarefas de manutenção. Lembrava de compromissos sociais, administrava o dinheiro, fazia compras e ainda falava fluentemente todos os idiomas conhecidos, incluindo élfico.
- Eu... - Leafar dobrou novamente a carta e recolocou-a na bandeja de prata - ... eu só posso dizer obrigado, e que é gratificante tê-lo como mordomo.
- Tenha certeza de que farei o meu melhor... patrão Belmont.
Sem sorrir ou ter qualquer alteração na expressão, Albert fez uma leve reverência. Retomou a postura altiva.
- Seu almoço será servido em trinta minutos, senhor. Devo incluir bebidas alcoólicas no cardápio?
- Não, obrigado.
- Muito bem. Por favor, siga-me.
Albert, carregando parte da bagagem, se adiantou, passando pela lareira e pela sala de estar. Subiu uma grande escadaria, acompanhado de Leafar. Passaram por um corredor longo, até chegar em um quarto enorme.
- Esta é sua suíte, patrão Belmont. O banheiro possui opcionalmente água aquecida, tanto nas torneiras das pias quanto na banheira. Seu banho, aliás, está pronto, com a água fresca para mantê-lo confortável no calor de hoje. Por favor, fique à vontade e toque o sino caso precise de mim. O senhor tem um jantar social esta noite, e se o partão não tiver objeções, vou confirmá-lo para as dezenove horas e trinta minutos.
- Pode confirmar.
- Então, com sua licença, vou terminar de trazer sua bagagem e servir seu almoço.
- Claro. Toda, Albert.
O mordomo fez uma mesura e saiu. Leafar olhou para Rush, que já estava com a cabeça enfiada na privada, bebendo água. Deu uma espiada pelo corredor e viu que Albert já tinha descido. Correu para a cama de casal e pulou de braços abertos, de costas, afundando em uma colcha tão macia quanto o colchão sob ela.
- Aaah! Tudo bem, eu me rendo! - falou, de braços abertos, olhando a cobertura da cama - Ok, ok... estou de férias!
***
Salão de festas do hotel
19h30
A noite estava agradável. O céu, limpo e estrelado, era o ornamento perfeito para aquela recepção ao ar livre. Em volta da piscina, arranjos florais ladeavam mesas com petiscos e iguarias. A água refletia a luz de tochas, estrategicamente colocadas ao redor, valorizando os pratos e bebidas. As pessoas, segurando copos e quitutes, riam e conversavam alto.
Ensaiando se conversava com alguém, Leafar estava de pé. Muita gente já o tinha cumprimentado e se apresentado, mas ele não lembrava de metade do nome das pessoas. Vestia um terno preto, com camisa branca e gravata escura. As abotoaduras douradas tinham a anagrama de família - uma letra B dourada. Mal conseguia se mexer, vestido daquele jeito - preferia mil vezes sua armadura metálica, feita com aço puro de Lighthalzen. Sentiu então um toque leve no ombro. Virou-se e viu Vincent, administrador da outra mansão que vira ao longe, mais cedo.
- Ah, finalmente! Permita-me apresentar-lhe nosso anfitrião, Leafar! - disse o homem.
Vincent deu espaço então para que um outro homem se aproximasse. Era alto, de cabelos brancos e postura firme, apesar do rosto calmo. Vestia uma longa túnica branca, com detalhes ricamente trabalhados. Ele estendeu a mão.
- Leafar Belmont?
- Sim. E o senhor é...?
- Zhed. Zhed B. É uma honra conhecer o filho de nosso doador benemérito!
Os dois se apertaram mãos. Leafar ficou confuso. O que mais seu pai teria aprontado?
- Então o senhor conhece o meu pai, imagino.
- Como não poderia conhecê-lo? Foi parte das doações dele que permitiu que nosso amado Templo de Rachel fosse restaurado! Aliás, muito obrigado pela sua discrição "naquele caso".
Leafar assentiu com a cabeça. Depois do almoço, saíra com Rush a pé para conhecer a cidade. Acabou entrando na mansão de Zhed e conheceu Vincent. Entediado, ajudou o administrador a recuperar uma jóia roubada. Olhou Vincent de canto de olho e notou que ele também deu um suspiro de alívio. Leafar descobrira que Vincent tinha um filho escondido com a jardineira, e tinha sido o garoto o ladrão da jóia. Mas problemas de família não lhe diziam respeito. Limitou-se a recuperar o item, o qual tirava do bolso discretamente.
- Eu que peço desculpas por ter entrado em sua mansão sem o senhor estar nela. Aqui está o que procurava.
Zhed recebeu a pedra com alívio. Guardou-a dentro da batina e segurou a mão de Leafar com as duas próprias, efusivo.
- Eu não tenho palavras para lhe agradecer!
- Não há necessidade, acredite. - Leafar deu um sorriso sincero.
- Escute, creio que tenha muitas histórias interessantes para contar, não? Digo, você é de Rune Midgard e é General do Rei de lá.
- É... já passei por bastante coisa.
- Talvez você queira conhecer a Papisa.
- Papisa?
- Sim. - Zhed abaixou o tom de voz enquanto puxava Leafar de lado, longe das pessoas - Ela vive praticamente isolada, por causa de suas obrigações diárias como nossa líder espiritual. Mas acho que faria muito bem a ela ouvir história de alguém de fora.
- Bom, eu posso contar sobre algumas missões que tive.
- Isso seria fantástico! Ela é tão ocupada que mal conhece os próprios arredores de Rachel. Imagino que tenha viajado até a Caverna de Gelo. Lugar fascinante, não?
- É... fora um bando de hienas que ficaram me seguindo no deserto e um bicho branco e peludo que tentou matar meu cachorro na entrada da caverna, tudo em paz.
- Talvez a Papisa goste de ver algum espólio dessa sua aventura.
- Eu não trouxe meus equipamentos e armas. Meu pai não deixou. Ei, eu não posso encontrar uma espada de duas mãos em alguma loja?
- Acredito que não. E descanse, Leafar. Não há nada de grandioso acontecendo em Rachel! Apareça amanhã de tarde no templo e fale comigo. Vou garantir sua passagem para visitá-la!
O homem deu a mão para Leafar e pediu licença para ir recepcionar outras pessoas que chegavam. Naturalmente, Leafar não protestou e foi até uma das grandes mesas retangulares. Pegou uma torrada e passou um patê rosado nela, que cheirava a salsicha e ervas. Um garçom serviu-lhe um suco, com duas pedras de gelo. Com as duas mãos ocupadas, virou-se, então, para a festa. As pessoas conversavam entre si. Nenhum rosto, fora os de Zhed e Vincent, lhe era conhecido. Nenhum amigo ou familiar estava ali. Estranhava a sensação. Em Rune Midgard, sempre alguém lhe parava para cumprimentar ou conversar um pouco. Ocasionalmente, aventureiros iniciantes vinham lhe pedir conselhos ou mesmo meios de ingressar da Ordem do Dragão. Ali em Rachel, porém, era apenas um convidado ilustre. Ouvira murmúrios descuidados de que era "só um novo rico proeminente e esbanjador", já que comprara a luxuosa mansão.
Comeu sua torrada em duas mordidas e deu um gole em seu suco. Colocou a mão no bolso e sentiu o celular. Pensou em ligar para Miara, para perguntar se estavam tendo algum problema. Achou melhor não perturbar a amiga àquela hora, que costumava dormir cedo. Resolveu ligar para Bonnie, mas concluiu que seria falta de educação puxar aquele aparelho no meio de uma festa e ficar conversando com alguém que não estava ali - aquilo decididamente não lhe fazia o menor sentido.
- Parece perdido, moço.
A voz feminina fez Leafar se virar. Do seu lado, uma garota baixa, de cabelo moreno, liso e comprido, também segurava um copo. Tinha olhos escuros e um sorriso largo no rosto. O vestido claro mexia ocasionalmente com a brisa noturna. Era longo, com um corte em U no busto, que era adornado por um lindo pingente roxo e dourado.
- Ah, eu... é, na verdade... bem...
A garota riu baixinho. Leafar riu de volta, coçando a cabeça.
- Acho que "deslocado" é a melhor palavra. Não conheço quase ninguém aqui.
- Agora me conhece! Prazer, Morrigane!
- Eu sou Leafar. Encantado.
Leafar esticou a mão. Morrigane a pegou e deu dois beijos no rosto dele, um de cada lado.
- Que coisa. Lá em Rune Midgard é apenas um beijo no rosto. Desculpe, fiquei meio...
- Perdido? Então agora acertei!
Os dois riram. Um garçom se aproximou e serviu-lhes mais suco. Morrigane pegou um novo copo. Tomou um gole e ficou olhando curiosa para o louro.
- E o que você faz mesmo, Leafar?
- Sou sou um Lorde. É um tipo de Cavaleiro, mas com mais habilidades de combate. Sou especialista em espada de duas mãos.
A garota começou a rir espontaneamente, deixando Leafar sem jeito. Ele deu um sorriso amarelo, olhando enquanto ela colocava a mão na boca, tentando parar.
- O que eu falei de errado?
- Desculpe-me! É que você não parece do tipo que luta. E por já ter entrado na alta casta da sociedade de Rachel, acho que é mais fácil você contratar seguranças!
- Sei, sei... as aparências enganam. - Leafar começou a andar, acompanhado da jovem - E posso saber o que a senhorita faz da vida?
- Eu sou rica, ora. - a resposta foi imediata e espontânea - Eu faço o que eu quiser.
- Deve ser emocionante...
- Notei sarcasmo na sua voz?
- Desculpe, não foi a intenção.
- Não, sem problema, de verdade! Estou cansada desse povinho daqui de Rachel. Eles são muito submissos, nunca abrem a boca para discordar de nada!
- Disse "desse povinho"? Não é daqui?
Morrigane riu de novo. Deixou o copo na mesa e puxou Leafar pelo braço, fazendo-o virar na direção do centro da festa.

- Aquele de terno marrom é Sir Andrews, de Al De Baran. Aquelas duas senhoras de vestidos verde e branco são de Juno. Aquele homem alto e forte é de Umbala. E minha família vem de Lighthalzen.
- E o que vieram fazer aqui em Rachel, longe de tudo e de todos?
- Não sei. Talvez o mesmo que você? - o olhar dela foi fulminante.
- Você pensa rápido, Morrigane.
- Talvez tão rápido quanto você diz usar sua espada?
- Eu nunca disse que uso minha espada rápido.
- Todos sabem que espadas de duas mãos são feitas para quem é rápido.
- Eu podia ser híbrido.
- Podia, mas tem cara de que é bom no que faz.
- E você, no que é boa?
Antes que Morrigane pudesse responder, um grito alto e agudo atravessou a festa. Vinha da sacada logo acima da piscina, no segundo andar do hotel. "Fique aqui", foi o que Leafar e Morrigane disseram um para o outro, enquanto corriam para o local do grito. Passaram pelos convidados e entraram no hotel. Rapidamente subiram as escadarias. Ao chegarem na porta que dava para a sacada, Leafar parou. Espalmou a mão, pedindo para Morrigane também parar. Com cuidado, ele abriu uma fresta. Seguro de que não havia perigo, puxou a porta e saiu para a sacada.
A luz da lua iluminava um corpo caído de frente. Era um jovem aparentemente típico. Sua nuca estava dilacerada, com a cabeça pendendo para o lado. Havia perfurações nas laterais do seu corpo, que soltavam muito sangue. Alguma coisa estava errada naquela cena. Leafar ficou olhando o corpo, enquanto Morrigane se aproximava, abaixando ao lado dele, examinando. Um som, porém, chamou a atenção de Leafar. Apesar da pouca experiência como Lorde, reconhecia muito bem os sons de uma batalha, mesmo que fosse sutil. Seu ouvido, aguçado, identificou a direção - o andar térreo. E sem dar satisfações à garota, pulou da sacada.
Correu no meio do jardim escuro, dentro da noite. Ouvia um som constante, um tipo de ronronar, que se alternava para vibrações mais intensas. Fazia muito barulho, e o ronronar cessou. Diminuiu o ritmo da corrida, até começar a caminhar na grama. As folhagens das árvores agora eram o único som que podia ser ouvido, além de seus próprios passos. Foi até onde acreditou ser o local onde ouvira a batalha. Uma árvore chamou sua atenção por apresentar um corte recente. Parecia algo feito por uma lâmina bem afiada. Aproximou-se dela e percebeu respingos de sangue. Algo refletiu a luz do luar, fazendo-o se abaixar.
Encontrou um objeto pontudo, parecendo rudimentar, de um único material, branco e afiado.
- O que é isso?
Súbito, virou-se. Conseguiu ver apenas, de relance, um par de olhos brancos em um rosto escuro, com pontas no topo da cabeça. Foi atingido com força. Odiou seu pai por não estar armado e, antes de xingá-lo secretamente em sua mente, desmaiou.
***
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