RagnaTale: Einherjar

Roteiro e texto: Rafael de Agostini Ferreira
Artes: Daniel “NIORI” Uires
Artes: Leonardo “Leonheart” Luccas
Artes e site: Roberto “Huxley” Enachev
Esta história encerra o primeiro ciclo de RagnaTales escritas por Rafael de Agostini Ferreira.
Este capítulo de estréia propositalmente não possui ilustrações.
*****
# Einherjar
“Também conhecidos como ‘Os Guerreiros de Odin’, os Einherjar são os guerreiros mortos recolhidos pelas Valquírias para irem ao palácio de Valhala, onde viverão em banquetes e fartura até o derradeiro dia do Ragnarok. As valquírias escolhiam apenas os melhores e mais heróicos guerreiros.”
# Valhalla
“Na mitologia nórdica ou escandinava é um dos palácios de Odin, onde os guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha.”
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Rune-Midgard: Capítulo 1
~ Descanse, Dragão Dourado
- Eu não vou perguntar uma segunda vez. Onde está ele?
A voz rouca que saía por baixo da máscara negra pontuda aumentava o terror do homem, suspenso por um dos pés no alto do templo de Rachel. A mão que o segurava era de um Algoz, todo de negro. O vento mexia no cabelo louro por trás da máscara, enquanto seus olhos, brancos, fitavam o homem.
- Geffenia! Eles estão em Geffenia! No extremo oeste! Agora por favor me solte!
O Algoz deu de ombros e soltou o tornozelo do homem. Notou ainda os olhos dele dizendo “Espere, não foi isso que eu quis dizer”, mas não tinha tempo a perder. Foram semanas de buscas, perseguindo um nome, que levou a outro, que levou a outro... e assim foi, até chegar ao elo mais fraco desssa corrente de mentiras. Por fim, sabia onde estava o próximo nome. Esmagou uma Asa de Borboleta entre os dedos da luva metálica, desaparecendo no ar.
Quando o mundo voltou ao normal, viu-se na conhecida base subterrânea da Mansão Belmont - a segunda maior residência da cidade de Rachel. Sob uma luz clara, retirou a máscara escura e deixou-a em cima de uma plataforma. Abriu os braços quando notou um homem idoso e calvo se aproximando. Bem vestido, com o olhar tranquilo, o velho começou a retirar katares e adagas que estavam presas em adjacências da armadura negra.
- Confirmou a informação, patrão? - disse ele, com um punhado de armas nas mãos.
- Sim, Albert. Geffenia.
- E quando o senhor pretende partir?
- Rápido.
O som de passos chamou a atenção dos dois. O louro virou-se e sorriu com a visão da ruiva de camisola. O cabelo dela batia nos ombros, em um corte reto. Alguns fios escorriam por cima dos olhos verdes, como os do marido. Sem dizer nada, ela passou pelo mordomo e abraçou o marido. Soltou o louro em poucos segundos, porém.
- Tira essa armadura, por favor. Me machuca.
- Desculpe.
Com a mão, ele segurou um pingente roxo e dourado. Como se fosse um vórtice, o pingente começou algo parecido com “sugar” a armadura. Cada parte dela foi derretendo como um tipo de metal líquido e se concentrou nele, deixando o homem seminu, apenas com uma calça preta colada nas pernas.
- Queria tanto tirar uma foto sua assim, Lea.
- Pra que se você tem o original? - Leafar abraçou a esposa, enquanto Albert guardava as armas em seus respectivos lugares.
De mãos dadas, o casal começou a subir uma escadaria em espiral, de volta para o primeiro piso da mansão. As luzes de velas revelavam pouco da mobília e artes que decoravam o caminho até a escadaria para o segundo andar. O cheiro de comida chamou a atenção do louro. Foi até a cozinha e viu uma garotinha loura sentada em uma cadeira alta. Seus pés não tocavam o chão, balançando no ar, enquanto comia algo que se assemelhava com uma panqueca dobrada, com queijo e molho de tomate escorrendo.
- Seeeeeenhooor Lea!!! - disse ela, saltando e correndo em direção a ele. Em poucos momentos, já tinha abraçado-o, afundando o rosto na altura de sua barriga, sob o sorriso da ruiva.
- Já falei pra ela te chamar de “pai”, “papai” ou apenas de “Lea”. - a ruiva foi até a mesa para preparar um lanche parecido para Leafar.
- Chamo ele como eu quero, tia Bobbô!
- Meu nome é Bonnie Heart, sua peste! E sou sua mãe adotiva!
- Cácácácácácácácácá! - a lourinha riu. Adorava irritar Bonnie.
- Bonnie Heart Belmont, agora. - Leafar soltou a menina e olhou por cima do ombro de Bonnie. Viu ela preparando uma fina massa em uma frigideira, untando-a com molho antes de colocar generosas fatias de queijo.
- Por que você também não colocou Heart no seu nome, senhor Lea?
- Porque é o homem que dá o sobrenome para a mulher, Freya. Entendeu?
- Então você não é mais Belmont? É só Leafar?
- Não, não! Eu dou uma cópia pra ela! O meu nome continua comigo! Entendeu?
- Ah tá! Risos!
Freya escalou novamente a cadeira e continuou seu lanche. Bonnie olhou indignada para ela.
- “Risos”. - disse a ruiva, agora esquentando aquela panqueca diferente no fogão - Como você fala “risos” e não ri?
- Só estava sendo educada, tia Bobbô.
Bonnie não riu de volta. Voltou sua atenção para o fogão. Leafar notou e parou ao lado dela, apoiado na pia.
- Diga, Bonnie. O que aconteceu?
- Você come duas ou três? Está com fome?
- Não é isso. Diga.
- Vai partir de novo amanhã? - ela falou sem tirar os olhos do fogo.
- Eu descobri o paradeiro da última peça. Quero descobrir por que Tristan foi morto. Em Geffenia eu encontrarei a resposta.
Geffenia. Aquele nome causava calafrios em Bonnie. Elfa, sabia que seu povo tinha vivido na maior e mais popular cidade élfica. Seus pais vinham de lá. E mesmo com seus séculos de idade, não estava acostumada a referências à cidade que foi destruída em uma guerra com os humanos há centenas de anos.
- Gostaria de ir hoje mesmo. - continuou Leafar - Na verdade, pretendia tomar apenas um banho e gostaria que você abrisse portal para Geffen.
- Perdi Geffen.
- Freya, tem portal pra Geffen?
- Xiiii! Só pra entrada do templo, pra Hugel e pra Veins.
- Tudo bem, eu pego o aeroplano e...
- Seu pai já ligou oito vezes atrás de você. - Bonnie interrompeu Leafar, jogando a comida em um prato e começando a preparar outra, sem olhar para ele - Acho que ele quer ir junto com você.
- Ótimo, porque assim eu...
- Amanhã é a peça de teatro da Freya. Ou “Ruby”...
- Sou a Ruby! - Freya pegou uma peruca ruiva que estava na ponta da mesa e mostrou para Leafar, que sorriu sem jeito.
- Não vamos entrar na discussão da Ruby de novo, Bonnie, por favor.
- Tudo bem, não é isso. Já entendi que ela não pode se revelar como a antiga Papisa e que precisa desse disfarce.
- Certo. Bom, como ela tem a peça amanhã, então não posso contar com o suporte dela. Vou mandar o Albert preparar os seus equipamentos. Não preciso ir de Garra das Trevas. Consequentemente, você não precisa ir de Raven.
Leafar deu uma mordida na comida e virou-se para pegar um aparelho com fio na parede. Ia falar com o mordomo, mas parou ao ver que era observado por Freya e Bonnie.
- Pois não, patrão. - disse a voz vinda do aparelho.
- Hã... não vai jantar? - sem graça, Leafar disse a primeira coisa que veio à mente.
- Apenas quando um robô Geração III de Kiel Hyre precisar, senhor.
- Claro, Albert. Claro.
O louro então pousou o aparelho de volta e sentou-se à mesa. O olhar lacrimejado de Freya estava lhe cortando o coração.
- Você não vai na minha peça?
- Q-que peça?
- A peça que ela está ensaiando faz três meses, “senhor Lea”. - Bonnie jogou outra panqueca no prato dele - A sobre um tal herói secreto de Rachel, que protege a população original da cidade, sabe? Que possui uma companheira chamada Raven, que cada hora aparece de um tamanho, como se alternasse entre uma criança e uma adulta.
- Eu vou ser a tia Bobbô! - a menina levantou a mão e fez um V acima da cabeça com os dedos.
- Como assim?
- Ela vai fazer o papel da Raven adulta. É uma peça de escola, Leafar. Eles vão reencenar a sua missão do Colégio de Rachel.
- Eu vou fazer a tia Bobbô de Raven, ajudando você a expulsar os bandidos que moravam onde é nossa escola agora! Quem vai fazer você é o João Tempestade! Ele tem oito anos mas o cabelo é igual o seu! Cácácácácácácá!
- E-eu... n-não sabia. Mas uau, que legal!
Freya saltou da cadeira e foi até a direção de Leafar. Pediu para ele se abaixar, e ele assim fez. Ela abraçou-o.
- Tudo bem, senhor Lea. Eu sei que você tem que salvar o mundo e tem esse monte de coisas importante pra fazer. Qualquer coisa a tia Bobbô tira fotos e te mostra depois. Te amo.
A lourinha deu um beijo no rosto de Leafar e sorriu, olhando para ele.
- Também te amo, Freya.
- Uíííííííííííííííí! - disse ela, levantando os dois braços. Ela se afastou então, pegando a peruca ruiva. Voltou até Leafar e deu um ingresso da peça para ele, antes de sair da cozinha.
- Que chato isso. - disse ele, sentando e voltando a comer - Bom, que horas termina lá? Eu vou viajar logo mais pra Izlude. Aí vou pra casa do meu pai e te espero lá. Quer que eu peça pra alguém vir te buscar? Posso pedir pra Hellenia ou pro menino Faradriel.
- Eu não posso ir com você, Lea.
O louro olhou para Bonnie, confuso. Ensaiou dizer algo, mas respirou fundo e continuou comendo sua refeição.
- Você está decidido a realmente ir hoje? Nada no mundo vai lhe fazer mudar de idéia?
- Eu não tenho opção, Bonnie.
- Sempre temos opção, Leafar.
“Leafar”. Conhecidos só o chamavam assim por dois motivos: respeito ou raiva. Ele parou de comer e voltou sua atenção para a ruiva.
- Eu não sou do tipo que tem muita opção quando se trata de lutar, querida. - disse com a voz baixa - Quando precisam de mim, ou eu luto, ou eu luto. Se eu não lutar, então eu tenho que lutar.
- Isso não é vida, Lea. Você não é o único general de Rune-Midgard. E não é o único protetor de Rachel atualmente.
- Você sabe que todas as vezes que eu deixei de lutar, alguém morreu. Perdi minha primeira filha, a Wyla, a Sandy, o...
- Leafar, pára. Por favor. Não começa com essa contagem de corpos de novo! Sem arrependimentos!
- Não é arrependimento! São fatos! Ok, não quer falar de pessoas comuns? Que tal então o Rei Tristan III? Está lá apodrecendo na Ilha! E Morroc? A cidade nunca mais será a mesma!
- Nada disso foi culpa sua. E você não tem poder para impedir esse tipo de coisa.
- Talvez. Mas preciso ter. Para que o mal vença, basta que...
- ... basta que uma pessoa boa não faça nada. Sei, conheço esse discurso decorado.
O louro se levantou. Foi até Bonnie e segurou em seu queixo, levantando seu rosto, que fitava o chão.
- Aconteceu alguma coisa. Eu sinto pelo tom da sua voz. Conte o que foi. - disse ele com a voz suave.
- Nada, Lea. Não aconteceu nada.
- Você não me ama mais?
Ela olhou-o nos olhos.
- Amo como jamais amei qualquer homem, mulher, elfo ou elfa nessa minha vida.
- Está infeliz comigo?
A ruiva abaixou a cabeça novamente. Cruzou os braços e foi até a janela, por onde a luz da lua entrava timidamente.
- Eu não posso ir com você, Lea. Tenho medo.
- Medo do quê?
- Medo por nós.
- Nós? Calma! Até os mosquitos precisam de hora agendada pra entrar nessa mansão!
- Não é isso...
- E você já viu minha espada nova? Uma Lex e um Tyr e nego só vai acordar na próxima encarnação!
- Eu sei que você é forte...
- E a Freya então? A menina tá o demônio! Se fosse homem, seria brigadora de boteco! Nunca pensei que uma Mini Sacerdotisa sem Assumptio fosse tão esperta! Te contei quando fui com ela lutar contra o Faraó? A máscara dele tá servindo agora de cuia pro Rush beber água, lá no quarto dela! Que pena que ela não usa espada!
- Eu sei, Lea...
- Fica tranquila. Eu sei que a vida de casada pode ter te deixado assustada. Bom, dizem que se casamento fosse bom, não precisaria de testemunhas, né?
Ele deu uma piscada, mas ela não riu. Sem jeito, coçou a cabeça.
- Ok, piada sem graça. Desculpe. Mas você não precisa ter medo; você está comigo.
Com carinho, tomou a ruiva nos braços. Tirou o cabelo dela da frente do rosto e beijou-a demoradamente. Ela retribuiu, passando as mãos no pescoço dele e enroscando sua perna na dele. Ele acariciou a tatuagem nas costas dela - um dragão serpente negro. Soltou-a então, dando um beijo na sua testa. Ela segurou as duas mãos dele.
- Desculpe mesmo por eu não poder ir. - a voz de Bonnie saiu baixa.
- Tudo bem. Vou respeitar o seu medo.
- Eu preciso conversar com você na volta, está bem?
- Está bem. Eu vou tomar um banho e arrumar minha mala. Deixa a mesa que o Albert arruma. Depois que eu estiver limpo temos algo mais interessante para fazer em dupla...
Com um tapinha na bunda de Bonnie, que sorriu de volta, Leafar se afastou. E tão logo ele subiu as escadas, a elfa voltou-se para a janela novamente, cuja luz do luar atingia seu peito. Ela se abraçou então, com os braços em volta da barriga, olhando para baixo.
“Não posso tirar a atenção dele nesse final de missão.” - pensou. “Mas ele não entendeu. Ainda estamos com medo. Com muito medo.”
*****
- O relatório da mansão, senhor.
O louro pegou o envelope que tentava fugir das mãos do mordomo por causa da ventania súbita no descampado de Rachel. Estavam sob os pés do aeroporto, olhando o enorme aeroplano que partiria dali a alguns minutos.
- Eu não irei à peça, Albert.
- Deduzi que não iria, patrão.
- Por favor, tire fotos para mim. E filme também.
- Como quiser.
Leafar deu um breve sorriso e estendeu a mão. O mordomo esticou a sua em retribuição e apertou-a.
- Boa viagem, patrão.
- Obrigado. Cuide de tudo até eu voltar.
- Seus desejos são minhas ordens.
Em silêncio, Leafar acenou para alguns carregadores. Eles pegaram quatro grandes malas e levaram para o aeroplano. Não demorou muito até que a embarcação ganhasse o céu. Da murada, Leafar respirou o ar noturno e viu Rachel ficar cada vez mais distante.
*****
- Isso. Geffen, neste endereço.
Leafar deu as moedas de ouro como pagamento ao serviço local de entrega de Izlude. Vestido com sua armadura de Lorde, com a espada presa nas costas, sob a capa azul royal, tomou um gole de leite na barraca perto do desembarque do aeroporto. Saiu a pé pela cidade, já de olho na grande muralha que rodeava a capital Prontera. Passo a passo na grama limpa, notou uma aprendiz correndo de medo de alguns Fabres.
Sorriu.
Tomou a frente da aprendiz e esmurrou as criaturas, deixando-as momentaneamente nocauteadas.
- Você está bem, menina? - disse, virando-se para ela.
- Estou sim, obrigada! Eu juntei mais do que podia matar! - respondeu sem graça.
- Tome cuidado. Nunca ataque mais monstros do que pode atacar, está bem?
- Tá bom. É que era bom pra eu ir treinando correr deles. Vou ser Caçadora. E vou ter que correr muito pra fugir na minha vida!
Uma sensação gostosa de um dejà vú que nunca aconteceu tomou conta de Leafar. Seu clone tinha salvado a esposa ali, nas mesmas condições, com a diferença de que ele era um espadachim. Ficou se perguntando se era algo que realmente tinha que acontecer. Sorriu novamente.
- Está certo. - Leafar olhou Prontera novamente. Ensaiou sair, mas virou-se.
- Hã... posso falar uma coisa? - insistiu, diante da menina sentada, se recuperando.
- Claro!
- Bem... se um dia você fizer parte de um grupo que quer salvar o mundo e lutar ao lado de alguém que te ama... e se você encontrar um inimigo poderoso que pode claramente te matar e você tenha que enfrentar improvisando uma arma que não é a sua.... hã... corra. Ou algo assim. Está bem? - disse, abaixado perto dela.
A menina coçou a cabeça, confusa.
- Eu não sou burra, pode deixar. Jamais faria algo tão idiota. Asa de mosca, meu tio. Asa de mosca...
Com um riso, Leafar levantou-se. Estendeu a mão e, com o pouco poder divino que ainda lhe restava de quando fora Sacerdote, curou a menina de seus ferimentos. Ela mal agradeceu e saiu correndo enquanto ele retomou sua caminhada.
Ao invés de entrar pelo Sul de Prontera, Leafar deu a volta na muralha pelo oeste. Foi até o lago das Valquírias.
Na verdade, “lago” era um nome carinhoso. Tecnicamente, tratava-se de uma poça de água com cerca de dez metros. Ali, naquele lugar, há pouco mais de 500 anos, o último Cavaleiro do Dragão da Era antiga tinha morrido. Julian Belmont, descendente de Leafar, Templário de fé, tinha tombado no final de uma grandiosa guerra que teria exterminado toda a Ordem do Dragão. E sob o olhar do templário morto pelos ataques de Bafomés, as valquírias que recolheram seu corpo choraram, dando origem àquelas águas míticas, que não secavam nunca.
Na cintura, Leafar olhou para a espada Língua de Fogo chamada de Flanamir. Aquela arma tinha sido forjada há séculos, selando a aliança da Ordem do Dragão com Oparg, o deus dos dragões, dando início ao grupo que combateria o mal em todas as suas formas, equilibrando as forças. Leafar não usava aquela espada em combate nunca; era especialista em Espada de Duas Mãos. Em todo caso, carregava-a com orgulho, pois sua magia definia que apenas um líder legítimo da Ordem do Dragão era capaz de empunhá-la ou tirá-la de onde quer que estivesse cravada.
E como ocasionalmente fazia sempre que ia sair em alguma longa missão, ele sacou a Flanamir. Andou até o meio do raso lago e cravou-a. Sabia que a espada ficaria lá até seu retorno. E esperava que ele fosse breve.
O bondoso Rei Tristan III estava morto. Vítima de um sequestro ocasional por homens do reino de Arunafeltz, acabou abandonado e morto na Ilha Esquecida. E tanto sob o manto de General de Rune-Midgard quanto nas sombras de seu exotraje, conhecido como Garra das Trevas, Leafar pesquisou e investigou para saber o que tinha acontecido de verdade com o Rei. E para saber a verdade, precisava saber onde estão escondidos os homens que sequestraram Tristan.
- Geffenia... - murmurou, olhando o próprio reflexo nas águas - ... sempre dizem que o lugar mais óbvio é o menos suspeito.
Geffenia era a cidade élfica que travou guerra contra Glast Heim, a primeira capital do reino dos homens. A batalha foi tão intensa e épica que até hoje Glast Heim é um lugar abandonado, destruído e amaldiçoado. Geffenia não teve sorte diferente, e suas ruínas estão soterradas pela cidade de Geffen - lar dos Belmont.
O louro não reagiu quando suas mãos delicadas tocaram seus olhos, tapando-os. Com um respiro fundo, sentiu o perfume que conhecia muito bem.
- Essência de Rosas Amarelas número 5 da Doce Cabana. - disse ele.
- Me entreguei com ele, né? Mas te peguei de surpresa!
- Eu já tinha notado sua presença há quarenta e dois segundos. O vento trouxe o seu cheiro. Mas deixei você pensar que conseguiu me pegar para se sentir feliz.
Ele se virou e viu a Caçadora ruiva, com o cabelo preso em dois rabos por cima dos ombros. Mal teve tempo de ver a cicatriz por cima do olho esquerdo dela, na face, quando ela o abraçou forte.
- Olha que a Bonnie vai ficar com ciúmes, hein, chefe? Já vi ela bater até em meninas de oito anos por terem chegado menos perto de você que a Sarah!
A voz do Mestre fez Leafar rir. Retribuindo o abraço em Sarah, ele viu o homem, com a roupa típica de sua classe, tirar algumas ervas do campo dos arredores, limpando o lugar.
- Eu sou ex-namorada dele, eu posso, tá? - Sarah riu, deu mais um aperto em Leafar e soltou-o.
- O que fazem aqui a essa hora? - perguntou, olhando a dupla.
- Tem outra iniciação daqui a pouco. Amanhecerá em uma hora e meia no máximo.
- Ah... claro... a iniciação. É do... do...
- Do membro novo que vai integrar a OD e não pôde vir ontem, Leafar. - o Mestre continuou o trabalho de tirar as ervas e deixar a grama limpa para receber as pessoas.
O rostou do Lorde se petrificou e perdeu a cor. Tinha se esquecido completamente da iniciação. Entrar na Ordem do Dragão não era apenas receber um brasão; era conhecer a história da guilda e ser fiel a seus ideais.
- Castor... será que você podia... - ia dizendo, mas o Mestre se virou, interrompendo.
- ... fazer a iniciação? Claro. Seu pai me falou que tinha marcado com você e me pediu isso. Há dois dias.
- Ah... claro.
- Sarah, será que você pode me ajud...
Ao se virar, Castor parou. Viu a Caçadora encarando uma Arquimaga morena que tinha acabado de chegar.
- ... e sozinha, com o MEU namorado, aqui? Estou de olho, garota! - falou a Arquimaga, ajeitando nervosamente uma flor branca que usava no cabelo.
- Não que te interesse Míriël, mas eu estou aqui por causa do Leafar, não por causa do Castor.
- Leafar? - Míriël voltou sua atenção para o Lorde no meio do lago. Passou correndo por Castor, que ficou de braços abertos, e abraçou o Lorde - O que faz aqui tão cedo?
- Eu vim cravar a Flanamir no lago. Vou sair em missão e devo demorar.
- É que eu vi a Sarah aqui, e como eu sabia que o Castor viria pra... Castor!
Sem jeito, ela soltou Leafar e foi dar um beijo no Mestre, que só murmurou um “oi pra você também, Míriël”. Balançando a cabeça negativamente, Leafar se abaixou e tirou as luvas metálicas. Molhou as mãos nas águas e limpou o rosto demoradamente, massageando também as têmporas. Fez uma concha então e bebeu alguns goles, sussurrando uma oração de proteção às valquírias. Foi até a espada cravada, segurou em sua empunhadura e sussurrou outra oração, desta vez ao deus Oparg.
- Dragão Verde. - disse, olhando o Mestre.
- Sim, Leafar?
- Deixe meus votos de boas-vindas aos novos membros. E diga-lhes para que honrem as cores que irão receber.
- Pode deixar.
- Cuide bem da guilda. Com a ausência, você é o oficial de maior cargo. Raasckar e Hellenia devem seguir seus comandos. E espero que faça escolhas certas, como de costume.
- Obrigado pela confiança.
- Míriël, até mais!
- Até, Le!- a Arquimaga ensaiou soltar o braço de Castor para ir abraçar Leafar de novo, mas desistiu quando viu Sarah passar a mão nas costas de Leafar.
- Até, Lea... boa sorte. - a Caçadora deu um beijo exagerado no rosto de Leafar, segurando sua cabeça com as mãos, olhando de canto de olho para Míriël, que apertava sem saber a unha no braço do Mestre.
- Obrigado, Sarah. Falcão maluco. - fez um aceno de cabeça para o céu.
Do alto, Scar, o falcão de Sarah, se manifestou. A Caçadora riu.
- Não façam nada que eu não faria, minhas crianças. - com uma piscada, Leafar começou a se afastar na trilha que levava para fora daquela clareira.
- Para onde vai, chefe? - Castor gritou.
- Para Geffen.
- Quer portal?
- Obrigado, mas vou a pé. Preciso pensar um pouco.
*****
Margareth Belmont não se assustou quando viu o marido sentado na sala. Em uma cena extremamente rara, Leonard Belmont estava apenas de cueca, recostado na confortável poltrona. Olhava para o Elmo Angelical da esposa, da época em que ela atuava como Lady e, secretamente, como sua parceira Raven, quando ele próprio fora o Garra das Trevas, em Rachel.
- Eu imagino quanto seus colegas do Conselho de Magia pagariam por uma foto sua nesse estado, querido. - disse ela.
Ele não respondeu. Apenas correu os olhos para a janela, espiando para ver se o sol já tinha começado a despontar. Margareth foi até ele e sentou no seu colo.
- Já pensou? - insistiu ela - O chefe da guilda e conselho de magia de Geffen em sua casa, apenas de ceroulas, olhando heroicamente para o nada!
Leonard respirou fundo. Olhou para a parede, com olheiras claras.
- Eu não consegui dormir.
- Fez muito calor essa noite. - a esposa respondeu rapidamente.
- Faz uma semana que você não prepara o meu chá.
- Está abafado demais para você tomar qualquer coisa quente, querido.
Com carinho, ele tirou Margareth de seu colo. Andou até a janela e abriu a cortina, vigiando o sol que começava a nascer no leste.
- Tem alguma coisa errada. O dia de hoje... não sei dizer.
- Fique calmo. Hoje é o dia em que você e o Lea vão para Geffenia. Você tem algo muito importante para fazer lá, lembra?
O homem apertou os olhos. Sua mente doía. Sem falsa modéstia, sabia que era um dos homens mais brilhantes do mundo. Era consultado por gente de toda parte, de todos os reinos, em busca de conselhos, orientação e paz. Mas sua cabeça, habituada a deduções rápidas, com uma lógica incrível, não conseguia ordenar os pensamentos. E isso ficou claro quando ouviu batidas na porta e imediatamente abriu-a.
- Entrem.
Os dois elfos ficaram boquiabertos. Entraram, totalmente constrangidos.
- Vocês dois sabem o motivo de estarem aqui hoje. Eu vou com Leafar para Geffenia. Os bandidos que raptaram Tristan estão lá. Vamos dar um fim nisso e descobrir de uma vez por todas quem está por trás disso.
- Leo... - Hellenia, a elfa morena, levantou a mão, mas o Arquimago continuou falando.
- Eu mesmo estarei com o meu filho. Logo, vou protegê-lo. Vocês dois têm a missão primordial de proteger a Ordem do Dragão com suas vidas. Essa é sua diretriz básica como Sombras até voltarmos.
- Claro, Leo. - o elfo, de cabelo verde e liso, assentiu com a cabeça. - Mas eu queria dizer que...
- Depois, Essny. Depois. Hellenia, venha comigo. Quero te mostrar uma coisa.
A elfa ruborizou. Olhou para o companheiro elfo, que soltou a mão dela.
- Pode ir, está tudo bem. Acho.
- Obrigada, Chris.
Enquanto Leonard e Hellenia se afastavam, Margareth se aproximou do elfo, com os braços cruzados.
- Não sei como você não se confunde com tantos nomes. Essny, Christian...
- É jeito. Nome elfo para os amigos íntimos, nome humano para o resto... e para Lenia, que me conheceu assim.
- Depois de tantas décadas, ainda não estou acostumada a ser chamada de Margareth.
- Não diga isso! - Essny falou em élfico. - Ele pode ouvir e desconfiar de algo!
- Fique tranquilo. Ele está sem o chá. Está se desintoxicando. A cabeça dele não vai ser capaz de assimilar nada por enquanto. Ele tem uma missão e você sabe quão importante é o dia de hoje.
- Sim. - o elfo olhou para o chão. - Hoje é o dia em que todas as nossas vidas vão mudar.
- Para sempre... - completou Margareth.
*****
- Senhor Leonard, eu realmente acho que o senhor...
- Calada. Preciso te mostrar isso.
Depois de andar por alguns corredores subterrâneos e portas com monogramas, os dois chegaram ao laboratório do Arquimago. Ele foi direto em um cofre, murmurou encantamentos, passou as mãos e abriu-o, retirando um envelope.
- Bakhur. - disse ele, entregando o envelope para Hellenia.
- O que é Bakhur?
- Eu vou para Geffenia sozinho com o meu filho. Não sei quando vamos voltar. E pior: não sei COMO vamos voltar. E entenda “como” por “situação”. As variáveis não estão claras pra mim. E não sei qual a chance de alguém dominar o Essny.
- Por que alguém dominaria o Essny?
- Eu não sei. Talvez não aconteça nunca. Mas não sei quanto tempo vamos demorar. E caso isso aconteça, Essny ficará suscestível a eventuais ataques. E ele é poderoso demais. - Leonard segurou a assustada Hellenia pelos ombros - Ele consegue matar valquírias sozinho. Você entende quão forte ele é?
- Sim, nunca duvidei disso, ora!
- Se ele for controlado por outras pessoas, alguém deve detê-lo. E eu sempre tenho algo pronto para isso. E esse é Bakhur.
- Então ele é uma pessoa.
- Quase. É um clone.
- Clone de qu... ! - os olhos da elfa se arregalaram - Não me diga que o senhor clonou o Essny!
- Não. Seu namorado venceu inúmeros clones do meu filho. Ele é capaz de matar Leafar, caso necessário, cego e com apenas uma das mãos. Ele venceu todos os clones dele. Todos... menos um, que ele jamais conheceu.
- O senhor tem outro clone do seu filho? - Hellenia ficou chocada.
- Sim. Mas fique tranquila. Ele sabe que é clone, não tem problemas em saber que foi feito a partir de outra pessoa e vive uma vida feliz.
- Mas todos os clones que fizeram até hoje deram problema! Todos se revoltaram, todos viraram monstros! Como o senhor resolveu isso?
- Dei a ele uma característica básica de qualquer ser humano bem sucedido: auto-estima.
- E onde encontro ele?
- O envelope tem as instruções. Ele é uma Sombra também.
Hellenia abaixou o envelope e olhou para Leonard. Notou que ele suava. Ensaiou colocar a mão no ombro dele, mas ficou sem jeito. Ele, por sua vez, apoiou-se em um encosto de cadeira.
- Tem alguma coisa errada.
- Senhor Leonard? - a elfa olhou curiosa.
- Eu não sei. Não dormi essa noite. Estou com uma sensação ruim. É algo que... não sei. Me acompanha há muito tempo. Muito. É como uma bomba-relógio. Por anos é como se eu tivesse escutado seu barulho em minha cabeça. E agora ela está em silêncio. Pronta para explodir.
- Fique calmo, senhor.
- Eu estou calmo. Mas não estou tomando tantas precauções à toa. Eu SEI que algo vai acontecer hoje.
- Pai?
Leonard virou-se para a porta e notou Leafar, Essny e Margareth parados.
- Você pode me explicar o que está fazendo sozinho com a Hellenia...
- Estou dando uma missão para ela! - o Arquimago falou depressa.
- ... apenas de cueca? - terminou o Lorde.
- ... ... ... ... ... ... ... eu não sei.
*****
- É realmente um belo dia.
Leafar se virou. Sua mãe ajeitou o Elmo de Morrigane em sua cabeça - não sem antes dar um beijo em sua testa. O Lorde então se virou para os elfos.
- Bem, Chris, Hellenia... obrigado por terem vindo. Eu realmente gostaria que viessem conosco, mas é uma pena que já tenham algo para fazer.
- Desculpe mesmo, Leafar. - o elfo sorriu - Não temos como acompanhá-los dessa vez.
- Tomem cuidado, está bem? - Hellenia se despediu dos dois.
- Tá comigo, tá com deus. Fica tranquila! - Leafar piscou e se virou. Seu pai não perdeu tempo.
- Abra o portal.
Leafar tirou do bolso um pingente de cristal, adornado com ouro. O “Lamento de Lúcifer” era a jóia que selava a entrada para Geffenia, escondida sob a fonte de Geffen. Poucas dessas chaves existiam no mundo. A cidade estava estranhamente vazia e Leafar não perdeu tempo em entrar na fonte e encaixar a pedra na fechadura.
E enquanto Leafar e Leonard sumiam nas águas, Margareth virou e correu para casa. Hellenia e Christian se entreolharam e foram atrás dela. Quando a alcançaram, ela estava encolhida perto da janela, chorando.
- Calma, amiga. - Hellenia se abaixou perto dela - Agora vai ficar tudo bem.
- Vai? Eu não sei mais. Eu não sei!
- Por que não?
- Eu só sei até... vocês sabem quando. Eu não sei como continua depois. Eu não sei mais... estou com medo!
Enquanto Hellenia acudia a mulher, levando-a para a cozinha, Essny notou algo brilhante, bem no lugar onde ela estava. Abaixou-se e pegou.
- O que é isso? - apertou os olhos. Parecia um broche dourado de criança, dos que as crianças humanas costumavam receber quando se formavam - Turma de... hmm... está apagado. 88?
*****
A visão era triste. Geffenia já tinha sido uma cidade belísima. Lar dos elfos, tinha construções enormes, admiráveis, que enchiam os olhos de seus visitantes. Tudo isso, agora, se não estava em ruínas, estava no fundo dos abismos que tinham engolido a cidade.
E nesse cenário cheio de criaturas banidas da superfície, como Sucubus e Incubus, Anjos Falsos e outras aberrações, Leafar e Leonard Belmont avançavam. Ora a espada do Lorde cortava em pedaços os monstros; ora eram as magias do Arquimago que transformavam as criaturas em pó. E inimigo a inimigo, foram ganhando terreno. Por fim, no quadrante oeste, Leafar parou tão logo arremessou para o breu os restos de um Cavaleiro do Abismo.
- Pai, você também notou?
- Sim. Tem alguma coisa estranha no ar. Peça para Albert analisar.
Leafar tirou o elmo e colocou um aparelho modificado no rosto - um monóculo tecnológico, com lente vermelha, preso a sua orelha. Seu pai era uma das pouquíssimas pessoas no mundo que sabiam que ele era o Garra das Trevas.
Os dois ficaram sentados no chão de pedra escura. Não falavam nada. Sentiam um vazio estranho. Algo lhes tirava a vontade de conversar. E assim ficaram até que um bipe no aparelho chamou sua atenção.
- Análise concluída com sucesso, patrão. - disse a voz do mordomo pelo aparelho, que emitia ela de modo que Leonard também pudesse ouvir - Trata-se de uma nuvem de pó de ferro, que está grudando em vocês e suas coisas.
- Pó de ferro?
- Sim. Mas o composto dessa nuvem é sobrenatural. Nenhum dos elementos faz parte de Geffenia. Sugiro que saiam daí imediatamente.
- Albert. - disse o Arquimago.
- Pois não?
- Apenas confirme algo. Esta nuvem aparentemente está aqui de propósito?
- Exato.
- Obrigado. Desligue e aguarde instruções.
- Pois não.
Leonard se levantou. Olhou ao redor. Não havia nada por perto, exceto a caverna ao longe, no extremo oeste do quadrante onde estavam.
- Se isso está aqui, é porque achamos, filho. Estamos perto.
- Albert nos mandou voltar.
- Não podemos. Eles estão ali. Ele sabem que estamos aqui. Esse pó de ferro no ar é uma defesa. Um último recurso. Se voltarmos, sabe-se lá quanto tempo demoraremos até ter pistas que nos levem a eles novamente.
- Pai... esse pó de ferro está nos deixando com peso extra. Sabe o que isso significa, não sabe?
- Sim. Nosso poder mágico não vai se restaurar. Não conseguiremos usar nossas Habilidades.
- O meu poder já não está se restaurando. Eu estou pesado. O senhor então deve estar mais ainda.
- Aquela caverna não é funda. Eu conheço ela. Eles não possuem mais que quatro metros de profundidade e três abaixo do nível do solo. Ao redor deles, apenas um abismo. Na frente, esta trilha onde estamos. Eles estão encurralados.
- Então está bem. Confio no senhor. Vamos.
Os dois continuaram andando até a frente da caverna. A alguns metros, porém, pararam. Leonard tomou a frente.
- Não vamos perder tempo. - berrou - Nós sabemos que vocês estão aí e vocês sabem que estamos aqui. Saiam e rendam-se. Se não fizerem isso, eu destruirei não apenas vocês, mas suas famílias, amigos e quaisquer pessoas com as quais tiveram contato e que sejam importantes para vocês.
Dois homens surgiram. Vestiam roupas da guarda de Rachel. Cada um segurava uma espada.
- Não nos machuquem, por favor! Não queremos encrenca!
- Então rendam-se! Joguem fora suas armas e fiquem de joelhos!
Atendendo o que o Arquimago falou, os homens soltaram as espadas. Colocaram as mãos na cabeça e se ajoelharam. Leafar e Leonard começaram a se aproximar. O Lorde apertou os olhos.
- Pai, não acha estranho isso?
- O que?
- O rei morreu há meses. E mesmo assim esses homens estão usando roupas de Rachel.
- Não tiveram tempo para roubar ninguém ainda, ora.
- Não sei. Parece que isso é só para nos provar que eles são quem procuramos. E acho que só fariam isso por um motivo.
- Qual?
- Pai, é uma cilada!
Leafar virou-se. Leonard disparou duas Rajadas Congelantes, que transformaram os dois homens em pedras de gelo. Quando se virou, viu, com o filho, uma grande camada de pedra se deslocar, suspensa por golens. Dela, uma quantidade absurda de homens encapuzados saiu.
Outrora, o Lorde teria bradado alguma ofensa ou provocação. Teria perdido seu tempo perguntando quem eram e o que faziam ali. Mas tinha aprendido, sob a identidade do Algoz Garra das Trevas, que algumas atitudes não ajudavam na sobrevivência. E questionar inimigos antes de lutar não era uma delas. Pessoas de má índole só respondiam a questionamentos sob ameaça e tortura. Apenas vilões de fábulas ou idiotas completos contavam seus planos sem o menor pudor apenas sendo questionados sobre eles.
A espada do Lorde, larga, batia. Com o Impacto de Tyr, arremessava inimigos aos montes no abismo. Sua lâmina bebia o sangue deles como uma faca quente cortava manteiga. Com suas habilidades, Leafar aparava facilmente todos os golpes que o focavam. Quando não, conseguia se esquivar sem dificuldades. Estava fazendo uma das melhores coisas que sabia: lutava e enfrentava sozinho dezenas de oponentes.
Leonard, por sua vez, sem ter saído do lugar onde estava, apenas se dando o trabalho de mover as mãos, fazia o fogo castigar seus alvos. Prendia eles com suas Barreiras de Gelo e fazia com que o chão que elas cercavam queimasse com fogo puro, em colunas infernais.
Cruel. Covarde. Injusta.
Damos à morte muitos nomes. Um ditado diz que devemos viver cada dia como se fosse o último, pois um dia acertaremos. Ninguém sabe quando e como vai morrer. Não temos a chance de nos despedir das pessoas que amamos ou que nos são especiais. Nenhum de nós tem a oportunidade de dar um último abraço, um último beijo ou um último adeus. “Olhe, vou morrer amanhã. Então dê-me um último e demorado beijo”. Isso não existe. Do mesmo modo, não escolhemos como a morte vai nos abraçar. Não temos o poder de decidir se será um acidente, um assassinato ou natural. Nem mesmo uma grande batalha contra um nêmesis invencível ou um rival antigo. Faz parte da “injustiça” da morte esse seu elemento surpresa. Faz parte de sua beleza.
E Leafar descobriu isso quando um terceiro homem saiu da caverna. O louro já tinha enfrentado muitos inimigos. Venceu o lendário Mestre-Ferreiro Hrymm em diversas ocasiões. Derrotou não apenas Jestr, o rei dos gatunos, como Jô Mungadr, sua antecessora no status de lenda heróica. Lutou ao lado da Rainha dos Mortos. Chegou ao absurdo de trocar golpes com o deus Loki. Superou o general traidor Dhutt. Tornou-se não apenas General de confiança do Rei Tristan III, mas era também o herói anônimo que todas as noites patrulhava a cidade de Rachel, protegendo sua população. Enfrentou cada criatura existente, desde os monstros mais mundanos até o mais poderoso dos MVPs. Gerou uma legião de admiradores. Com ela, cultivou a inveja em pessoas que não suportavam o seu sucesso e que se contentavam em viver sob sua sombra, desejando seu mal apenas por não ter capacidade de se igualar a ele. Sobreviveu a um ataque feroz de Lucil, amada do lendário Thanatos. Viu a destruição da cidade de Morroc com seus próprios olhos, mas não sem antes ter enfrentado uma parcela do poder do Satã, que entre várias artimanhas, chegou a fazê-lo lutar com seu próprio clone.
E nenhum desses oponentes conseguiu o que aquele homem desconhecido conseguia agora. Ele não era ninguém especial. Não tinha uma história de vida triste que o tenha levado a estar ali, não buscava vingança ou sequer tinha algum ódio insano por Leafar. Ele apenas foi pago. Foi pago para aguardar. Sabia que um pouco mais de uma centena morreria. Foi pago para esperar na escuridão, segurando nada mais que uma adaga feita de um material especial, capaz de cortar a mais espessa camada de aço.
E se o metal era cortado com tal facilidade, a carne, então, mais ainda. A boca de Leafar se abriu sem soltar nenhum som. Deu uma última respirada, puxando o fôlego pela última vez, como uma pessoa que se afoga e tenta se salvar. Sua espada tocou o chão, quicando na pedra, enquanto sentia a arma que o atingia retorcer sua carne. Virou-se, encarando seu executor. Sua mão direita voou em seu pomo-de-adão e, com os olhos furiosos, começou a apertar. Levantou-o do chão. O homem começou a perder o ar. Tomado de fúria e indignação, Leafar apertou os dedos sob a luva metálica, parando apenas quando ouviu o estalo dos ossos do pescoço do homem sob eles. Ficou encarando-o nos olhos, lutando para ficar vivo. Fazia questão de vê-lo morrer. Ouviu então a voz do pai, berrando seu nome. Mas estava tudo muito longe. Viu, na mão do cadáver, a adaga que o atingira. E soltou o seu corpo, ainda parado na mesma posição.
Piscou uma vez, lentamente. Sabia que sem a própria arma que o atingira para estancar o ferimento, na altura de seu coração, estava com os segundos contados. Quando abriu os olhos, estava chorando. Não queria morrer. Não ali. Tinha muitas coisas para fazer. Muitas lições para ensinar. Muito mais para aprender. Queria se despedir de seus amigos. Queria abraçar seus parentes. Dormir no colo de Freya. Beijar Bonnie mais uma vez. Jogar flores nos túmulos de Aislinn, no Labirinto, no de Liza, em Geffen, e nos de Julian e Elessar em Prontera.
Cruel. Covarde. Injusto. Mas real.
E assim, com essas palavras em sua mente, na pose em que estava, o som deixava de existir para ele. Seu nariz não diferenciava mais os odores. O sangue quente, que caía aos montes do buraco em suas costas, não era mais sentido. O gosto de suas lágrimas se apagou de sua boca. Seus olhos verdes se fecharam. Escuridão. Silêncio. Paz. Morria, ali, sob a visão aterradora e desesperada de seu pai, o General de Rune-Midgard; líder da Ordem do Dragão; herói assumido da cidade de Prontera; defensor anônimo do povo de de Rachel; viúvo de uma esposa da qual nunca beijou; pai de uma filha que nunca pôde amar; ídolo de uma garotinha adotada que salvou; exemplo para jovens que nunca conheceu; amigo leal dos que conquistou; respeitado pelos Guardiões de Midgard; marido da mulher que mais amou; Belmont. Lea. Le. Lafaer. Jöseph. Chefe. Patrão. Irmão Valmont. Garra das Trevas.
Morria, por fim, Leafar.
*****
Algumas horas mais tarde
Em Prontera, Castor estava boquiaberto, segurando Míriël, desmaiada. Os membros da Ordem do Dragão ali presentes estavam com os olhos lacrimejados. Leonheart levantou-se furioso. O lorde ruivo deu um murro na mesa e saiu. Sarah estava na mesma posição, respirando depressa, com os olhos vermelhos, esperando para explodir em choro. A ex-rainha, viúva de Tristan III, mantinha-se longe daquela pequena tela brilhante, abalada.
Em Geffen, Hellenia resignava-se a consolar Margareth, profundamente abatida. Essny, de braços cruzados, olhava o sol ao longe, mordendo os dentes. Na longínqua cidade de Lighthalzen, Morrigane chorava abraçada a Diego, que não acreditava na mensagem que ouvia.
Em Asgard, no salão dos guardiões, Alleria estava parada, descrente. A elfa estava chocada, vendo naquele aparelho a imagem de um homem idoso e calvo, que repetia uma mensagem dolorosa.
“A quem estiver lendo esta mensagem, saiba que meu nome é Albert Gordon. Trabalho como mordomo na Mansão Belmont, na cidade de Rachel. Com grande peso no coração, informo o falecimento de meu patrão, Leafar Belmont, filho de Leonard e Margareth Belmont, general de Rune-Midgard, nesta sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009.
O patrão Belmont partiu em missão com seu pai e, por normas de segurança de sua mansão, tinha seus sinais monitorados por nosso sistema de suporte vital. Seu óbito aconteceu às 8h23 desta manhã, por hemorragia seguida de falência múltipla dos órgãos, ocasionada por um ferimento em suas costas. Tal informação foi confirmada por seu pai, que desafortunadamente ainda encontra-se preso dentro de Geffenia, o local de tal fatalidade.
Acredito que os senhores e senhoras queiram se reunir para ao menos resgatar o corpo do patrão Leafar e evitar que seu pai tenha o mesmo destino. Para tanto, solicito comparecimento em caráter de urgência na Mansão Belmont, cujo endereço está anexo a esta mensagem.
Meus mais sinceros e profundos pêsames.”
E segurando uma dessas peças, Albert encontrava-se de pé atrás da última fileira do teatro improvisado em Rachel. Via um menino vestido com uma roupa de papelão de Algoz, com katares do mesmo material, enquanto Freya, com sua peruca vermelha, fingia ironicamente ser ela mesma, mas com uma versão mal feita de sua roupa de Raven.
- Raven! - gritou de maneira exagerada o menino, fazendo pose com a capa - Salvamos o dia novamente!
- Santa sagacidade, Garra das Trevas! Yoyos me mordam se você não estiver certo!
E com essas palavras, os dois correram para o fundo do palco, sumindo atrás das cortinas sob aplausos dos pais das crianças que fizeram a montagem. Albert notou Bonnie indo para o camarim e seguiu-a de longe. Pacientemente esperou que apenas a Suma Sacerdotisa e Freya ficassem no lugar, para trancar a porta e falar com elas a sós.
E provavelmente sofrendo mais do que todos os adultos citados, a pequena Freya desabou. Nenhuma palavra neste mundo seria capaz de descrever a dor que a menina sentia, enquanto seus olhos, cheios de lágrimas, buscavam resposta no rosto choroso de Bonnie, com as mãozinhas delicadas apertando seu vestido tão forte a ponto de quase rasgá-lo. Sua voz, sempre feliz, agora começava a sumir em repetidos “por quê?”.
*****